Com o avanço acelerado da inteligência artificial (IA) em diversas esferas, a medicina se tornou uma das áreas impactadas. Em fevereiro de 2026, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou diretrizes específicas para a utilização dessa tecnologia no setor, as quais entraram em vigor em 26 de agosto.
O propósito da Resolução CFM nº 2.454/2026 é estabelecer parâmetros claros para que a IA sirva como um suporte ao trabalho dos médicos. Especialistas foram consultados para detalhar essas novas normas.
A resolução determina que a autonomia e a responsabilidade inerentes ao médico permanecem intactas. Isso implica que a IA nunca poderá tomar a decisão clínica final; o profissional continua sendo o responsável por diagnósticos, prescrições e tratamentos.
Adicionalmente, o médico possui o direito de rejeitar ou interromper o uso de ferramentas de IA que julgar inadequadas ou ineficazes. É obrigatório que o uso dessa tecnologia seja devidamente registrado no prontuário do paciente.
Karlyse Claudino Belli, especialista em IA aplicada à saúde, afirmou que a Resolução CFM nº 2.454/2026 representa o primeiro marco brasileiro a definir regras claras sobre o uso de IA na medicina. Ela enfatizou que o papel central da IA é auxiliar o médico, mantendo a decisão sempre sob controle humano.
Para a especialista, a regulamentação garante três direitos ao paciente: o conhecimento sobre quando a IA esteve envolvida no atendimento, a possibilidade de recusar seu uso e uma maior segurança de que diagnósticos e tratamentos são comunicados por uma pessoa, e não por um algoritmo.
Para organizar a implementação da IA na medicina, a resolução classifica diferentes níveis de risco. Segundo Karlyse Belli, quando aplicada corretamente, a IA tem a capacidade de diminuir falhas por omissão e liberar tempo do médico para dedicar à escuta ativa do paciente.
A especialista concluiu que a existência da resolução visa permitir esses ganhos sem que a relação entre médico e paciente seja terceirizada.
Miguel Sabino, professor da Escola Paulista de Medicina (EPM) e coordenador do comitê científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), compartilhou sua perspectiva sobre o progresso da IA na área. Ele considera que a tecnologia possui «utilidades fundamentais» atualmente.
Sabino descreveu como, antigamente, um médico precisava consultar livros ou colegas para formular hipóteses diagnósticas. Hoje, a IA oferece respostas imediatas, sendo bastante confiável, embora não seja 100% segura, desde que o profissional saiba como solicitar e interpretar a informação.
Além disso, ele mencionou que a IA auxilia significativamente na elaboração de documentos médicos, especialmente quando revisada e supervisionada pelo profissional da área, otimizando o tempo do médico de forma mais racional.
Olhando para o futuro, Sabino prevê cenários que parecem ficção científica. Ele citou a evolução de robôs humanoides e a grande aplicabilidade de robôs controlados por humanos em procedimentos cirúrgicos, classificando isso como um grande avanço técnico.
O especialista acredita que, a médio prazo, a combinação de um robô humanoide com uma IA avançada poderá criar máquinas capazes de realizar atividades em diversos campos, incluindo a medicina e a cirurgia, substituindo técnicos humanos.
Contudo, Sabino levantou duas ressalvas importantes: primeiramente, a necessidade de total consideração e preservação dos aspectos de privacidade e identidade. Em segundo lugar, ele alertou que a humanidade exige acolhimento e tratamento digno, e que não se deve perder totalmente essa conexão humana.
