A crescente necessidade de construir centros de dados robustos para suportar a inteligência artificial (IA) está estimulando um segmento de mercado pouco convencional: o de tintas e revestimentos industriais. À medida que gigantes como Microsoft, Google e Amazon expandem suas infraestruturas de computação, os produtores de materiais de proteção observam um aumento na demanda, mesmo que o produto seja predominantemente na cor cinza.
A PPG, sediada em Pittsburgh (EUA), prevê que as vendas de suas tintas especificamente para data centers triplicarão neste ano em comparação com o período anterior. Essa expectativa supera significativamente o crescimento geral da empresa, cujas vendas totais atingiram US$ 4,5 bilhões (aproximadamente R$ 24 bilhões) no último trimestre, representando um aumento de 7%.
Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos protetores e marítimos da PPG nas Américas, comentou que nunca havia presenciado um crescimento tão expressivo. A PPG identificou essa oportunidade há cerca de três anos, após o lançamento do ChatGPT e o aumento na divulgação de novos data centers e fábricas de chips.
Com isso, contratantes, fabricantes de estruturas metálicas e fornecedores de equipamentos começaram a competir por projetos relacionados à expansão da infraestrutura de IA. A empresa implementou equipes dedicadas ao setor de tecnologia e iniciou colaborações com arquitetos, engenheiros e construtoras antes mesmo do começo das obras, visando incluir seus produtos nas listas de materiais aprovados desde as fases iniciais do projeto.
Em abril, a companhia lançou um conjunto de soluções focado em data centers. Esta oferta engloba revestimentos para proteger estruturas de aço contra incêndios, primários para evitar corrosão, pisos projetados para diminuir riscos de eletricidade estática e materiais destinados a impedir interferências elétricas.
Adicionalmente, a PPG fornece revestimentos para mais de 75 tipos de componentes utilizados nessas instalações, incluindo carcaças de câmeras de segurança e equipamentos de refrigeração. A empresa relata que seus produtos já foram aplicados em data centers localizados no Brasil e na China. No entanto, mais da metade das oportunidades comerciais concentra-se nos Estados Unidos, país que abriga cerca de 5,5 mil instalações desse tipo, conforme aponta o relatório Artificial Intelligence Index, da Universidade Stanford (EUA).
O setor também beneficia rivais. A Sherwin-Williams, principal concorrente da PPG, comunicou que seus produtos são empregados em diversas partes dos data centers, desde as vigas metálicas até as estruturas que abrigam servidores. Em julho, Heidi Petz, presidente-executiva da companhia, declarou que as vendas da divisão de revestimentos protetores e marítimos tiveram um crescimento de dois dígitos em relação ao ano anterior, impulsionado, entre outros fatores, pela construção dessas instalações.
Apesar da complexidade dos produtos, o aspecto visual geralmente é sutil, visto que a maioria dos revestimentos é vendida em variados tons de cinza, aplicados sobre concreto e aço que possuem tonalidades semelhantes. Isso ocorre porque os data centers são construídos primariamente para abrigar maquinário, e não para receber pessoas, fazendo com que a estética interna raramente seja uma prioridade para proprietários, arquitetos e engenheiros.
Matthew Giddings, especialista da empresa imobiliária comercial JLL, que atua com a gestão de data centers, calcula que os revestimentos podem custar entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões (equivalente a R$ 16 milhões a R$ 43 milhões) em um único edifício. Embora este valor constitua apenas uma fração do custo total da edificação, ele auxilia na mensuração do mercado gerado pela expansão da infraestrutura de IA.
Existem exceções à hegemonia do cinza: tubulações de água gelada podem receber pintura azul, enquanto os canos ligados aos sistemas de combate a incêndios costumam ser vermelhos, facilitando a identificação pelas equipes de manutenção. Além disso, em resposta à pressão de comunidades locais por empreendimentos com menor aspecto industrial, algumas empresas passaram a incorporar cores nas fachadas.
A PPG, estabelecida em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Company, teve origem como fabricante de vidro. Ao longo do tempo, evoluiu para se tornar uma das maiores corporações de revestimentos globais, atendendo a setores como automotivo, aeronáutico e embalagens. A empresa prefere denominar seus itens como «revestimentos» em vez de meramente tintas, pois suas soluções podem integrar um primer para fixação no aço, uma camada funcional de proteção e um acabamento final.
Contudo, apesar das perspectivas otimistas, o avanço do mercado enfrenta obstáculos. A PPG mencionou que alguns projetos de data centers estão atrasados aguardando acesso à energia. A escassez de transformadores e outros equipamentos elétricos também tem alongado os cronogramas de construção. Soma-se a isso o desafio representado pela resistência de comunidades locais à instalação de novos empreendimentos.
A PPG avalia que os revestimentos destinados a data centers ainda representam uma fatia modesta de suas vendas, mas mantém a expectativa de que este nicho cresça muito mais rapidamente do que outros segmentos de infraestrutura. Assim, a expansão da IA não só impulsiona empresas desenvolvedoras de modelos ou fabricantes de chips, mas também gera oportunidades para fornecedores de materiais e componentes vitais para a construção e operação dos vastos edifícios que sustentam essa tecnologia.

