Todo ano, no início do ano, é publicado uma lista de carros que completaram trinta anos e se tornam elegíveis para importação. Embora descobrir que um modelo específico pode agora ser trazido para o Brasil cause entusiasmo, esse sentimento rapidamente dá lugar à decepção ao calcular aproximadamente o custo final desse carro no Brasil. Por exemplo, um carro anunciado por US$ 10.000 pode custar R$ 50.000 antes mesmo de você começar a pensar na sua entrega.
A taxa de câmbio reflete nossa história econômica: décadas de inflação, crises, instabilidade e desconfiança na moeda brasileira são evidentes até mesmo na compra de um carro com 30 anos. A isso se soma nosso caos tributário, que cobra altos impostos até mesmo sobre mercadorias usadas importadas para uso pessoal ou coleção, como se fossem concorrentes diretos da produção mais recente da indústria nacional.
No entanto, este é apenas o primeiro obstáculo. Um cálculo rápido, somando o preço do carro, o frete e os impostos, permite estimar o custo de trazer este clássico americano para o Brasil. O problema é que esse cálculo não considera tudo. Existem outras despesas, requisitos e procedimentos que surgem durante o processo, mas que não estão incluídos nas regras alfandegárias.
Para descobrir o que existe entre o anúncio de um carro americano e sua chegada, legalizado e registrado em uma garagem brasileira, conversamos com Mario Zerbetto, que importou um Corvette C4 junto com seu amigo Pedro, que trouxe um Dodge Ram 2500. Eles dividiram um contêiner para reduzir custos e enfrentaram seis meses de burocracia, viagens pelos Estados Unidos e algumas circunstâncias imprevistas antes de conseguirem colocar ambos os carros na garagem. Mario conta sobre sua experiência e, principalmente, sobre quanto custa tal importação, usando uma simulação para dividir os custos sem revelar preços particulares dos veículos.
Durante uma conversa informal, típica de entusiastas que gostam de complicar a vida e não abrem mão de uma boa aventura, surgiu um plano: 'Vamos expandir o raio de busca de lasanha. Vamos importar!' Essa grande ideia, que todo entusiasta já pensou, decidimos realizar. E fizemos isso em dobro!
Meu parceiro neste empreendimento foi meu amigo Pedro, que mora na Carolina do Sul. Eu tenho formação em comércio exterior e trabalhei nessa área por muitos anos (embora não no segmento automotivo), enquanto ele já tinha experiência em enviar carros brasileiros para os EUA e estava 'na fonte', tendo a oportunidade de visitar e avaliar nossos alvos. Foi uma parceria promissora: dois entusiastas motivados, dois carros ainda não escolhidos e um contêiner de 40 pés para uso compartilhado, o que permitiu diluir os custos logísticos. Nós começamos!
A Busca: Quando os Carros Escolhem Você
A principal questão inicial para alguém com gosto automotivo amplo e eclético é: qual modelo comprar? Na verdade, mesmo no mercado interno, eu acredito que não sou eu quem escolhe os carros — são eles que me escolhem. Segui essa filosofia, com mente aberta e várias opções na lista de buscas, procurando oportunidades por dias e trocando opiniões com Pedro sobre os candidatos.
Ele decidiu primeiro, e de forma bastante impressionante: uma verdadeira picape americana, Dodge Ram 2500 de 1996 com cabine estendida, equipada com o famoso motor Cummins 6BT — um lendário motor turbo diesel de seis cilindros — e tração 4x4 potente. Foi uma escolha digna que elevou o nível para que eu encontrasse algo igualmente incrível.
Continuamos a busca até que ele deu um resultado. Encontramos um verdadeiro muscle car americano, um clássico da geração com o óbvio V8 do 'Uncle Sam': Chevrolet Corvette C4. Mas não era apenas um exemplar. Embora mais de 300 mil 'Vettes' desta geração tenham sido produzidos, encontramos uma raridade: um modelo de 1993 da série comemorativa de 40 anos (40th Anniversary).
