O desafio de restaurar uma floresta afetada pelo colapso de uma barragem de minério de ferro recai sobre a Samarco, mineradora responsável pela operação da barragem de Fundão em Mariana (MG), juntamente com suas acionistas Vale e BHP Brasil, desde novembro de 2015.
Após o rompimento liberar cerca de 43,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos e água, depositando aproximadamente 25 milhões de metros cúbicos ao longo dos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce, as empresas implementaram diversas medidas de reparação conforme estipulado no Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC), abrangendo o período de 2016 a 2024.
Com o progresso dessas ações corretivas, o foco direcionou-se para o desenvolvimento sustentável e duradouro da área, seguindo as orientações do Novo Acordo do Rio Doce, que foi oficializado em 25 de outubro de 2024. No total, mais de 82,6 bilhões de reais foram alocados para indenizar pessoas e reparar danos na Bacia do Rio Doce entre novembro de 2015 e setembro de 2026.
O trabalho de reparação abrange a proteção do solo, a recuperação de nascentes e zonas de preservação, a criação de condições ideais para o estabelecimento da flora nativa e a melhoria da qualidade, volume e permanência da água. Além disso, há um benefício significativo para propriedades rurais, visto que a preservação e recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) auxiliam na conformidade ambiental desses terrenos.
Thaís Silva, analista ambiental da Samarco, explica que este é um processo extenso que une conservação territorial, recursos hídricos e recuperação ambiental. Ela ressalta que o principal obstáculo na recuperação florestal da Bacia do Rio Doce é a grande dimensão e a diversidade do território, afirmando que não há uma solução universal, sendo necessário adaptar o trabalho às condições específicas de cada propriedade, ao estágio de regeneração da vegetação e às particularidades locais. Por essa razão, são empregadas distintas metodologias, incluindo restauração passiva, assistida ou ativa.
Entre as atividades centrais, Thaís detalha o cercamento e a proteção das áreas, o plantio direto, o enriquecimento com espécies nativas, a produção de mudas, a coleta de sementes e o monitoramento da restauração. O cercamento, segundo ela, serve para impedir o acesso de animais às áreas protegidas, o que permite a recomposição da vegetação e contribui para a salvaguarda do solo, da água e das nascentes.
O esforço de recuperação segue duas vias principais. Uma delas foca no reflorestamento e na bioengenharia nas margens dos rios na seção mais impactada da bacia. Estas técnicas visam estabilizar e recuperar as margens das APPs que foram diretamente atingidas pelos rejeitos. Outro projeto relevante foi o de renaturalização, que consistiu na implementação de estruturas para a recuperação de habitats.
O segundo eixo de ações compreende os espaços de reflorestamento compensatório, que cobrem áreas fora da zona de impacto do rompimento, mas que fazem parte do ecossistema da Bacia do Rio Doce. Tais iniciativas incluem avaliações ambientais e mapeamento de pontos de erosão, proteção de solos e margens contra animais e interferências externas, promovendo a regeneração natural e o surgimento da vegetação, além do plantio de espécies nativas da Mata Atlântica, manejo e fertilização verde do solo.
As técnicas de bioengenharia aplicadas em margens e taludes envolvem o uso de hidrossemeadura e plantio focado de espécies de contenção, como o capim vetiver, bem como a instalação de biomantas (tanto sintéticas quanto de fibra de coco bidimensional) e geotêxteis para prevenir a erosão laminar. Adicionalmente, para tratar superfícies erodidas, utilizam-se revestimentos com pedras de mão e muros de gabião. As equipes também constroem canaletas de drenagem, descidas d’água, passagens úmidas e bueiros celulares de concreto, além de remover mecanicamente os sedimentos acumulados em diques ou espelhos d’água.
Nas regiões diretamente afetadas, o objetivo primordial é restabelecer a vegetação e as funções ecológicas. Entre o Rio Gualaxo do Norte e a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, em Candonga, mais de 357 hectares estão passando por recuperação florestal, envolvendo 219 propriedades rurais em cinco municípios. Nestas áreas, foram plantadas mais de 1 milhão de mudas provenientes de mais de 300 espécies nativas da Bacia do Rio Doce, e parte da vegetação já exibe cobertura consolidada e características de floresta em fase avançada de restauração.
Já a restauração compensatória expande a atuação para outras partes da Bacia do Rio Doce. Até setembro de 2026, 47 900 hectares estavam cercados para reflorestamento e cerca de 4 600 nascentes foram protegidas, abrangendo mais de 3 000 propriedades rurais. O Novo Acordo prevê a continuidade da restauração florestal de 50 000 hectares e a recuperação de 5 000 nascentes.
O ciclo de restauração inicia-se antes do plantio. Até setembro deste ano, a Rede de Sementes e Mudas havia coletado 204 toneladas de sementes de 354 espécies nativas, o que suportou a produção de 14,4 milhões de mudas. Em termos de pessoal, a restauração florestal mobiliza aproximadamente 3 000 profissionais em toda a cadeia, desde a coleta de sementes e produção de mudas até o plantio, manutenção e monitoramento. Somente na coleta de sementes, há mais de 1 000 coletores distribuídos pela Bacia do Rio Doce.
Este conjunto de ações gera transformações perceptíveis no ambiente. Observa-se um aumento na densidade e diversidade de espécies na vegetação e no solo, o desenvolvimento completo das mudas, somado à aplicação de adubação verde. Também ocorre a estabilização do solo em várzeas e margens, o que ajuda a conter o aporte extra de rejeitos e promove a diminuição da turbidez nos corpos d'água.
Nos canais e trechos renaturalizados, houve um aumento na capacidade de retenção hidráulica, resultando no acúmulo de sedimentos e na deposição multidirecional, efeito da instalação das estruturas de bioengenharia. Tais intervenções favoreceram o enriquecimento de nutrientes e facilitaram a assentamento de partículas finas.
Como resultado, a região apresenta um maior equilíbrio entre os distintos tipos de substrato, o que impulsiona o desenvolvimento de habitats, aumenta a variedade das comunidades biológicas e eleva o número de táxons representativos, com maior variação na composição comunitária.
