Pesquisadores desenvolveram uma abordagem para diferenciar espécies de madeira com base em sua composição química, visando fortalecer os esforços contra o comércio ilegal de madeira. O Brasil é um país com a maior biodiversidade do planeta, ocupando o primeiro lugar entre 17 países megadiversos e abrigando 15–20% da biodiversidade mundial, grande parte da qual está contida em árvores e madeira.
A madeira é um material único que existe apenas na Terra. Entre as árvores brasileiras, existem espécies raras, como o pau-brasil (Paubrasilia echinata), que está criticamente ameaçado de extinção após séculos de exploração. Também foram exploradas intensamente madeiras nobres, como o mogno (Swietenia macrophylla), onde foi detectada a remoção de 90–95% dos indivíduos adultos nas áreas estudadas, e a pau-rosa (Aniba rosaeodora), cujo estoque foi esgotado pela extração de óleo essencial.
Quando uma árvore assim é perdida, não se perde apenas a madeira, mas também uma combinação de história evolutiva, informação genética e diversidade química que se formou ao longo de milhões de anos. No entanto, ao inspecionar uma carga na estrada, surge um problema: como determinar a espécie da árvore se no caminhão há apenas toras ou tábuas sem folhas, flores ou frutos, e diferentes espécies podem parecer semelhantes?
Essa complexidade cria grandes oportunidades para fraudes. Em operações recentes no Brasil, agentes encontraram discrepâncias entre as espécies ou volumes declarados e a madeira efetivamente transportada, bem como falsificação ou ausência de documentação ambiental. Por exemplo, em agosto de 2025, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 2043 m³ de madeira, notando divergências em tipo e volume.
Apesar da existência de sistemas de controle, como o Documento de Origem Florestal (DOF) e o Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor), a verificação do material em si permanece necessária. Um incidente em outubro de 2026 no Maranhão mostrou que um lote de cerca de 100 m³ apresentava inconsistências entre os documentos e o volume real, incluindo madeira ameaçada de extinção.
Diante desse desafio, uma equipe do Laboratório de Análise Orgânica do Instituto Nacional de Metrologia do Brasil (Inmetro) e parceiros, incluindo o Serviço Florestal Brasileiro, desenvolveu um método de identificação de espécies de madeira com base em sua composição química. O estudo foi publicado em março de 2026 no periódico ACS Omega. A ideia é que, assim como uma impressão digital, diferentes espécies de árvores possuem conjuntos característicos de substâncias químicas, criando uma espécie de 'impressão digital química' da madeira.
Para ler essa impressão digital, utiliza-se a espectrometria de massa, uma técnica amplamente utilizada na indústria farmacêutica, alimentícia e de análise de petróleo. O trabalho analisou madeira de mogno, cedro, andiroba e jatobá. O mogno (Swietenia macrophylla) e o cedro do gênero Cedrela estão sob o controle da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). A análise foi realizada em 60 amostras de núcleo de diferentes regiões da Amazônia, obtidas de coleções científicas.
O modelo atingiu uma precisão de cerca de 95% em testes cruzados e 100% de precisão em teste cego com 12 amostras. No entanto, isso é apenas uma prova conceitual; o próximo passo é expandir a biblioteca de amostras de referência. A ferramenta desenvolvida, embora não seja portátil, é significativamente menor e mais simples de operar do que plataformas de espectrometria de massa de alta precisão, custando apenas cerca de 20% do valor de equipamentos mais comuns.
Este método permite realizar análises com mínima preparação de amostras, classificação automatizada e em um minuto por amostra, sem a necessidade de condições laboratoriais estritamente controladas. A importância dessa abordagem é sublinhada pelo fato de que o comércio ilegal de madeira abrange toda a cadeia — desde o corte até a venda. O Ministério da Justiça aponta que a extração ilegal de madeira frequentemente se cruza com outras atividades criminosas na Amazônia.
Embora os índices gerais de desmatamento na Amazônia Legal tenham diminuído para 5731 km² em 2025, e os alertas Deter tenham caído 36% no ciclo 2025–2026, isso não elimina a necessidade de reforçar a fiscalização. A ciência não protege a floresta por si só, mas fornece evidências científicas, tornando a política governamental mais sustentável. O desenvolvimento de tais métodos no Brasil também é visto como uma questão de soberania nacional.



