Em uma iniciativa pioneira, pesquisadores da Unesp e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveram um banco de dados chamado Cerrado Plant Traits (CPT). Este acervo reúne as características funcionais de cerca de dois mil espécies de plantas nativas do Cerrado.
O projeto, iniciado em 2024, centraliza dados coletados por mais de cem pesquisadores brasileiros que atuam no bioma. A expectativa é que o CPT contribua para aumentar a presença da savana tropical mais diversa do planeta em bases de dados globais, auxiliando ecólogos e especialistas na concepção de projetos de pesquisa e restauração do bioma.
As características funcionais referem-se aos atributos morfológicos, fisiológicos, anatômicos e fenológicos das plantas, explicando como cada espécie interage com seu ambiente. Atualmente, o projeto catalogou mais de cem mil registros referentes a aproximadamente dois mil espécies, todos padronizados e disponibilizados sob política de acesso aberto. Os pesquisadores detalharam o CPT em um artigo na revista Annals of Botany, descrevendo o método de coleta e padronização dos dados e apontando as principais deficiências.
O CPT abrange um total de 154 características funcionais, divididas em sete grupos conforme os ramos da morfologia vegetal: planta inteira, folha, caule, raiz, flores, frutos e sementes. Por exemplo, a seção de planta inteira inclui dados sobre altura e capacidade de rebrota, enquanto a de frutos fornece informações sobre coloração e traços relacionados à dispersão de sementes. Para o caule, foram reunidas informações como espessura da casca, densidade da madeira e capacidade de reter água.
O trabalho para criar este repositório exclusivo do Cerrado começou em 2024, após uma reunião entre biólogos da Unesp e da UFMG. Davi Rossatto, docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) na Unesp, explicou que, embora seus projetos já tivessem gerado grande volume de dados, este material ficava restrito a grupos ou artigos específicos, sem compartilhamento. Ele é um dos articuladores da iniciativa.
Rossatto observou que, apesar de existirem bancos de dados similares focados em florestas temperadas na Europa, Estados Unidos e China, um acervo dedicado exclusivamente às características funcionais das plantas do Cerrado é inédito. Alessandra Fidelis, bióloga da Unesp, e Fernando Silveira, professor da UFMG, lideraram a articulação do CPT.
Os primeiros passos envolveram contato com colegas pesquisadores para apresentar o projeto. Após reuniões de apresentação, vários colaboradores aderiram, concordando em submeter seus dados para padronização e tratamento, sendo listados como criadores do CPT em futuros trabalhos científicos.
O Cerrado pertence ao grupo das savanas tropicais, ecossistemas com alta diversidade vegetal. No entanto, o bioma brasileiro possui especificidades que atraem interesse internacional, mas permanece sub-representado em grandes bases de dados globais. A criação do CPT visa mitigar esse desequilíbrio.
Além de apoiar a pesquisa, o CPT pode auxiliar na restauração do Cerrado, fornecendo subsídios técnicos para projetos de regeneração. Rossatto ressalta que, em vez de depender apenas do nome da espécie, as características funcionais podem ser mais cruciais para planejar a recuperação de áreas, permitindo aplicar conhecimentos específicos às regiões a serem restauradas.
Este repositório de acesso aberto permite que cientistas de todo o mundo testem hipóteses ecológicas em escalas regionais ou globais. Segundo Rossatto, a análise dessas características possibilita comparações ecológicas mais detalhadas, inclusive permitindo que pesquisadores da África ou Austrália utilizem o banco de dados para comparar savanas dos três continentes.
Os registros atuais cobrem ambientes preservados, degradados e restaurados, com predominância de características da planta inteira e das folhas. Contudo, características subterrâneas e reprodutivas estão menos representadas. As prioridades futuras incluem expandir o número de espécies (estimando-se entre 12 e 13 mil espécies nativas apenas entre as angiospermas), aumentar a cobertura geográfica e diversificar as categorias de registro.
O levantamento inicial identificou assimetrias, como a necessidade de maior cobertura em regiões como o Matopiba, área sob forte pressão agrícola. Também foi notada a sub-representação de características funcionais das raízes, devido à dificuldade e custo de estudo. Rossatto justifica a abundância de dados de folhas, pois elas são facilmente removíveis para estudos e são vitais para o metabolismo da planta.
Rossatto acredita que, com o banco de dados estabelecido, será possível buscar financiamentos para preencher as lacunas e ampliar a cobertura. Ele compara o CPT a um software em sua versão 1.0, indicando que o desenvolvimento continuará com foco em uma interface mais acessível e na inclusão de novos colaboradores.



