A Arquitetura de Assis Reis na Bahia: A Influência do Clima e da Cultura em Sua Obra
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A Arquitetura de Assis Reis na Bahia: A Influência do Clima e da Cultura em Sua Obra

O dia 24 de outubro marcou o centenário do nascimento do arquiteto brasileiro Francisco de Assis Couto Reis (1926–2011). Ele viveu e criou grande parte de seu legado na cidade de Salvador, estado da Bahia. Assis Reis, como era mais chamado, é conhecido não apenas pelos edifícios projetados, mas também por propostas de revitalização urbana, pelo projeto do Pavilhão Brasileiro na Exposição Internacional de Osaka, Japão (que não foi construído), e pelo Modelo em escala reduzida da cidade de Salvador, que foi registrado em 2020.

Sua vasta e diversificada obra reflete um momento específico na expressão moderna do Brasil, quando arquitetos de 'segunda geração' dedicavam especial atenção à adaptação às condições climáticas, geográficas e culturais locais.

Nascido em Aracaju, Sergipe, em 24 de outubro de 1926, e criado em Parnaíba, Piauí, Assis Reis mudou-se para Salvador em 1942. Em 1957, obteve seu diploma em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, a partir de 1968, começou a lecionar na mesma instituição, contribuindo para a formação do pensamento arquitetônico moderno na Bahia.

Sua trajetória profissional começou no Escritório de Planejamento Urbano de Salvador (EPUCS), responsável pelo primeiro plano diretor da capital do estado. Lá, trabalhou com o arquiteto e urbanista Diogenes Rebusas, tornando-se seu parceiro após o fechamento do escritório. Ao longo de sua carreira, atuou nas áreas de arquitetura, urbanismo e educação, colaborando com instituições governamentais, como as prefeituras de Salvador, onde desenvolveu projetos de revitalização, e também com Rio de Janeiro, participando do programa Favela-Bairro.

Obras Notáveis e Abordagens Conceituais

Entre suas obras mais significativas destacam-se a sede regional da Companhia Hidrelétrica San Francisco (CHESF) de 1977; edifícios residenciais, como Solar das Mangueiras (1976) e Solar do Itaigara (1977); Casa Santa Izabel (1976); Centro Médico Albert Schweitzer (Centro Médico da Graça) de 1967; a sede do Tribunal de Justiça de 1998 e sua ala de 2002. De modo geral, suas criações se distinguem por um profundo estudo do local onde estão inseridas — tanto sob a ótica cultural e de estilo de vida quanto sob a ótica das condições climáticas e topográficas, que se tornam restrições projetuais importantes.

Segundo o arquiteto Pedro Nery, Assis pertencia à geração de arquitetos que, nas décadas de 60 e 70, 'começaram a ligar o 'Regionalismo e Modernismo', fortalecendo os laços locais da arquitetura expressos em uma forma universal'.

No final dos anos 1960, Assis apresentou o projeto do Pavilhão Brasileiro na Exposição Internacional de Osaka, Japão. O projeto consistia em dois volumes: um vertical e um horizontal saliente. No térreo, os visitantes podiam ver o 'Brasil de ontem', e ao subir nos elevadores, eram recebidos por sons e projeções que remetiam ao ritmo acelerado do Brasil da época. No nível superior, esperava-se um 'espaço absolutamente horizontal e totalmente aberto, onde se pretendia realizar uma consagração universal através do carnaval', segundo Nery. Este projeto inovador recebeu o prêmio Hors Concours no concurso nacional organizado pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).

Assis também foi agraciado com o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em 2008, uma honraria que reconheceu sua contribuição e trajetória na arquitetura brasileira.

Modelo da Cidade de Salvador e Legado

Entre as obras mais singulares de Assis Reis, destaca-se o Modelo em escala reduzida da cidade de Salvador, criado na década de 1970 em escala 1:2000, abrangendo todo o território municipal. Devido ao seu tamanho e caráter documental, o modelo é uma ferramenta importante para a apresentação e compreensão da estrutura da cidade. O maquete continua sendo atualizado pela Administração Municipal de Salvador através do Fundo Mário Leal Ferreira (FMLF) e foi registrado pelo município em 2020, tornando-se parte do complexo de bens reconhecidos como patrimônio cultural de Salvador.

