A Cidade do Cabo frequentemente declara que está criando uma cidade que serve a todos os seus residentes. No entanto, a situação da crise habitacional coloca essas declarações em dúvida, especialmente no que diz respeito aos grupos mais vulneráveis, cujos direitos são frequentemente ignorados.
A recente demolição de casas ocupadas levantou sérias questões sobre o compromisso da Cidade com o Estado de Direito, sua abordagem à questão habitacional e o respeito pela dignidade das pessoas que não têm mais outro lugar para morar.
Na manhã de sexta-feira, 23 de outubro de 2026, funcionários das forças policiais, agindo em nome da Cidade do Cabo, iniciaram a demolição de casas particulares no endereço Gate 7, Wingfield Camp, em Maitland. Durante este incidente, havia pessoas dentro, incluindo crianças pequenas.
O custo humano das demolições
A Cidade tinha uma ordem judicial autorizando o despejo dessas pessoas e a demolição de suas moradias? A resposta é não. Em uma audiência realizada na sexta-feira, 30 de outubro de 2026, o representante legal da Cidade reconheceu a ausência de base legal para a demolição das construções e a falta de um mandado de despejo.
Isso causa especial preocupação, pois, segundo relatos, quando a mídia contatou os funcionários das forças policiais após o incidente, eles disseram aos jornalistas que estavam agindo com base em um mandado de despejo. A discrepância entre a explicação pública da Cidade e a posição posteriormente confirmada por seus representantes legais levanta sérias questões sobre a prestação de informações ao público.
A Seção 26(3) da Constituição é clara: ninguém pode ser despejado de sua casa ou ter sua casa demolida sem uma decisão judicial tomada após a consideração de todas as circunstâncias relevantes. Esta proteção se estende a pessoas que ocupam terras ilegalmente. A Lei de Prevenção de Despejos Ilegais e Ocupação de Terras garante a implementação dessa proteção constitucional e exige que os despejos ocorram através de um processo legal.
O ciclo dispendioso da coerção
Esses mecanismos de proteção não existem por acaso. Nossa democracia constitucional surgiu de um passado profundamente injusto, onde as pessoas eram forçadamente removidas de suas casas por serem consideradas indesejáveis em certas áreas.
A proteção constitucional contra despejos arbitrários foi concebida para garantir que tal história não se repetisse. A lei não pode ser simplesmente ignorada apenas porque as pessoas afetadas são vulneráveis e não têm outro lugar para viver.
Durante a última semana, os moradores afetados foram forçados a dormir na rua, expostos ao frio. Crianças pequenas, algumas com menos de sete anos, ficaram desabrigadas. Crianças mais velhas, que estão fazendo exames escolares importantes, dormem ao ar livre. Uma criança com deficiência ficou sem nem mesmo uma cama para a noite.
No entanto, as ações da Cidade não se limitaram à demolição dessas casas. Relata-se que os funcionários das forças policiais permaneceram no local 24 horas por dia, impedindo que qualquer pessoa reconstruísse sequer um teto sobre suas cabeças. Devemos considerar as consequências: recursos públicos estão sendo usados para garantir que pessoas que perderam suas casas permaneçam sem abrigo.
O tribunal intervém
Esses recursos poderiam ser usados para algo mais útil? Sabemos que a Cidade do Cabo enfrenta graves problemas de criminalidade. Os residentes não prefeririam ver os recursos das forças policiais direcionados ao combate ao crime? O que se alcança quando os oficiais permanecem no local da demolição, observando pessoas que não têm onde dormir? E essa abordagem contribui para resolver as causas que levaram à ocupação inicial do território?
Os residentes foram forçados a recorrer ao Tribunal Superior por ajuda urgente. Na sexta-feira, 30 de agosto de 2026, o Tribunal emitiu uma ordem provisória proibindo a Cidade e as forças policiais de realizar mais demolições e de impedir que nossos clientes reconstruíssem suas estruturas.
