Em um cenário marcado pelas crises dos casos Master e Ueno, o Brasil apresenta o Pix como uma solução de destaque. Enquanto o vizinho Paraguai enfrenta dificuldades, o Brasil consolidou seu sistema de pagamentos instantâneos.
O caso paraguaio é considerado mais grave para o sistema bancário como um todo quando comparado ao caso Ueno. Observa-se uma distinção importante: o Ueno focou na abertura digital de contas, descontos e cashback, ao passo que o Master atraiu investidores através de CDBs com remuneração superior à média do mercado.
A tecnologia desempenha um papel fundamental na inclusão financeira ao eliminar três grandes obstáculos ao acesso ao sistema financeiro: distância, burocracia e custos. Anteriormente, era necessário comparecer a uma agência, apresentar documentação e arcar com tarifas. Atualmente, grande parte desse processo pode ser realizada pelo celular.
Essa transformação transcende a mera abertura de contas digitais. Aplicativos permitem que indivíduos criem contas sem visita a agências físicas, beneficiando especialmente residentes de áreas remotas com pouca infraestrutura. Tecnologias como reconhecimento facial, leitura automática de documentos e verificação digital de identidade (e-KYC) simplificam o cadastramento de clientes.
Um estudo realizado em Bangladesh demonstrou que a identificação digital pode reduzir o tempo de abertura de contas de quatro ou cinco dias para apenas cinco minutos. Bancos digitais, por sua vez, não necessitam da mesma estrutura física dos bancos tradicionais, conseguindo reduzir despesas operacionais e oferecer contas gratuitas ou com taxas menores por meio de automação e atendimento digital.
Sistemas como o Pix viabilizam transferências de dinheiro instantâneas, dispensando o uso de moeda física ou agências bancárias. Isso estimula também pequenos comerciantes e trabalhadores informais a utilizarem contas financeiras. Segundo o Global Findex 2025, do Banco Mundial, a posse de conta financeira atingiu quase 80% dos adultos globais, subindo de 50% em 2011, o que representa uma mudança drástica em pouco mais de uma década.
Apesar disso, 1,3 bilhão de adultos ainda carecem de serviços financeiros. Contudo, existe um caminho facilitador: cerca de 900 milhões dessas pessoas possuem celular, sendo 530 milhões com smartphones, indicando que a infraestrutura tecnológica para ampliar a inclusão já está parcialmente acessível.
Na América Latina e Caribe, 70% dos adultos possuem conta bancária, e mais da metade utiliza essa conta digitalmente via cartão ou celular. O Banco Mundial mencionou o Pix em seu comunicado, afirmando que investimentos em sistemas de transferência instantânea, como o UPI na Índia ou o PIX no Brasil, podem auxiliar na expansão dos serviços financeiros, juntamente com melhorias na proteção ao consumidor e segurança.
A digitalização, todavia, não resolve todos os problemas. A cibersegurança é uma preocupação primária. Globalmente, 86% dos adultos têm celular, e 68% têm smartphone, conforme o Global Findex Digital Connectivity Tracker 2025. No entanto, o aumento do uso de celulares para transações digitais introduz novos riscos; apenas metade dos 4 bilhões de adultos em economias de baixa e média renda com celular utiliza senha de proteção.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) também aponta questões cruciais, como fraudes digitais, superendividamento, discriminação algorítmica, uso indevido de dados e exclusão de pessoas com baixa alfabetização digital. O BIS ressalta que os benefícios vêm acompanhados de vulnerabilidades, como o aumento de golpes e endividamento excessivo, sublinhando o papel vital das autoridades financeiras no aprimoramento regulatório para mitigar riscos.
Uma reportagem da Forbes Paraguai, datada de março de 2026 e creditando a Equifax Paraguay S.A, noticiou que o banco Ueno permitiu que mais de um milhão de paraguaios sem conta bancária entrassem no setor financeiro. A matéria apontava que o lançamento do Ueno em dezembro de 2021 coincidiu com o crescimento dos indicadores bancários relatados pelo Banco Mundial.