O centenário do arquiteto foi marcado pela doação de seu acervo ao Casa da Arquitetura – Centro Português de Arquitetura em Matosinhos, Portugal. O primeiro contato com a instituição ocorreu em 2017, quando o projeto da sede da CHESF entrou na exposição Infinito Vão, curada por Guilherme Vizinho e Fernando Serapiao. Esta foi a primeira iniciativa do arquivo permanente da Casa da Arquitetura, na qual mais de 150 doadores enviaram material original de 103 projetos, que passou a fazer parte da coleção da instituição. Desde então, outros grandes nomes da arquitetura, como Paulo Mendes da Rocha, Lucio Costa, Eduardo Souto de Moura e Gonçalo Bern, também doaram seus acervos à Casa da Arquitetura.

Além das obras construídas, o complexo documental, composto por mais de 3000 itens — incluindo desenhos, plantas, duas maquetes, fotografias, documentos escritos, publicações e arquivos digitais — permite rastrear diferentes estágios do processo de trabalho de Assis Reis, desde pesquisas preliminares e pré-projetos até projetos executivos, levantamentos, plantas, cortes, fachadas e detalhes construtivos.

Com a chegada do acervo à Casa da Arquitetura, inicia-se um amplo programa dedicado à celebração do legado do arquiteto ao longo do ano. Entre os eventos planejados estão mesas redondas abertas ao público para discussão crítica das obras de Assis Reis. Esses debates ocorrerão na Faculdade de Arquitetura da UFBA e incluirão arquitetos, pesquisadores, amigos e ex-colegas de seu escritório, como Marcia Reis (filha e parceira de Assis), José Carlos Wapaya (seu colega nos últimos anos de vida), Nivaldo Andrade, Paulo Ormindo de Azevedo, Nilton Dorea, Sergio Magalhães, Verena Andreatta, Erika Checcucci, Naiya Albán e John Taylor (parceiro no projeto CHESF). Também serão realizadas visitas guiadas às obras do arquiteto no âmbito das celebrações, cuja informação será divulgada no site da Faculdade de Arquitetura da UFBA, além de ser produzido um documentário e um livro sobre a trajetória e a obra de Assis.

Ao unir as condições geográficas e as particularidades locais com uma linguagem espacial inovadora, a obra de Assis Reis é uma das expressões multifacetadas do modernismo no Brasil. Sua capacidade de transformar as condições locais em arquitetura de valor universal estabelece conexões diretas com os debates contemporâneos na disciplina. Nesse sentido, as celebrações de seu centenário representam um movimento fundamental para garantir que este vasto repertório técnico e conceitual continue a ressoar nas futuras gerações de arquitetos.

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A iniciativa conhecida como “40 Horas de Angicos”, coordenada pelo educador Paulo Freire em 1963 na cidade de Angicos, foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte. Esta decisão foi formalizada na edição do Diário Oficial desta terça-feira (27).

Este projeto de alfabetização foi implementado no município de Angicos, localizado no interior do estado. O reconhecimento abrange todos os aspectos relacionados à experiência, incluindo os relatos orais, os saberes, as práticas pedagógicas e as memórias das comunidades e indivíduos que participaram.

Conforme estabelecido pela legislação, o propósito deste reconhecimento é duplo: preservar a memória coletiva dos envolvidos e estimular a realização de pesquisas, além de promover a divulgação das referências históricas e culturais ligadas ao projeto. Adicionalmente, visa-se transmitir este legado às próximas gerações e destacar a relevância de Angicos para a trajetória da educação brasileira.

O texto oficial esclarece que tal reconhecimento não anula os trâmites administrativos de inventário e registro previstos nas normas de proteção ao patrimônio cultural. Tampouco impõe à rede estadual de ensino a adoção de um método pedagógico específico ou promove alterações nos currículos escolares.

As 40 horas de Angicos

Em 1963, Freire introduziu um modelo inovador de educação popular na cidade de Angicos, situada no Oeste do Rio Grande do Norte, que na época contava com aproximadamente 9,5 mil habitantes. O educador estabeleceu uma meta ambiciosa: alfabetizar adultos em apenas 40 horas. A primeira turma contou com 380 inscritos, dos quais cerca de 300 finalizaram o curso, que ocorreu entre 28 de janeiro e 2 de abril.

O método Paulo Freire foca na alfabetização de adultos por meio da discussão de suas vivências mútuas, utilizando palavras extraídas da realidade dos próprios alunos, que são posteriormente decodificadas para auxiliar na aquisição da escrita e na compreensão do mundo.

Freire estruturou seu método de alfabetização com base nas experiências de vida das pessoas. Em vez de utilizar materiais didáticos padronizados, como ensinar frases como “o boi baba” ou “vovó viu a uva”, ele trabalhava com as chamadas “palavras geradoras” que partiam da realidade do cidadão comum.

