Algumas pessoas alcançam um patamar social que as eleva a figuras quase divinas ou entidades de culto, onde qualquer crítica a elas é vista como heresia. Existe também o efeito do «toque de Midas», onde itens ligados a essas figuras adquirem um valor exponencialmente maior.
Isso foi notório no caso do Honda NSX que pertencia a Ayrton Senna. O veículo foi leiloado pela RM Sotheby’s durante o evento The London Auction e foi vendido por £871.250. Este valor superou as projeções da casa de leilões, que esperava um montante entre £500.000 e £800.000, considerando a procedência e o histórico do esportivo.
Um Honda NSX da geração original já é considerado um clássico valioso. Embora o autor concorde que ele é um esportivo excelente, ele aponta que seu design não é estritamente atemporal, mas sim um reflexo positivo dos carros dos anos 90, envelhecendo com graça. Seu motor V6 aspirado, com pouco menos de 300 cv e idealmente acoplado a uma caixa manual, oferece o desempenho necessário, permitindo uso diário ou em autódromos, pois o NSX combinava performance de supercarro com a usabilidade de um sedã japonês médio.
No Reino Unido, os preços de um Honda NSX clássico variam entre £60.000 e £140.000, dependendo do ano, estado de conservação e originalidade. Convertido para reais, isso representa aproximadamente entre R$ 440.000 e R$ 1 milhão. No entanto, o carro de Senna custou quase seis vezes o preço médio dos modelos «normais» mais caros vendidos no país, mesmo que esses valores sejam apenas referências e excluam veículos de projeto especial.
O autor convida à reflexão sobre o significado de pagar mais de R$ 6,4 milhões por um Honda NSX e o que isso implica possuir tal carro em 2026. A ligação entre Ayrton Senna e o NSX é profunda; um registro icônico é o shakedown realizado no Autódromo de Suzuka, onde foram registrados seus mocassins marrons com meias brancas e seu trabalho meticuloso nos pedais.
Senna também contribuiu para o ajuste dinâmico do NSX. Ele considerou o chassi «um pouco frágil», o que motivou os engenheiros da Honda a aumentar a rigidez estrutural em 50% e redesenhar a suspensão. Essa influência pode ter chegado a Gordon Murray, engenheiro sul-africano, que se inspirou no NSX para definir a base do lendário McLaren F1. A utilização de motores Honda pela McLaren na época de Senna completa esse ecossistema.
O NSX vermelho de Senna é um modelo «Formula Red» de 1991, presenteado pela própria Honda. O comprador adquiriu toda a documentação de origem, incluindo um fax da fabricante. Registrado em 22 de março daquele ano com a placa SX-25-59, o carro ficava guardado e era entregue a Senna sempre que ele visitava o Reino Unido.
Este NSX presenciou momentos cotidianos em Portugal, como um banho de mangueira na Quinta do Lago, transformando-o de mero transporte ou colecionável em um artefato histórico devido à sua densidade biográfica. Apesar disso, o autor afirma que jamais compraria o carro, mesmo com recursos ilimitados, pois ele deixou de ser um veículo para se tornar um investimento, um ativo que só tende a valorizar.
Embora funcional, o carro não permaneceu parado nos últimos 30 anos. Um colecionador, Robert McFagan, realizou uma revisão geral e o enviou para os Estados Unidos em 2016. Em 2019, o NSX viajou para San Marino e participou de uma volta no circuito de Ímola com Giancarlo Minardi. Mais recentemente, um colecionador japonês o adquiriu em 2024, mantendo-o discretamente.
O valor de quase um milhão de libras esterlinas pago a RM Sotheby’s não garantiu o NSX vermelho de Senna, mas sim um pedaço certificado da aura do piloto. Filosoficamente, isso é inestimável; financeiramente, o valor é mensurável e cresce constantemente. Colocá-lo para rodar seria arriscar a integridade de um ativo financeiro colossal, algo que o comprador provavelmente está ciente.
O autor prevê que a comoção em torno da venda se repetirá em breve, com notícias republicadas com valores dobrados ou triplicados. Ele admite que, se tivesse dinheiro, compraria um NSX original, mas aponta que a própria Honda oferece uma alternativa mais interessante: o Honda Heritage Parts Program, operado pela Acura nos EUA.
Este programa disponibiliza mais de 3.000 peças de reposição para o NSX de primeira geração (1991–2005), divididas em Genuine Reproduction Parts (fabricadas com especificações originais para restaurações de prestígio) e Honda Compatible Parts (redesenhadas para manter a função sem deterioração).
Esse suporte fabril tridimensional anos após o lançamento revitaliza o mercado de usados e valoriza a marca. Para quem aprecia carros pela experiência de condução, o caminho ideal seria adquirir um NSX «normal» usado, restaurá-lo usando o catálogo da Honda, trocando fiação e buchas, e deixando o V6 operar perfeitamente, sem a pressão de depreciar um ativo financeiro.
O autor reconhece que muitos veem a transação como um tributo merecido a uma lenda, mas argumenta que a cultura automotiva transformou carros sensacionais em commodities financeiras. Ele conclui que a verdadeira essência do NSX reside em estar rodando, com o V6 ativo no asfalto, e não em ser uma relíquia intocável em uma garagem climatizada.


