Diretor artístico da Casa da Música afirma que universalismo significa respeito, não imposição
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Diretor artístico da Casa da Música afirma que universalismo significa respeito, não imposição

O Festival Floresta Amazónica da Casa da Música utiliza a música de Villa-Lobos para promover uma jornada artística pela floresta brasileira, explorando a interação entre culturas e desafiando a maneira como as sociedades ocidentais se relacionam com a natureza.

François Bou, diretor artístico da Casa da Música, defende que o contato com outras culturas, especialmente com o conhecimento dos povos indígenas, pode auxiliar as sociedades ocidentais a reavaliar seu vínculo com o meio ambiente natural.

Em entrevista à agência Lusa, ele enfatizou a necessidade de modéstia e profundo respeito pela sabedoria dos povos nativos, em referência ao festival que ocorrerá entre os dias 12 e 28 de novembro, na cidade do Porto.

Bou argumenta que a cultura ocidental, apesar dos avanços científicos alcançados, tem perdido o contato com uma sabedoria intrinsecamente ligada à terra e à natureza, uma sabedoria que persiste em diversas tradições e comunidades.

O Festival baseia-se na obra do maestro e compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, especificamente em «Floresta do Amazonas», mas expande essa inspiração para uma abordagem artística que mescla linguagens, cores, imagens e referências culturais. No concerto realizado pela Orquestra Sinfónica da Casa da Música no dia 14, a cenógrafa e artista visual Bianca da Costa contribuiu com sua visão.

Bianca da Costa explicou que a música de Villa-Lobos é altamente descritiva, retratando a atmosfera, os sons e as cores da Amazônia, o que possibilitou a criação de cenografias a partir da própria composição.

Entretanto, a proposta do festival não visa ser uma representação literal da floresta. Bou esclareceu que o caráter é mais abstrato e filosófico do que ilustrativo, diferenciando-o de, por exemplo, uma ópera. O elemento cênico busca inspiração nas texturas e nas cores dos povos, e não apenas em fotografias da Amazônia.

A intenção geral é oferecer uma experiência de «viagem através da matéria, das plantas, da terra», abrangendo também a filosofia e a sabedoria dos habitantes da floresta, incluindo uma perspectiva feminista sobre a Amazônia.

Para François Bou, a dimensão artística do evento deve fomentar uma reflexão sobre a conexão entre o ser humano e a natureza, um tema que ele considera urgentíssimo diante da gravidade da situação ambiental, social e política atual.

Ele reiterou que a sabedoria dos povos indígenas pode guiar os povos ocidentais a conceberem a ligação entre humanidade e natureza de maneira distinta, ressaltando que esta não é uma intervenção partidária, mas sim uma reflexão filosófica e política em um sentido mais amplo.

Adicionou que, dada a gravidade do cenário ambiental, social e político, o festival serve como um pequeno ponto de reflexão para o público e para os envolvidos.

Na sua visão, esses povos compartilham um saber fundamental, construído a partir de um relacionamento próximo e respeitoso com a terra e a natureza. Essa conexão, segundo ele, está sendo perdida nas sociedades ocidentais, apesar dos avanços tecnológicos e científicos.

Bou observou que, embora a humanidade seja muito forte em ciências e em muitos outros aspectos, ela está perdendo o contato com a sabedoria da terra e do universo, um conhecimento que transcende a ciência, a literatura e toda a civilização estabelecida.

É nesse reconhecimento da diversidade de conhecimentos e perspectivas que François Bou fundamenta sua noção de universalismo, que ele alerta não dever ser confundido com a imposição de modelos ou valores culturais. Ele afirmou categoricamente que o universalismo não consiste em impor regras ou pontos de vista, mas sim em dialogar e aprender com outras civilizações que possuem o mesmo direito de possuir sabedoria e visões distintas.

Resumindo, Bou declarou: «O universalismo não é impor. O universalismo é respeitar», acreditando que a transformação surge do encontro entre diferentes visões de mundo, pois «da confrontação destes pontos diferentes pode nascer um mundo melhor».

Villa-Lobos é citado por François Bou como um exemplo dessa capacidade de diálogo. O compositor brasileiro visitou a floresta e coletou músicas indígenas, mas o fez com uma postura de respeito, evitando a apropriação colonial. Ele relatou que Villa-Lobos foi «à escuta, à escuta dos ruídos, dos sons, das cores da Amazónia» antes de transcrever isso em sua música.