Um exemplo prático demonstra que um operário de fábrica poderia aprender termos como “tijolo” ou “cimento”, enquanto um agricultor aprenderia vocabulário como “cana”, “enxada”, “terra” e “colheita”. A formação de novos vocábulos se dava através da decodificação fonética dessas palavras.

A articulação da vinda de Paulo Freire ao Rio Grande do Norte começou em 1962, sob a gestão do então governador Aluízio Alves, natural de Angicos, e foi facilitada pelo secretário de educação Calazans Fernandes. A intenção era estender o programa de Paulo Freire por todo o estado para reduzir os índices de analfabetismo, contudo, o educador foi exilado em 1964 após o golpe militar, acusado de subversão.

Ruínas de San Ignacio Mini na Argentina: O melhor exemplar preservado das missões jesuíticas
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Ruínas de San Ignacio Mini na Argentina: O melhor exemplar preservado das missões jesuíticas

A Região das Missões, que abrange Argentina, Paraguai e sul do Brasil, é conhecida pelas ruínas de antigos assentamentos jesuítas construídos entre os séculos XVI e XVIII. No lado da fronteira, nas cidades gaúchas de San Miguel das Missões e Santo Ângelo, os vestígios desse patrimônio são mais conhecidos.

No entanto, é na Argentina que se encontra o exemplo mais completo de tal povoação antiga: as ruínas de San Ignacio Mini, localizadas no atual município de San Ignacio. Embora a fachada da igreja não seja tão majestosa quanto em San Miguel, estas ruínas estão melhor preservadas com o tempo, considerando os restos das outras construções.

Estas ruínas são Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1984 e ficam a apenas 250 km da fronteira com o Brasil, perto da região de Foz do Iguaçu. Nas proximidades, também existem ruínas de outros assentamentos, como Santa Ana, Santa Maria la Mayor e Nuestra Señora de Loreto. Para amantes da história, arquitetura e arqueologia, recomenda-se planejar uma viagem completa pela rota das Missões, tanto dentro quanto fora do Brasil.

San Ignacio Mini representa o sítio arqueológico mais impressionante da província de Misiones, Argentina. Passeando pela antiga povoação, é possível ver estruturas e edifícios que compunham a vida cotidiana na Missão, incluindo praça, igreja, colégio e cemitério.

Na entrada do complexo, há uma mansão que funciona como museu, contando a história das missões jesuíticas. A coleção inclui artefatos históricos, esculturas e maquetes do assentamento original. O museu demonstra a influência dos colonizadores sobre os povos nativos da região: as esculturas e a arquitetura do local contêm elementos do barroco europeu, e o som do povo guarani se mistura com violoncelos e flautas; exemplos de música podem ser ouvidos no salão multimídia.

Quanto às próprias ruínas, deve-se preparar para caminhadas, pois elas estão localizadas em uma grande área aberta. Não é necessário contratar um guia: estão disponíveis audioguias que explicam a história e as construções. Há também placas espalhadas pelas ruínas com imagens impressas mostrando como eram as estruturas originais na época das Missões.

À noite, San Ignacio Mini realiza uma apresentação de luz e som com projeções nas ruínas (seguindo o modelo do show de luz e som em San Miguel das Missões), narrando a história das missões jesuíticas. Esta atração é um dos principais pontos altos da visita.

Ao sair de Foz do Iguaçu, é possível chegar de carro, próprio ou alugado. Com um planejamento cuidadoso do tempo, é possível fazer uma viagem de um dia, embora isso exija abrir mão do espetáculo noturno de luz ou estar preparado para passar a última parte da viagem à noite.

Para quem já está na Argentina, o ponto de referência é a cidade de Puerto Iguazú, a 'irmã' de Foz do Iguaçu na província de Misiones. As ruínas ficam a cerca de 3 a 4 horas de carro, dependendo do ritmo da viagem.

Se San Ignacio estiver incluído em uma rota mais ampla que inclua as Missões brasileiras, o planejamento deve levar mais de um dia. Saindo de San Miguel das Missões, o caminho mais curto tem cerca de 285 km, mas a duração da viagem também deve considerar a necessidade de cruzar a fronteira de balsa, na fronteira Porto Mauá e Alba Posse, o que torna o trajeto mais longo. Raramente é percorrido em menos de 5 horas.

A melhor época para visitar as ruínas é na primavera e no outono. Assim, é possível evitar os frios do inverno e o calor escaldante do verão na região. As ruínas estão abertas para visitação das 7h30 às 18h00, e é necessário adquirir um bilhete. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria em dinheiro ou via QR code (cartões aceitos no local) ou antecipadamente no site.