Entretanto, o tempo demonstrou que o sucesso do Ueno não foi fruto de uma política de Estado ou genialidade empresarial, mas sim de um projeto pessoal de enriquecimento via política. A agência AP lembrou que o banco central havia alertado o Ueno em junho sobre empréstimos excessivos a empresas ligadas aos proprietários, algo que viola limites rigorosos, permitindo que os donos direcionem economias de clientes para seus próprios negócios.
O economista paraguaio Luis Rojas comentou à AP que havia grande flexibilidade nas regras financeiras e bancárias, o que possibilitou a rápida expansão da instituição, levantando suspeitas devido ao tratamento preferencial.
A falência do Ueno expôs as contradições de um modelo de expansão financeira vendido como modernização e inclusão social. Com cerca de 3 milhões de clientes, a instituição cresceu com apoio de centenas de milhões de dólares em recursos públicos e laços próximos com a elite política e econômica. Vínculos empresariais do presidente Santiago Peña com o grupo controlador, a presença de um ex-dirigente no Banco Central e alertas regulatórios anteriores à intervenção geram dúvidas sobre conflitos de interesse.
Orkun Saka, professor de economia financeira da City St George’s, da Universidade de Londres, afirmou à BBC que o caso Ueno é mais profundo que má gestão: “Um banco pertencente a um único conglomerado empresarial concentrou as economias da maioria dos adultos do país, além de centenas de milhões de dólares em fundos de pensão (…) Não é simplesmente a história de um banco mal administrado. É um sistema onde o banco, o órgão regulador e a Presidência estavam tão ligados que nenhum podia impor limites aos outros”.
A Justiça do Paraguai decretou a prisão preventiva de ex-executivos, incluindo Juan Manuel Gustale, ex-presidente, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez. A Bloomberg destacou que a participação de Vásquez valia até US$ 375 milhões, o que o colocava entre os mais ricos da América Latina antes do colapso.
Enquanto os responsáveis pela crise são investigados, milhões de paraguaios lidam com as consequências. Recursos públicos, inclusive previdenciários, foram expostos, e a recuperação total dos valores permanece incerta. O Banco Central do Paraguai estima que 97% dos depositantes do Ueno Bank têm direito à recuperação integral via Fundo de Garantia de Depósitos. Contudo, a Moody’s analisou que apenas cerca de 30% do valor total dos depósitos estava coberto pela garantia, evidenciando a concentração de recursos.
No Paraguai, a cobertura atinge 228,3 milhões de guaranis por depositante, equivalente a aproximadamente R$ 203 mil. No Brasil, o FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, com limite máximo de R$ 1 milhão em quatro anos.
Em contraste com os cenários de Master e Ueno, o Brasil possui o Pix. O Banco Central divulgou que, entre 2018 e 2023, o número de usuários ativos no Sistema Financeiro Nacional (SFN) e de Pagamentos Brasileiro (SPB) que usaram Pix ou transferência eletrônica dobrou. Esse aumento é atribuído à maior digitalização, impulsionada pelo auxílio emergencial na pandemia, pelo lançamento do Pix e por novas instituições no mercado.
O número de usuários ativos do SFN/SPB cresceu 103,2%, elevando os clientes pessoas físicas de 77,2 milhões para 152 milhões, representando um aumento de 97% na base de clientes. Em janeiro de 2025, o número de CPFs relacionados ao SFN ultrapassou 200 milhões. O Pix tornou-se uma política de Estado e pública brasileira, uma infraestrutura aberta e não discriminatória.
Mesmo sob críticas do Representante Comercial dos EUA (USTR) durante a campanha de Donald Trump contra o Brasil, que alegou que o Banco Central favorece o Pix sobre sistemas americanos, é relevante notar que cartões como MasterCard e Visa, e plataformas como WhatsApp Pay, cobram pelo mesmo serviço que o Pix, que é gratuito. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu que o Brasil negociasse o Pix com os EUA, mencionando o Zelle como o “Pix americano”.
Diante desses escândalos, o cidadão fica sem defesa. A democratização de serviços bancários seguros, uma necessidade legítima, foi utilizada para sequestrar a economia. Em tempos de Master e Ueno, projetos de poder para enriquecimento pessoal contrastam com o Pix, que é tecnologia e pertence ao Brasil. O Brasil possui um trunfo diante dos desafios globais de bancarização, mas é essencial manter a vigilância contra projetos pessoais que se sobreponham a políticas de Estado.