Ao utilizar uma linguagem musical ocidental, o compositor conseguiu, na opinião de Bou, transmitir parte da essência da floresta sem descaracterizar sua origem, o que justifica seu caráter universal.

Por fim, o festival não se propõe a apresentar uma conclusão definitiva sobre a Amazônia ou sobre as interações culturais. François Bou insiste que a arte deve abrir caminhos para a reflexão, permitindo que o público construa sua própria interpretação. Ele concluiu que o objetivo da arte é «acordar as consciências», incentivando cada indivíduo a meditar sobre o que presenciou.

A união da ligação histórica e cultural entre Portugal e Brasil reforçou o desejo de François Bou de organizar um ciclo dedicado a Heitor Villa-Lobos. O Festival Floresta Amazonica-Girando Mundos representa essa aspiração em uma programação ampla, que, para o diretor artístico da Casa da Música, «pode ajudar a abrir as portas da alma».

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Bianca da Costa utiliza a cenografia para representar a resistência da Amazônia na obra de Villa-Lobos
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Bianca da Costa utiliza a cenografia para representar a resistência da Amazônia na obra de Villa-Lobos

A artista visual brasileira Bianca da Costa desenvolveu uma cenografia para a obra «Floresta do Amazonas», de Villa-Lobos, buscando transcender a representação imediata da floresta. Seu objetivo foi estabelecer um diálogo entre a música, as imagens projetadas e a realidade contemporânea da Amazônia, focando na temática da resistência.

O design cenográfico foi concebido em formato circular, simbolizando a ideia de que a Amazônia deve estar no centro da discussão sobre as questões ambientais e políticas. Essa concepção foi influenciada pelo livro «A Amazónia é o Centro do Mundo», escrito pela jornalista brasileira Eliane Brum.

Bianca da Costa explicou à Lusa que a intenção era reposicionar a Amazônia e seus dilemas ecológicos e de resistência no centro da atenção, criando um ambiente onde diversos universos pudessem interagir por meio de luz, som e imagens.

A artista enfatizou que evitou o realismo, recusando-se a simplesmente sobrepor uma imagem dentro da outra que a música criava. Ela buscou deliberadamente fugir de representações consideradas «exóticas» ou de «cartão-postal», optando por trabalhar com texturas, cores, repetições e sobreposições, alinhando sua linguagem visual ao ritmo e à textura musical.

Essa abordagem também incluiu a omissão intencional de imagens em certos momentos, desde o início do concerto, permitindo que o público se concentrasse na audição da música e construísse seu próprio imaginário, seguindo a sugestão original de Villa-Lobos.

Com formação em cenografia e atuação como artista visual, a pesquisa de Bianca da Costa investiga há mais de dez anos a conexão entre a natureza e os seres humanos, abrangendo aspectos políticos relacionados à exploração territorial.

Sua primeira imersão na Amazônia ocorreu em 2021, durante a produção do curta-metragem «Interior da Terra», que abordava o avanço do desmatamento sob a gestão de Jair Bolsonaro. Desde então, ela tem colaborado com lideranças e comunidades indígenas, cujas cosmovisões e modos de conviver com a floresta nutrem sua arte.

Para «Floresta do Amazonas», a sumaúma foi escolhida como elemento simbólico, dada sua antiguidade e altura, sendo conhecida em algumas comunidades como «vovozona». A artista associou essa árvore ancestral às ideias de esperança e resistência encontradas no território, onde a sumaúma abriga o curupira, guardião das matas.

Uma referência mais concreta à conjuntura política e econômica atual surge com a inclusão de imagens dos barcos de exploração de soja. Essa inspiração veio de uma viagem a Santarém, no estado do Pará, onde Bianca da Costa navegou pelo rio Tapajós e observou os grandes navios que transportam soja para mercados globais, como Europa e Estados Unidos.

Ela relembrou a mobilização de líderes indígenas de diversas regiões do Brasil contra um plano que visava aprofundar os rios para acomodar embarcações maiores, uma medida que, em sua visão, ameaçava a preservação dos recursos e territórios.