Este é um pequeno ato de justiça e proteção para as pessoas sem teto e que foram impedidas de reconstruir até mesmo o abrigo mais básico. Também demonstra um princípio fundamental: a Cidade, assim como todos os outros, está sujeita à lei e não pode simplesmente tomar a lei em suas próprias mãos.
As demolições não resolvem a crise habitacional da Cidade do Cabo
No entanto, o problema principal permanece. Essas pessoas não desaparecerão. Elas não se dissolverão no ar ou se mudarão para outra cidade ou país. Elas encontrarão outro terreno para viver e o ciclo continuará. A demolição das casas das pessoas não elimina as causas fundamentais pelas quais elas não têm outro lugar para morar.
A resposta não é complicada: Cidade do Cabo precisa de habitação acessível em boas áreas. As pessoas devem morar mais perto do local de trabalho. Isso não é apenas uma questão de conveniência; é uma necessidade. Muitas pessoas não podem pagar para gastar 40% de sua renda honestamente ganha em transporte para o trabalho. Elas trabalham na Cidade do Cabo, muitas vezes começando cedo pela manhã. Seus filhos estudam aqui. Eles fazem parte da economia e da comunidade da cidade. Eles não são um problema a ser removido da cidade. São pessoas que merecem dignidade, segurança e acesso à moradia.
Não há evidência mais clara da necessidade de habitação acessível em boas áreas do que a ocupação contínua de terras na Cidade do Cabo. Essas ocupações não acontecem no vácuo. Elas são um sintoma de uma cidade onde a moradia está se tornando cada vez mais inacessível, e terras bem localizadas permanecem inacessíveis para muitos de seus residentes.
A necessidade de habitação acessível em boas áreas
Este não é um problema novo, e a Cidade não pode alegar desconhecer. Na decisão histórica Adonis, amplamente conhecida como o caso Tafelberg, o Tribunal Constitucional reafirmou a importância da habitação acessível em boas áreas para eliminar a desigualdade espacial herdada do apartheid. O Tribunal estabeleceu diretamente que a Cidade e o Governo Provincial não cumpriram suas obrigações constitucionais nesse sentido.
O Tribunal obrigou a Cidade e o Governo Provincial a apresentar relatórios sobre suas políticas, programas e projetos de habitação acessível no Centro da Cidade do Cabo (Cape Town CBD) e em Sea Point. Esses relatórios foram apresentados em 2 de outubro de 2026.
O que eles mostraram? Que não houve construção ou mesmo construção em andamento de habitação acessível no centro da Cidade do Cabo e em Sea Point.
O que significa uma cidade que serve a todos?
Tanto a Cidade quanto o Governo Provincial apontam obstáculos e a responsabilidade de outros poderes. Mas resta a questão: quais passos concretos estão sendo tomados e quando as pessoas que precisam dessa moradia realmente colherão benefícios?
O contraste é difícil de ignorar. Recursos governamentais significativos podem ser direcionados para despejar pessoas de terras ocupadas e impedir a reconstrução de abrigos. No entanto, o fornecimento de habitação acessível em boas áreas continua aquém dos requisitos constitucionais.
Uma cidade que serve a todos deve significar mais do que apenas uma cidade com infraestrutura funcional, serviços municipais eficientes e espaços públicos atraentes. Deve também ser uma cidade onde as pessoas que não podem pagar por moradia de mercado possam viver com dignidade, perto de seus meios de subsistência.
A promessa constitucional de moradia não pode ser cumprida através de demolições. E as ocupações de terras não podem ser resolvidas pelas forças policiais sem confrontar as condições que as geram. A cidade deve obedecer à lei, respeitar a dignidade dos afetados e tomar medidas significativas para fornecer habitação acessível nos locais onde as pessoas precisam viver.
Em última análise, a questão não é se as pessoas devem escolher entre ocupar ilegalmente terras ou gastar uma fatia impagável de sua renda com transporte para o trabalho. A questão é por que, décadas após nossa democracia constitucional, tantas pessoas ainda têm muito poucas alternativas.
Uma cidade que serve a todos deve servir àqueles que mais precisam.