O rover Perseverance, operado pela NASA, identificou na superfície de Marte partículas de poeira com dimensões de aproximadamente 100 nanômetros, o que as torna cerca de 500 vezes mais finas que um fio de cabelo humano. Este achado levanta preocupações sobre os riscos que este material representa tanto para a saúde de futuros astronautas quanto para a preservação de habitats e trajes espaciais durante missões tripuladas ao planeta.
A detecção foi realizada utilizando o instrumento PIXL, que analisou partículas acumuladas nos equipamentos do rover e em amostras de materiais transportados. Além das partículas ultrafinas de 100 nanômetros, o equipamento também detectou partículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros.
Tais partículas minúsculas possuem a capacidade de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea, podendo, teoricamente, causar danos a órgãos vitais. Contudo, segundo Scott VanBommel, cientista planetário da Universidade de Washington em St. Louis e autor principal do estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o nível de risco está diretamente ligado à quantidade e ao tempo de exposição.
A composição química da poeira marciana também é um ponto de atenção, visto que ela contém sílica, compostos de ferro e compostos de cloro, como o perclorato, substâncias que podem ser nocivas em concentrações elevadas.
Para investigar como a poeira se fixa em potenciais materiais para trajes espaciais, o Perseverance carrega amostras de dois tipos de material: a fibra sintética Vectran e um revestimento protetor Teflon, ambos medindo cerca de 20 milímetros de lado. Os resultados desses testes indicaram comportamentos diferentes; VanBommel enfatizou que os ensaios não evidenciaram danos causados pela poeira a esses materiais, sugerindo que as variações observadas podem decorrer das características físico-eletrostáticas de cada um, afetando a aderência das partículas.
Adicionalmente, a poeira tem potencial para deteriorar materiais de habitats e trajes espaciais ao longo do tempo. Os dados coletados pelo rover são cruciais para guiar a escolha de materiais adequados e para desenvolver procedimentos de limpeza eficientes, capazes de remover partículas com menos de um micrômetro.
A NASA já possui conhecimento sobre os efeitos da poeira em missões espaciais, remontando aos pousos lunares das missões Apollo, ocorridos entre 1969 e 1972. Na Lua, o material causou desgaste nas camadas externas dos trajes, danificou vedantes e riscou visores, podendo também contribuir para sintomas semelhantes à febre do feno em alguns astronautas. A poeira lunar é formada primariamente por impactos superficiais e mantém-se angular e afiada devido à ausência de atmosfera ou vento para desgastá-la. Em contraste, em Marte, as maiores preocupações residem na composição química e no tamanho reduzido das partículas.
Com a NASA planejando enviar astronautas ao Planeta Vermelho já na década de 2030, VanBommel declarou que as descobertas servirão de base para orientar o planejamento de sistemas de suporte à vida, a seleção de materiais para trajes e habitats, e a criação de protocolos para gerenciar riscos toxicológicos. O pesquisador concluiu que tais achados auxiliarão no desenho de futuros sistemas de suporte humano para missões marcianas, abrangendo a escolha de materiais e o estabelecimento de métodos de limpeza eficazes para partículas submicrométricas.