A sequência de imagens dos barcos de soja se conecta com a parte «Veleiros» da composição de Villa-Lobos, que Bianca da Costa interpretou fazendo uma analogia entre os barcos amazônicos e os veleiros da época da colonização. Ao inserir vídeos dos transportadores de soja com efeitos visuais, a artista buscou tornar visível uma realidade frequentemente negligenciada, apesar de seu grande impacto regional.

A dimensão política da obra se estende à situação dos povos indígenas após as eleições presidenciais brasileiras de 2022, que trouxeram Luiz Inácio Lula da Silva de volta à Presidência, após quatro anos de governo Bolsonaro. Bianca da Costa argumenta que a troca de governo não encerrou as ameaças contra as comunidades indígenas, citando ataques e intimidações de grupos ligados ao agronegócio e ao bolsonarismo.

Ela ressalta que a luta é simultaneamente conquistada e não conquistada, pois os povos originários continuam enfrentando violência e perigos, mesmo com a alteração política no país. Na sua análise, a resistência dessas comunidades é fundamental para entender o futuro da floresta, dado o conflito contínuo entre interesses econômicos e a defesa territorial.

Concluindo, Bianca da Costa mencionou ter sido profundamente impactada pelas questões políticas, ecológicas e sociais, mas também pela humanidade e pela forte conexão com a natureza e a resistência dos povos indígenas, que sustentam essa luta. Essa perspectiva será apresentada na composição cênica para o concerto da Orquestra Sinfônica da Casa da Música, marcado para 14 de novembro.

Agenda cultural em Pernambuco inclui shows de Wesley Safadão, Zé Vaqueiro e apresentações do Circo Celestia
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Agenda cultural em Pernambuco inclui shows de Wesley Safadão, Zé Vaqueiro e apresentações do Circo Celestia

O interior de Pernambuco está repleto de eventos culturais durante a semana, abrangendo desde shows musicais até apresentações circenses. Entre as atrações disponíveis, destacam-se a Vaquejada de Fernando Lucena, o Circo Celestia e a exposição da Caravana Verger.

Circo Celestia

O Circo Celestia faz sua estreia na cidade de Caruaru com um espetáculo diversificado. Este show combina elementos de acrobacia, dança, música, teatro e manobras radicais. A produção conta com artistas vindos de várias partes do mundo e possui uma infraestrutura técnica robusta. As apresentações são planejadas para agradar públicos de todas as idades, integrando números artísticos com iluminação e sonorização adequadas.

Os horários do Circo Celestia são: de terça a sexta-feira, às 20h30; e aos sábados, domingos e feriados, há sessões marcadas para as 16h, 18h e 20h30. O local das apresentações é o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, em Caruaru.

Agenda Cultural

A 8ª Vaquejada Parque Fernando Lucena está acontecendo no Parque Fernando Lucena, em Caruaru. O evento oferece uma programação mista de shows gratuitos e pagos. Ele atrai competidores, criadores e visitantes de diferentes regiões do Brasil, gerando movimento com cerca de 1.400 senhas de competição e oferecendo prêmios.

A programação da Vaquejada segue os seguintes dias: na terça-feira (27), há entrada gratuita com Willy Vaqueiro, acompanhado por Amanda Rainha, Raphaela Santos e Gustavo Godoy. Na quarta-feira (28), também é gratuita, contando com Zé Vaqueiro e Nattan. Quinta-feira (29) terá entrada gratuita com Raí Saia Rodada, Vitor Fernandes, Henry Freitas, Tarcísio do Acordeon, Iguinho e Mikael Santos.

No sábado (31), haverá um show pago com Wesley Safadão, Rey Vaqueiro e Natanzinho Lima. Os shows gratuitos ocorrem de terça (27) a quinta (29), enquanto o show pago é realizado no sábado (31), com ingressos disponíveis para compra online. O evento acontece no Parque Fernando Lucena, em Caruaru.

Caravana Verger

A Caravana Verger chegou a Caruaru trazendo uma exposição gratuita composta por 80 fotografias de Pierre Verger. Essas imagens retratam a cultura popular brasileira e foram produzidas durante as décadas de 1940 e 1950, documentando costumes, personagens e manifestações culturais do país.

A passagem deste projeto pela cidade estabelece um diálogo com a visita do fotógrafo ao município em 1947, período em que ele registrou a Feira de Caruaru e a obra de Mestre Vitalino. A exposição estará disponível gratuitamente até o dia 1º de novembro, na Estação Ferroviária, em Caruaru.

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