Além da combinação icônica monocromática da carroceria e do interior na cor Ruby Red, característica desta versão, o carro era um conversível com teto de tecido e possuía um raro teto rígido. Como um toque especial, ele tinha um terceiro pedal para controlar a desejada caixa de câmbio manual ZF de seis velocidades, acoplada ao motor V8 LT1! O preço era atraente, e o carro ficava a uma distância razoável de 150 milhas da casa de Pedro, que o inspecionou rapidamente e tomou a decisão. O Vette era nosso. Lembra que mais de 300 mil unidades foram produzidas? Nesta configuração específica do nosso exemplar, o número é de cerca de 500 unidades, e isso sem contar o teto rígido opcional, que torna o carro ainda mais exclusivo.
Burocracia Antes da Diversão
Após concluir a primeira parte da missão, passamos para os procedimentos burocráticos. O processo começa com a coleta de toda a documentação, fotos e dados necessários para solicitar a Licença de Importação (LI) como veículo de coleção. Para isso, o carro deve ter mais de 30 anos, e é necessária a certificação do veículo e do importador pelo clube de carros antigos associado à Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA). Nesta fase também participa o registro da pessoa física no sistema da Receita Federal e a emissão do Certificado de Conformidade ao Código de Trânsito (CAT) pelo Departamento Nacional de Trânsito (Senatran).
Este processo documental levou cerca de 45 dias antes de recebermos a permissão para o transporte da carga para o porto — no nosso caso, Fort Lauderdale, Flórida, a cerca de 800 milhas da casa de Pedro, onde os carros esperavam. Inicialmente, logisticamente, ambos os veículos deveriam ser entregues por um transportador em um armazém em Miami, onde seriam preparados e colocados em um contêiner. No entanto, no caminho, tivemos outra 'ótima' ideia!
Por que pagar pelo transporte se podemos fazer uma viagem de carro? Já que íamos gastar com um transportador, por que não usar esse dinheiro para levar os carros em uma viagem de carro até Miami? Eu não perderia tal oportunidade. Comprei uma passagem promocional de última hora e viajei para os EUA, com escala em Miami e voo final em Charlotte, onde Pedro me esperava, já de férias e pronto para viajar. No primeiro dia, passamos pela região dele, visitamos um museu na fábrica da BMW em Spartanburg e preparamos os carros. Como o Ram estava equipado com pneus off-road grandes e tinha um pequeno problema com a ativação do overdrive da transmissão, decidimos ser cautelosos e o enviamos por transportadora. Continuamos a rota no Corvette, que já havia completado com sucesso a viagem de compra.
No dia seguinte, partimos e decidimos estender a rota em 200 milhas para visitar a sede da conhecida FuelTech em Ball Ground, Geórgia, na esperança de cumprimentar o CEO e grande entusiasta de carros clássicos, Dick Anderson. Conseguimos: através de um amigo em comum que estabeleceu contato, fomos muito bem recebidos para conversar e fazer um tour pelos projetos da empresa. De lá, deixamos os arredores de Atlanta e seguimos para a Flórida, atravessando toda a Geórgia no primeiro dia para chegar à costa, em St. Augustine histórico. Um passeio, algumas cervejas merecidas e descanso.
Na manhã seguinte, desviamos das rodovias e escolhemos a clássica US Route 1, aproveitando a estrada costeira até a parada obrigatória: Daytona Beach. Dois amantes de carros em uma viagem de carro não poderiam perder o berço da NASCAR, certo? Assim que estacionamos o Corvette na entrada do museu, um segurança se aproximou, elogiou o carro e imediatamente notou quão raro era aquele teto rígido. Quando contamos sobre nossa missão de levá-lo ao Brasil, ele ficou impressionado e nos parabenizou. Não pudemos visitar a pista porque uma megaestrutura para um festival de rock que começaria no dia seguinte estava sendo construída. Voltando à estrada, mudamos o plano, decidindo não fazer mais uma parada e seguir direto pela rodovia até Miami, ganhando um dia extra na cidade antes de entregar o carro.
