A República Democrática do Congo, localizada na África Central, está enfrentando o maior surto registrado da espécie Bundibugyo do vírus Ebola. De acordo com as autoridades de saúde congolesas, até 25 de outubro, foram confirmados 10.060 casos e registrados 4.887 óbitos, o que significa que um em cada dois diagnósticos confirmados resultou em morte. Este surto representa o segundo maior em termos de número de casos até o momento, com a concentração de infecções ocorrendo na região leste do país, próxima às fronteiras com Uganda e Ruanda.
Em uma iniciativa para desenvolver novas estratégias de contenção, testes com a vacina Ervebo, produzida pelo laboratório farmacêutico Merck, foram iniciados na sexta-feira, 23 de outubro. Esta vacina possui licença para prevenir a doença causada pelo vírus Ebola da espécie Zaire, mas sua eficácia contra a variante Bundibugyo ainda não foi determinada.
Este processo de vacinação marca o começo do estudo Tumaini, que é o primeiro ensaio clínico dedicado à avaliação de vacinas potenciais contra o vírus Bundibugyo. Caso a vacina Ervebo não ofereça proteção contra a espécie responsável pelo surto, duas outras candidatas inéditas serão testadas posteriormente. O primeiro indivíduo a participar deste novo ensaio recebeu uma dose da vacina em Bunia, e até 27 de outubro, quatro pessoas já haviam sido vacinadas, todas tendo tido contato com pacientes infectados pelo Ebola.
Existem seis variedades de ebolavírus. A espécie Zaire foi responsável pelas epidemias da África Ocidental (2014-2016) e de Kivu (2018-2020). O imunizante Ervebo foi utilizado na epidemia de Kivu, que registrou aproximadamente 3.500 casos, sendo crucial para controlar a disseminação. Atualmente, não existe vacina ou tratamento específico para a variedade Bundibugyo, que foi identificada em Uganda em 2007; contudo, antivirais e anticorpos monoclonais candidatos estão sendo analisados em pesquisas clínicas.
As proteínas de superfície das espécies Bundibugyo e Zaire, que são o foco da resposta imunológica, apresentam diferenças significativas, impedindo afirmações sobre a validade da proteção entre elas. Embora estudos realizados em macacos sugiram uma proteção parcial, é isso que o ensaio clínico precisa confirmar ou refutar. A decisão de iniciar com a vacina Ervebo é considerada pragmática, visto que ela já está disponível em estoque e possui um perfil de segurança conhecido após ser aplicada em dezenas de milhares de indivíduos, embora seu uso no surto atual esteja sob um protocolo de pesquisa devido à incerteza sobre sua proteção contra o vírus Bundibugyo.
Duas vacinas específicas para o Bundibugyo, selecionadas por um grupo técnico da Organização Mundial da Saúde (OMS) através de um processo de priorização, devem integrar o estudo TUMAINI nas próximas semanas. Uma delas é a ChAdOx1 BDBV, desenvolvida pela Universidade de Oxford em colaboração com o Serum Institute of India, utilizando um vetor adenoviral. A segunda, a mRNA-1469, pertence à farmacêutica Moderna e emprega tecnologia de RNA mensageiro. Ambas já foram submetidas a testes em humanos em estudos de fase 1, mas ainda precisam ser incluídas no TUMAINI.
O estudo Tumaini adota o esquema de vacinação em anel, replicando o modelo que comprovou a eficácia da vacina Ervebo na Guiné em 2015. Quando um caso é confirmado, o anel é formado pelos contatos do paciente e pelos contatos desses contatos, que serão vacinados. No âmbito do Tumaini, a comparação será realizada entre participantes que receberão diferentes vacinas candidatas, conforme estabelecido no protocolo. Dois anéis já estão operacionais, e outros estão em fase de criação. O estudo abrange gestantes e crianças a partir de 12 anos, grupos que foram excluídos dos ensaios iniciais de 2015 e que hoje constituem uma parcela relevante dos casos.
O desenho do estudo é adaptável: uma plataforma centralizada, gerenciada pelas autoridades congolesas, permite adicionar ou remover vacinas conforme os dados chegam, sem a necessidade de reiniciar o estudo. Este princípio é similar aos ensaios de tratamento da COVID-19, onde múltiplos medicamentos foram comparados dentro de um único protocolo. Espera-se que os primeiros resultados sejam divulgados em poucos meses.
