Eldor Aripov, diretor do Instituto de Pesquisas Estratégicas e Interregionais na presidência do Uzbequistão, declarou que o conceito de autonomia estratégica da Ásia Central não deve implicar a necessidade de escolher entre parceiros externos, mas sim aumentar o leque de oportunidades da região.
Ao discursar no Primeiro Fórum dos Centros de Análise 'Ásia Central — União Europeia' em Bruxelas, Aripov observou que a Ásia Central está deixando de ser vista exclusivamente através da lente da influência da Rússia, China ou Afeganistão, adquirindo seu próprio significado estratégico. Ao mesmo tempo, a aproximação com a União Europeia deve contribuir para expandir o acesso da região a investimentos, tecnologias, mercados e rotas de transporte, e não impor uma escolha entre atores externos.
A Ásia Central adquire significado estratégico por si só
Anteriormente, o interesse internacional pela Ásia Central dependia em grande parte da proximidade com a Rússia e a China ou do papel da região no contexto do Afeganistão. No entanto, agora há mudanças: a economia da Ásia Central demonstra um crescimento superior a 6% anualmente, o que é aproximadamente o dobro das médias mundiais. Até 2050, a população da região deverá atingir a marca de 100 milhões de pessoas, segundo projeções.
Além disso, a região está fortalecendo suas posições como um importante nó de transporte diante dos problemas nas rotas marítimas tradicionais, do Oriente Médio e do norte. A Ásia Central também possui grandes reservas de recursos vitais para as tecnologias e indústrias modernas. Aripov destacou especialmente o fortalecimento da conectividade interna dos países da região, pois eles estão cada vez mais apresentando uma agenda comum ao interagir com parceiros externos. Já existem mais de dez formatos de 'Ásia Central Mais', o que leva ao desenvolvimento de infraestrutura comum e ao aprofundamento da interconexão econômica.
Segundo Aripov, a região está se transformando de um conjunto de cinco mercados nacionais separados em um espaço econômico mais integrado, tornando-a um parceiro mais confiável e atraente para a comunidade global e para a Europa.
Princípios de parceria com a UE
Aripov acredita que a cooperação entre a Ásia Central e a UE deve ser baseada em três princípios chave. O primeiro é a complementaridade, segundo o qual a interação com a Europa não deve ser vista como substituição das relações existentes da região com outros parceiros. Ele enfatizou que o objetivo é adicionar novas oportunidades, e não substituir as antigas, sublinhando que a autonomia estratégica deve significar 'mais escolhas'.
A importância da cooperação com a UE reside no aumento do número de mercados, rotas, fontes de investimento e tecnologias para os países da Ásia Central. Ao mesmo tempo, a nova parceria não deve levar à substituição de uma forma de dependência por outra. O segundo princípio é a resiliência a choques externos, o que para a Ásia Central significa a capacidade de manter os ritmos de desenvolvimento e a independência mesmo em um mundo instável. Um exemplo pode ser a cooperação com a UE em energia renovável, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis, bem como a criação de oportunidades legais para o emprego de cidadãos da Ásia Central nos estados europeus, o que ajudará a diversificar os fluxos migratórios.
O terceiro princípio é a longevidade. Embora o cenário geopolítico tenha aumentado o interesse da Europa na região, Aripov insiste que a aproximação deve continuar independentemente dos fatores que a aceleraram inicialmente. Ele observou que uma parceria verdadeiramente estratégica deve ter um valor que não dependa das tendências políticas atuais, exigindo projetos planejados para décadas, e não para o próximo ciclo político.
Principais áreas de cooperação
Um dos aspectos mais importantes destacados por Aripov é a formação de cadeias conjuntas de criação de valor agregado. À luz do crescente interesse da UE pelos minerais críticos da Ásia Central, a cooperação não deve se limitar ao modelo de exportação de matérias-primas seguido por processamento na Europa. É necessário alcançar uma cooperação mais profunda, abrangendo prospecção geológica, extração ecologicamente responsável, produção, pesquisa e formação de pessoal.
O objetivo dessa interação deve ser unir o desenvolvimento industrial da Ásia Central com a segurança econômica da Europa. Paralelamente, é necessária a simplificação da entrada de produtos centro-asiáticos no mercado europeu por meio do apoio à certificação, conformidade com padrões técnicos e aumento da competitividade dos negócios locais.
Questões de água e clima também são de grande importância. Como o aumento da temperatura, o derretimento dos glaciares e a pressão sobre os recursos hídricos já afetam a agricultura e a energia, a UE pode fornecer experiência, ferramentas financeiras e tecnologias para a implementação de métodos de conservação de água e modernização da irrigação. Na área de transportes, a UE incluiu o Corredor de Transporte Transcaucásio em suas prioridades Global Gateway, mas Aripov enfatizou que a eficácia desses projetos é determinada não apenas pelo comprimento das rotas ou pelo volume de carga, mas pela rapidez, baixo custo e previsibilidade com que as empresas podem movimentar mercadorias.
Para alcançar essa eficiência, são necessários a melhoria dos procedimentos fronteiriços e alfandegários, a compatibilidade digital dos sistemas e uma melhor coordenação da infraestrutura de transporte. Além disso, a cooperação deve abranger o capital humano. Aripov lembrou que as habilidades de gestão e desenvolvimento de infraestrutura são formadas muito mais lentamente do que a construção dos próprios objetos. Os próximos passos podem incluir programas educacionais conjuntos, centros de pesquisa e formação profissional, incluindo áreas de IA e tecnologias digitais.
A mobilidade da mão de obra também é importante. Dado o déficit de mão de obra em certos setores europeus e a disponibilidade de recursos humanos na Ásia Central, as partes podem desenvolver a cooperação no reconhecimento de qualificações, preparação linguística e criação de canais legais de emprego.
Afeganistão e estabilidade regional
Ao falar sobre o futuro da Ásia Central, Aripov destacou especialmente o Afeganistão, afirmando que é impossível discutir seriamente o desenvolvimento de longo prazo e a conectividade de transporte da região ignorando o Afeganistão. Para os países da região, a situação no Afeganistão não representa uma ameaça abstrata à segurança, mas um problema direto que afeta diretamente as perspectivas econômicas de todo o espaço da Ásia Central.
Portanto, o Uzbequistão, na opinião de Aripov, promove consistentemente uma abordagem que combina questões de segurança com desenvolvimento econômico, educação e criação de oportunidades práticas para os habitantes do Afeganistão. Alcançar a estabilidade de longo prazo, segundo ele, não é possível através do isolamento, mas requer laços econômicos mais estreitos com os países vizinhos.
Quais são os próximos passos?
O principal critério para avaliar a nova fase das relações entre a Ásia Central e a UE será a transição de declarações para a implementação prática real. Aripov enfatizou que a Ásia Central e a União Europeia possuem estratégias e planos políticos suficientes, mas o fator decisivo agora é a sua concretização.
Para a Ásia Central, a cooperação com a UE deve expandir suas capacidades sem restringir os laços com outros parceiros. Por sua vez, para a UE, o resultado da interação deve ser uma Ásia Central mais estável e economicamente forte, capaz de implementar seus próprios prioritários de forma autônoma. Se a cooperação trouxer frutos tangíveis nas áreas de comércio, transporte, educação e capital humano, o caráter estratégico das relações será evidente na prática, e não apenas em documentos.
