Um relatório recente da Agência Internacional de Energia (AIE) indica que a Europa enfrentará um outono e inverno com os níveis de reservas de gás natural mais baixos em mais de uma década, uma condição que tem potencial para estender as tensões nos mercados energéticos.
O documento, intitulado «Global Gas Security Review 2026», elaborado pela AIE, destaca que as transformações estruturais ocorridas na última década alteraram o mercado global de gás, conferindo-lhe maior liquidez, interconexão e flexibilidade, embora também o tenham tornado mais complexo.
A expansão das atividades no mercado spot e o crescimento dos contratos de gás natural liquefeito (GNL), que oferecem maior liberdade quanto aos seus destinos, fortaleceram, segundo a AIE, a conexão entre os mercados regionais e a habilidade de resistir a falhas no suprimento.
Contudo, o relatório aponta que a suspensão efetiva do fluxo de GNL através do estreito de Ormuz, motivada pelo conflito atual no Médio Oriente, resultou na redução de mais de 60.000 milhões de metros cúbicos (bcm) do fornecimento de gás vindo do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos entre março e outubro deste ano.
Essa interrupção elevou os preços do gás tanto na Ásia quanto na Europa aos patamares mais altos desde a crise de abastecimento ocorrida em 2022-2023, conforme sinaliza a AIE, organização sediada em Paris.
A agência projeta que a oferta mundial de GNL diminuirá 3% em 2026, o que corresponde a quase 20 bcm. Paralelamente, a demanda global de gás deve cair aproximadamente 1,5%, ou cerca de 65 bcm, devido à redução da procura no Médio Oriente, ao menor consumo industrial na Europa e à substituição do gás por carvão no setor elétrico de diversos países asiáticos.
Na União Europeia, os depósitos de armazenamento entrarão no inverno com os níveis de reserva mais baixos desde 2013, o que acentua a dependência do suprimento mundial de GNL para suprir os picos de demanda sazonal.
A AIE adverte que esta conjuntura pode tornar a região particularmente suscetível, caso o próximo inverno seja mais rigoroso que o esperado ou se ocorram problemas técnicos ou outras interrupções no fornecimento.
Adicionalmente, os baixos estoques na Europa, somados à capacidade de armazenamento restrita dos países importadores de GNL da Ásia e da América do Sul, podem intensificar a competição pelos carregamentos disponíveis nos próximos meses e pressionar os preços no mercado spot para cima, especialmente nos momentos de maior consumo.
A agência ressalta que a Europa talvez precise aumentar significativamente suas aquisições de gás durante o verão de 2027 para repor as reservas spot para o inverno subsequente, o que alongaria as tensões no mercado global durante boa parte do ano vindouro.
Por fim, o relatório enfatiza a necessidade de a Europa fortalecer a colaboração internacional em segurança do abastecimento, mesmo diante da crescente flexibilidade dos mercados globais.


