Indícios de que dinossauros habitaram a Terra são abundantes, abrangendo desde ossos maciços e dentes serrilhados até impressões de penas, ovos fossilizados e fezes petrificadas. Contudo, um elemento crucial para compreender a vida desses animais, o sangue, é raramente encontrado em registros fósseis.
Por décadas, cientistas têm buscado vestígios sanguíneos em fósseis de dinossauros. Tais investigações exigem rigoroso descarte de qualquer possibilidade de contaminação por sangue de outras espécies ou a presença de estruturas que apenas mimetizem células sanguíneas.
Recentemente, um estudo envolvendo a Universidade Regional do Cariri (URCA) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reportou a identificação do que parecem ser hemácias fossilizadas em um dinossauro brasileiro datado de 115 milhões de anos. O material analisado provém de um osso da perna de um Aratasaurus museunacionali, que habitou a região da Chapada do Araripe, na fronteira entre Ceará, Pernambuco e Piauí.
De acordo com os pesquisadores, este dinossauro possuía cerca de três metros de comprimento e pesava aproximadamente 34 kg. Após sua morte, o corpo afundou em um meio aquático, onde uma camada de microrganismos cresceu sobre a carcaça, enterrando-a e possibilitando a preservação de seus restos.
O paleontólogo Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional da UFRJ e coautor do artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, sob a liderança de pesquisadores da Universidade Curtin, na Austrália, declarou que encontrar traços bioquímicos ligados a componentes biológicos em um fóssil superior a 100 milhões de anos auxilia na expansão do conhecimento sobre o que pode ser conservado ao longo do tempo. Ele ressaltou que isso oferece uma chance de investigar a história desses animais para além de suas características anatômicas e esqueletais.
Sob o microscópio, a equipe detectou diversas estruturas microscópicas localizadas dentro de canais vasculares, que, no passado, funcionavam como condutos para os vasos sanguíneos no osso. A morfologia, o tamanho e a localização dessas estruturas eram consistentes com glóbulos vermelhos.
Essa hipótese ganhou maior sustentação após testes químicos confirmarem a presença de heme, um composto inerente à hemoglobina, a proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue.
Kliti Grice, autora da pesquisa, explicou à Live Science que as estruturas semelhantes a glóbulos vermelhos foram mineralizadas com hausmannita, um mineral de óxido de manganês (Mn₃O₄). A mineralização é o processo pelo qual estruturas biológicas frágeis, que se degradam facilmente, são substituídas por substâncias mais duráveis, permitindo a formação dos fósseis.
Os pesquisadores acreditam que essa mineralização ocorrida precocemente contribuiu para estabilizar ou replicar estruturas biológicas microscópicas antes que fossem totalmente destruídas, e que aspectos da química associada sobreviveram, embora modificados.
Entretanto, nem todos os especialistas concordam que esta descoberta represente, de fato, vestígios de sangue. Existe uma razão para o ceticismo: células sanguíneas não se fossilizam com facilidade. Sem a rigidez conferida por ossos e dentes, elas se decompõem rapidamente após a morte, deixando poucas evidências para estudos futuros.
Para que tais células sobrevivam, são necessárias condições excepcionais, como ambientes anóxicos que inibam a atividade microbiana, ou minerais capazes de estabilizar sua estrutura. Mesmo nessas circunstâncias, provar sua origem constitui um desafio, visto que certos minerais podem imitar o formato arredondado das células sob microscopia, gerando desconfiança em qualquer alegação de «sangue antigo».
Mary Schweitzer, paleontóloga da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA, que não participou do estudo, levantou objeções. Ela apontou à Live Science que as estruturas não correspondem à aparência esperada de glóbulos vermelhos em animais não mamíferos. Diferentemente do que ocorre em mamíferos, aves e répteis, que mantêm os núcleos de seus glóbulos vermelhos, o Aratasaurus museunacionali não apresentou essa marca característica.
Adicionalmente, é possível que as microestruturas encontradas sejam restos de fungos ou outros micróbios que colonizaram os ossos após o falecimento, mas antes da fossilização. Contudo, se fosse esse o caso, a equipe não encontrou sinais de filamentos, esporos, biofilmes ou outras estruturas associadas.
Para os autores, a divergência de opiniões é bem-vinda. O fóssil de Aratasaurus museunacionali tem sido objeto de investigação há pelo menos 18 anos, desde sua descoberta em 2008. Um aspecto notável é que este espécime resistiu ao incêndio de 2018 que devastou o Museu Nacional da UFRJ e parte de seu acervo. Seu nome significa, literalmente, «lagarto nascido do fogo».
Kellner informou à Science que, durante esse período, procurou um colaborador apto a analisar as biomoléculas e microestruturas presentes nos fósseis do Museu Nacional. Foi nesse contexto que Grice surgiu e aceitou o desafio no ano passado.