Entretanto, existe um desafio inerente a qualquer desenho de ensaio que não pode ser resolvido: a vacinação em anel depende da capacidade de rastrear contatos. No Congo, a taxa de seguimento de contatos está em 79,7%, o que fica abaixo do mínimo de 95% recomendado pela OMS. Especificamente em Kivu do Norte, província afetada por conflito armado ativo, essa taxa atinge apenas 73% entre as pessoas vacinadas.
Na semana anterior ao início do estudo, foram notificados 976 casos e 482 mortes, sendo que 64% desses óbitos ocorreram na comunidade, fora de qualquer centro de tratamento. Indivíduos que falecem sem diagnóstico não fazem parte do anel de testes. Enquanto o ensaio começava, o surto apresentava a maior dispersão geográfica de um evento de Ebola na África. Um homem que trabalhava no Congo chegou a Nairóbi, Quênia, de avião em 3 de outubro e faleceu dois dias depois. Dos oito casos secundários relacionados a ele, quatro eram profissionais de saúde.
Um caso importado foi confirmado em Abuja, Nigéria, em 20 de outubro, envolvendo um paciente vindo de Uganda. Este caso queniano chegou a um hospital capitalino, em um sistema mais organizado que o do leste congolês, mas metade da transmissão secundária ocorreu dentro do próprio serviço de saúde. Isso reflete o padrão histórico do Ebola desde 1976: o profissional presta assistência ao paciente antes de qualquer suspeita, pois nas fases iniciais a doença pode ser confundida com malária ou sepse comum. Na doença causada pelo vírus Bundibugyo, o sangramento, que serviria como alerta, é menos frequente do que na doença causada pelo vírus Ebola da espécie Zaire.
Uma revisão publicada em junho no Journal of Hospital Infection analisou como proteger os cuidadores de pacientes com Ebola em zonas de conflito, na ausência de equipamentos médicos como pressão negativa ou respiradores motorizados, e com pessoal insuficiente. Esta é a realidade em Ituri, província nordeste da República Democrática do Congo. A conclusão desse conjunto de estudos contradiz a expectativa de que a melhoria do equipamento resolveria o problema. Simulações indicaram que os benefícios de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) mais avançados e a redução do risco de autocontaminação durante a remoção foram limitados e variados.
Segundo a revisão, o período de maior perigo é a retirada dos EPIs pelos profissionais de saúde, com mais de 50 tipos de erros catalogados. Um fator que mitiga este risco é a presença de um observador treinado acompanhando cada retirada com uma lista de verificação. A revisão sugere oito medidas, ordenadas por prioridade de implementação. Entre elas, está a recomendação de realizar uma triagem na entrada da unidade nas primeiras 72 horas, separando fisicamente as áreas de atendimento (uma lona plástica pode ser usada), realizando a retirada supervisionada dos EPIs e mantendo uma escala restrita para quem acessa a área de isolamento.
Nas duas primeiras semanas, é fundamental prover equipamentos de proteção adequados às condições locais, organizar equipes de sepultamento seguro em coordenação com a comunidade e estabelecer rotinas de higienização, gestão de resíduos e monitoramento dos profissionais expostos. Posteriormente, deve-se oferecer treinamento modular às equipes comunitárias. O conjunto de recomendações prioriza ações que se adaptam a contextos com recursos escassos. Em maio, a OMS declarou que a prioridade é interromper a transmissão usando ferramentas já aplicadas em outros surtos, enquanto aguarda a avaliação de vacinas e tratamentos específicos.
Existe o risco de casos importados, e o Ministério da Saúde brasileiro emitiu diretrizes para identificar e gerenciar casos suspeitos e seus contatos, ativando também o plano nacional de contingência. A principal lição a ser aprendida é a estrutura do risco: na maioria dos hospitais do Congo, o primeiro contato com o paciente infeccioso ocorreu antes da suspeita. Adicionalmente, a remoção do EPI pelo profissional de saúde era feita sem supervisão. A pandemia de COVID-19 demonstrou isso em 2020, quando os hospitais adquiriram máscaras mais rapidamente do que treinaram suas equipes para utilizá-las. Assim, embora o estudo Tumaini traga novos dados sobre as vacinas, é crucial reconhecer que a transmissão dentro dos serviços de saúde, tanto no Congo quanto em outros lugares, persiste devido a medidas que vão além da imunização.