A taxa de entrada geral é de 22 mil pesos argentinos, com base nos preços de setembro de 2026 (cerca de 75 reais brasileiros), mas existem descontos para residentes de Misiones e cidadãos argentinos. Uma grande vantagem do passe é que ele é válido por 15 dias após a compra e pode ser usado para visitar outras missões jesuíticas na província.

As Missões foram fundadas pelo Compendium Iesu (jesuítas) com o objetivo de catequizar os povos nativos da região ao catolicismo e protegê-los da escravidão dos colonizadores. Os assentamentos foram organizados no modelo da civilização europeia, com a vida controlada pelos padres. O povo guarani perdeu sua autonomia e foi forçado a abandonar grande parte de seus costumes durante esse processo.

Os habitantes nativos que viviam nas missões obedeciam às regras dos missionários e ao sistema de produção coletiva, que garantia a sobrevivência da pequena comunidade. A Era das Missões terminou nas chamadas Guerras Guarani, quando os assentamentos foram subitamente incluídos em acordos de troca de territórios assinados por Portugal e Espanha. Eles foram abandonados contra bandeirantes e exércitos das duas potências europeias, e os assentamentos foram rapidamente destruídos entre 1753 e 1756, sendo que grande parte da população nativa que lutou no conflito foi aniquilada.

Artista Amadeu Carvalho apresenta Cabo Verde na exposição de arte contemporânea AKAA em Paris
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Artista Amadeu Carvalho apresenta Cabo Verde na exposição de arte contemporânea AKAA em Paris

O artista cabo-verdiano Amadeu Carvalho exibe pela primeira vez em Paris, França, uma exposição individual na feira internacional AKAA. Esta exposição aborda temas de identidade, memória e experiência da diáspora, reunindo obras da sua série «Retratos da Ausência».

A exposição, intitulada «Fragmentos de Identidade — Circulações Lusófonas, Geografias Sensíveis», foi apresentada pelo artista conhecido como «trabalhador de rostos». Ele considera esta oportunidade extremamente importante para a apresentação focada de suas obras e busca por um novo público, explicando que suas peças são retratos que exploram a memória, a identidade e a presença.

A curadoria da exposição é realizada pela cabo-verdiana Emily Silva, fundadora da plataforma curatorial Casa Vicência em Paris. A mostra se destaca pelo uso de materiais orgânicos e texturas nas telas. O artista mencionou que utiliza pigmentos do vulcão da ilha Fogo, pois é de lá que vêm seus ancestrais, guardando memórias familiares que ele desconhece.

Além da ilha Fogo, Carvalho incluiu em suas telas materiais vulcânicos coletados nas ilhas Santiago e São Vicente, ligando assim a geologia do arquipélago ao processo criativo, segundo um comunicado enviado à Lusa. Vivendo em Londres, Reino Unido, Amadeu Carvalho acredita que para ver uma ilha, é preciso estar fora dela, sublinhando que a arte o ajudou a «curar muitas feridas e traumas».

Ele acrescentou que esses pigmentos ajudam a estabelecer uma conexão entre o território, o corpo e aquilo que resta entre as pessoas, e seu trabalho toca na experiência da emigração. Segundo ele, a emigração não só causa saudade dos entes queridos, mas também cura.

Para Amadeu Carvalho, a experiência acumulada em residências artísticas na África, América e Europa nutre sua prática e dinâmica criativa. Ele afirmou que os cabo-verdianos são um povo que nasce em movimento, e como artista, ele também deve estar em constante movimento.

Apesar da inspiração pelas raízes cabo-verdianas, Amadeu Carvalho recusa rótulos limitantes no mercado de arte internacional. Ele insiste em ser chamado simplesmente de artista, e não apenas africano, pois tais rótulos podem colocá-lo em caixas que ele não gosta, visto que a arte é muito mais ampla que isso.

O artista também enfatizou que suas obras são criadas para estabelecer uma conexão íntima com o público através de detalhes visuais. Ele concluiu que, olhando de longe, vê-se a pintura, mas ao se aproximar, é possível observar as texturas e camadas que refletem as dificuldades cotidianas, e às vezes é preciso remover camadas para compreender a camada do outro.

Amadeu Carvalho, natural de São Vicente, foi destacado em 2024 no Powerlist100 da publicação Bantumen. Seu histórico inclui visitas ao FNB Art Joburg (África do Sul) e uma residência artística no Pacific Northwest College of Art, nos Estados Unidos.

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