O Suco do Dinossauro na Collins Avenue
Chegamos tarde da noite, fizemos check-in no hotel, deixamos as mochilas, tomamos banho e saímos jantar. Após cruzar a famosa Ocean Drive, seguimos pela rua paralela Collins Avenue, procurando um lugar para estacionar. De repente, bem durante a manobra, o V8 começou a falhar. Pedro estava dirigindo: quando acelerava, o carro morria, até apagar completamente. Ele olhou para mim e disse: 'Acabou a gasolina!' O tráfego pesado em que caímos, combinado com a sede do oito cilindros LT1 na cidade, brincou conosco. Mas entusiastas de carros clássicos não se incomodam: abrimos o Google, encontramos um posto de gasolina a 10 minutos de caminhada, compramos um galão, voltamos e abastecemos o 'suco do dinossauro' no tanque. O motor voltou a funcionar perfeitamente na primeira partida, e nós voltamos ao jogo!
No dia seguinte, dirigimos por Miami mais algumas vezes, deixamos Pedro no aeroporto de Fort Lauderdale, entregamos o Corvette no depósito de logística e chamamos um Uber para ir ao nosso voo. A primeira metade da missão foi concluída.
O Perigoso Canal Vermelho e o Teste Final de Paciência
A partir desse momento, começou a operação marítima: preparação dos carros, carregamento no contêiner e embarque no navio de carga. Duas semanas depois, o casal chegou ao porto de Santos, iniciando o desembaraço aduaneiro. É neste estágio que ocorre a parametrização da Receita Federal, que determina o nível de controle da carga. No nosso caso, caímos no temido Canal Vermelho, exigindo análise documental minuciosa e inspeção física detalhada dos veículos. É um processo tenso e mais longo, mas como tudo estava estritamente de acordo com a lei, a carga foi aprovada e liberada quatro semanas após a chegada ao porto.
Quando os carros finalmente estavam em nossas mãos, restava o último — e mais exaustivo — passo burocrático, que muitos esquecem de mencionar: envio da documentação ao Senatran em Brasília para registro preliminar na Base Nacional de Dados (BIN). No nosso caso, esta etapa levou longos dois meses. Somente após esse registro o declarante pôde solicitar o registro no Detran local, e só então isso aconteceu rapidamente, seguindo os mesmos procedimentos de um carro novo.
Grande Final: 700 km até a Ilha dos Milagres
Para encerrar a jornada em grande estilo, faltava um detalhe. O Ram já estava em casa, enviado por transportadora diretamente para Florianópolis, mas o Corvette esperava em São Paulo pela emissão das placas. Já que levamos o carro até o porto nos EUA, era justo levá-lo para casa no Brasil! Tanque cheio, placas instaladas e 700 quilômetros de asfalto pela frente até Floripa. Viagem perfeita e missão cumprida: seis meses após o início do projeto, tínhamos ambos os carros clássicos americanos devidamente nacionalizados, documentados e sendo exibidos na Ilha dos Milagres!
E agora vamos calcular: quanto custou? Após a conclusão de todo o processo de importação e nacionalização, chegamos ao momento mais curioso: quanto isso custou? Vale a pena? Na minha opinião, vale — e muito! Mas antes de revelar os números, vale adicionar uma observação importante: as pessoas sempre perguntam sobre o 'aumento percentual' sobre o custo do carro, que exige o processo. Na prática, este cálculo é variável, pois existem muitas taxas operacionais fixas ao longo de todo o processo. Ou seja, quanto maior for o valor do carro comprado lá, menor será o impacto percentual desses custos no custo final. E dividir o contêiner entre dois carros ajuda a diluir a maior parte desses custos.
Para simplificar a explicação, faremos uma simulação prática, supondo um clássico comprado por US$ 10.000, transportado em um contêiner compartilhado com outro veículo. Os seguintes valores são ilustrativos e não correspondem necessariamente aos custos particulares em nossa história: