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Alan Jones, piloto de Fórmula 1, falecido, considerado um campeão subestimado

Alan Jones, piloto de Fórmula 1, falecido, considerado um campeão subestimado

Ao longo da história da Fórmula 1, existem inúmeros pilotos notáveis, mas apenas um grupo se torna verdadeiras celebridades, reconhecidas até mesmo por quem não acompanha o esporte regularmente. Para alcançar esse status, é necessária uma combinação específica de talento, carisma, personalidade e a sorte de pilotar um carro de uma equipe de alto nível. Nomes como Ayrton Senna, Michael Schumacher, Nelson Piquet e Lewis Hamilton são exemplos desse grupo, alguns por serem bons indivíduos, outros por serem eloquentes, e outros por possuírem uma presença marcante fora do cockpit. No entanto, fama e habilidade não são equivalentes, e muitos pilotos, mesmo após vencer corridas e conquistar títulos, não conseguem atrair a atenção pública. Esta realidade demonstra que o mundo nem sempre é justo. Nesta quinta-feira, dia 5 de novembro, faleceu Alan Jones. Ele pertencia a esse grupo de talentos inegáveis e de imensa importância para uma das equipes mais bem-sucedidas da história da Fórmula 1. É possível afirmar que Jones foi crucial para que a Williams se estabelecesse como uma força dominante nas décadas subsequentes, período em que a equipe alcançou nove títulos de construtores e sete de pilotos entre 1980 e 1997, com destaque para o domínio entre 1992 e 1997, quando conquistou cinco dos seis campeonatos de construtores. A trajetória de Alan Jones começou muito antes de sua entrada na Fórmula 1. Nascido em Melbourne, Austrália, em 1946, ele era filho de Stan Jones, um proeminente nome do automobilismo australiano, vencedor do Grande Prêmio da Austrália de 1959. Seu interesse por corridas surgiu naturalmente: aos 15 anos, Alan já havia ganhado o campeonato estadual de kart e começou a competir em Mini e monopostos da Cooper. Sua primeira tentativa de carreira na Europa ocorreu em 1967, mas problemas financeiros forçaram o abandono dos planos. Três anos depois, ele retornou à Inglaterra com apenas 50 libras, necessitando ser criativo para financiar seus sonhos. Para isso, ele alugou uma pensão e alugou quartos para viajantes, além de montar um pequeno negócio de compra e venda de minivans usadas, focado em australianos residentes na Inglaterra. Os lucros modestos dessas atividades sustentavam Jones e sua namorada, Bev, que mais tarde se casaria com ele, sobrando o necessário para suas competições. A progressão foi gradual. Após uma participação discreta na Fórmula Ford, Jones sofreu um acidente durante testes com um Lotus de Fórmula 3 em Brands Hatch, resultando em uma fratura na perna. A virada em sua carreira aconteceu em 1973, quando ele obteve uma vaga patrocinada na equipe DART, de Denys Dobbie, pilotando o GRD 373. Foi neste carro que ele conquistou sua primeira vitória em Silverstone e terminou o campeonato britânico de F3 em segundo lugar. Seus resultados na Fórmula Atlantic no ano seguinte abriram as portas para a categoria máxima. Jones estreou na Fórmula 1 em 1975, no Grande Prêmio da Espanha, pilotando um Hesketh. Após um breve tempo na equipe, ele substituiu Rolf Stommelen na equipe de Graham Hill, obtendo o quinto lugar no GP da Alemanha, realizado em Nürburgring. Em 1976, ele dirigiu para a Surtees, mas o relacionamento complicado com John Surtees e o desempenho mediano do veículo o levaram a não continuar no ano seguinte. Contudo, 1977 trouxe uma oportunidade inesperada. Após o trágico falecimento de Tom Pryce no Grande Prêmio da África do Sul, a equipe Shadow o contratou para substituir o galês. Ainda naquela mesma temporada, ele alcançou sua primeira vitória na Fórmula 1, no Grande Prêmio da Áustria, disputado sob condições de pista variáveis. Este feito chamou a atenção de equipes maiores e colocou seu nome no radar de Frank Williams, que estava passando por um momento de transformação. Por quase uma década, ele havia gerenciado a Frank Williams Racing Cars, sua primeira equipe, operando em um modelo típico de garagem britânica: independente, enxuta e com recursos limitados. Em 1976, ele vendeu o controle da operação ao empresário canadense Walter Wolf, mas a parceria se deteriorou, levando Frank a deixar a equipe no final daquele ano. Em vez de desistir da Fórmula 1, ele optou por recomeçar do zero, fundando em 1977, ao lado do engenheiro Patrick Head, a Williams Grand Prix Engineering. Essa mudança foi mais profunda que apenas o nome: com a nova equipe, Frank Williams abandonou o modelo de garagista, onde precisava gerenciar pessoalmente quase todos os aspectos da equipe, passando a liderar uma organização focada em engenharia própria, desenvolvimento técnico e ambição corporativa. Isso marcou o início de uma nova era, e Frank Williams simbolizava essa transição, sendo o último garagista e o primeiro CEO da Fórmula 1. Alan Jones chegou exatamente nesse período. Após uma negociação infrutífera com a Ferrari, ele assinou com a Williams para a temporada de 1978, sendo contratado para liderar o novo projeto. A equipe havia lançado em 1977 um chassi March 761 adquirido, mas estava preparando seu primeiro carro próprio para o ano seguinte, o FW06, projetado por Patrick Head. Naquele momento, a Williams ainda estava distante de ser a potência que viria a ser. A equipe de Frank Williams e Patrick Head havia sido recentemente reestruturada e ainda buscava sua primeira vitória na Fórmula 1. Jones conseguiu o primeiro pódio da equipe, no GP dos Estados Unidos de 1978, em Watkins Glen, auxiliando no estabelecimento de uma base competitiva para o projeto. Em 1979, a primeira vitória da Williams veio, por meio de Clay Regazzoni, no GP da Grã-Bretanha. No entanto, Jones foi o principal protagonista da ascensão da equipe: ele venceu quatro corridas naquela temporada, três delas nas últimas cinco etapas do campeonato, e terminou o Mundial de Pilotos em terceiro lugar. O ápice veio em 1980. Com o Williams FW07B, Jones venceu cinco Grandes Prêmios e conquistou seu primeiro título mundial, superando Nelson Piquet por 13 pontos. A Williams também garantiu seu primeiro Campeonato de Construtores, consolidando seu lugar entre os grandes nomes. O FW07B era um carro notável. Desenvolvido a partir do FW07 da temporada anterior, ele foi um dos que melhor exploraram o efeito solo — o design do assoalho e os túneis em perfil Venturi integrados aos sidepods aceleravam o fluxo de ar sob o carro, criando uma área de baixa pressão. Na prática, parecia que o próprio ar sugava o monoposto contra o asfalto, elevando significativamente a aderência nas curvas, enquanto as saias laterais ajudavam a selar o espaço entre o assoalho e a pista, prevenindo que o ar externo prejudicasse esse efeito. O conjunto era completado pelo motor Ford-Cosworth DFV, o lendário V8 britânico de três litros preparado por John Judd, que atingia cerca de 500 cv e ultrapassava as 11.000 rpm. Entretanto, não se tratava apenas de um piloto talentoso encontrando um carro vitorioso. Jones participou ativamente do desenvolvimento do FW07, colaborando com Carlos Reutemann, especialmente no ajuste da suspensão para 1980. Sua habilidade em extrair desempenho do equipamento e contribuir tecnicamente para sua evolução o tornou peça essencial para a Williams. Sob a direção de Frank Williams e Patrick Head, Jones ajudou a definir a identidade competitiva da equipe com seu estilo de pilotagem agressivo, pouca tolerância a erros e uma capacidade excepcional de aproveitar todo o potencial do carro. É relevante notar a posição de Alan Jones na Fórmula 1 naquele período. Niki Lauda havia conquistado dois títulos mundiais pela Ferrari, em 1975 e 1977, antes de anunciar sua aposentadoria durante o GP do Canadá de 1979. Nelson Piquet havia tido uma participação pontual pela Brabham em 1978 e, para a temporada seguinte, foi contratado como piloto de apoio do austríaco. Com a saída de Lauda, o brasileiro assumiu a liderança da equipe e, em 1980, terminou o campeonato logo atrás de Jones. Em 1981, Piquet conquistaria seu primeiro de dois títulos pela Brabham, repetindo a façanha em 1983. Lauda, por sua vez, voltaria à Fórmula 1 para conquistar seu terceiro campeonato em 1984. Alan Jones ficou situado entre duas gerações de grandes campeões. Ele manteve uma temporada forte em 1981, vencendo duas corridas — o GP do Oeste dos Estados Unidos, em Long Beach, e o GP de Las Vegas — e terminando novamente em terceiro no campeonato, atrás de Piquet e Reutemann. A Williams também conquistou seu segundo título consecutivo de construtores. Apesar de não ganhar o Mundial de Pilotos, Jones recebeu o prêmio de melhor piloto da temporada pelo terceiro ano consecutivo no anuário Autocourse. A primeira conquista de Piquet teve um episódio particular envolvendo Jones. Na disputa pelo título de 1981, em Las Vegas, o australiano já havia anunciado sua aposentadoria e não pretendia ajudar Carlos Reutemann a conquistar o título. Ainda ressentido com o argentino por desobedecer às ordens da equipe no Grande Prêmio do Brasil, Jones venceu a corrida, enquanto Reutemann ficou apenas em oitavo lugar. Piquet chegou em quinto e garantiu o título por apenas um ponto, mostrando que a rivalidade interna da Williams teve um papel decisivo em um dos desfechos mais dramáticos daquela temporada. Jones encerrou sua participação na Fórmula 1 no final daquele ano, com 34 anos e poucas semanas de distância dos 35. Sua decisão não estava ligada a uma suposta queda de competitividade, pois ele vinha de uma temporada com duas vitórias e um terceiro lugar. O australiano simplesmente desejava retornar à sua terra natal, viver na fazenda e estar mais perto da família. Adicionalmente, Jones havia perdido parte do entusiasmo pela categoria, principalmente devido aos carros de efeito solo, cuja suspensão extremamente rígida tornava a pilotagem fisicamente exaustiva. Foi uma aposentadoria prematura de alguém que ainda estava entre os melhores pilotos do mundo, e com um momento inconveniente: em 1982, a Williams conquistaria novamente o Campeonato de Pilotos, desta vez com Keke Rosberg. Jones havia deixado justamente uma equipe em plena ascensão. Embora não se possa afirmar que ele teria conquistado outro título se tivesse permanecido, sua saída encerrou uma carreira na Fórmula 1 antes que ele pudesse usufruir de grande parte do período de maior sucesso da equipe que ele ajudou a construir. No entanto, seu retorno às pistas não demorou. Em 1983, Jones aceitou correr o Grande Prêmio do Oeste dos Estados Unidos pela Arrows, mas desistiu da prova em Long Beach. Em agosto de 1985, ele substituiu Mario Andretti em uma etapa da CART, em Road America, terminando em terceiro. Poucas semanas depois, recebeu uma proposta para liderar o projeto Team Haas, patrocinado pela Beatrice e desenvolvido em parceria técnica com a Lola. A equipe estreou na Fórmula 1 no segundo semestre de 1985, mas jamais conseguiu apresentar um carro verdadeiramente competitivo. Jones participou de algumas provas no final daquele ano e de uma temporada completa em 1986, obtendo apenas dois pontos: um quarto lugar na Áustria e um sexto na Itália. Ao término da temporada, ele encerrou definitivamente sua carreira na Fórmula 1, acumulando 12 vitórias, seis pole positions e 24 pódios em 116 largadas.