A utilização de indicadores concebidos para ambientes urbanos acaba por exagerar a real situação de pobreza das comunidades rurais localizadas na Amazônia. Utilizando dados do Censo de 2000, um índice de pobreza multidimensional padrão apresentou um valor aproximadamente 17% superior para a área rural em comparação com o resultado obtido ao aplicar uma métrica adaptada à realidade da região.
Para corrigir essa imprecisão e diminuir o risco de que o estilo de vida campestre seja erroneamente categorizado como carência, uma equipe de pesquisadores sob a coordenação da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveu o Índice de Pobreza Multidimensional Trajetórias (IPM-Trajetórias). Este novo índice foi apresentado em um estudo publicado na revista Nova Economia na última sexta-feira (23).
Este modelo integra dados de saúde, educação e condições de vida provenientes dos censos de 2000 e 2010, aplicando critérios diferenciados tanto para zonas urbanas quanto rurais. Indicadores específicos, como a propriedade de terras, foram criados para mensurar a pobreza no campo, enquanto a posse de rádio e outros itens de comunicação, assim como a disponibilidade de automóvel ou motocicleta, recebem pesos distintos dependendo se o contexto é rural ou urbano.
O novo indicador demonstrou que, em 2010, a pobreza rural na área alcançava 27% da população rural, uma taxa cerca de quatro vezes maior que a observada na área urbana, que era de 7%. No período entre 2000 e 2010, o índice de pobreza multidimensional registrou quedas significativas, atingindo cerca de 79% no meio rural e 94% no meio urbano. Contudo, os responsáveis alertam que a comparação direta entre os dois anos é inviável devido às alterações nas variáveis utilizadas pelo Censo.
Além da UFPA, a criação desta ferramenta envolveu diversas outras entidades, incluindo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Ministério da Saúde, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), universidades federais como UFSM, UFSCar e UFMG, e o Barcelona Supercomputing Center. Um grupo multidisciplinar composto por especialistas em epidemiologia, economia, ecologia, biologia, geografia e ciências sociais definiu esses novos indicadores.
Indicadores gerais, como o Produto Interno Bruto (PIB) per capita e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizam médias que mascaram a realidade daqueles que residem no bioma, e segundo os autores, contribuíram para consolidar a percepção de pobreza contínua na Amazônia, ligada a um suposto atraso de sua economia rural.

