Goiânia evoluiu de uma cidade planejada para menos de 50 mil habitantes, focada em ser a nova sede político-administrativa de Goiás, para se tornar uma capital com economia robusta e diversificada, abrigando uma população estimada pelo IBGE em 1,5 milhão de residentes. A trajetória econômica da cidade ao longo de seus 93 anos envolveu mudanças socioeconômicas notáveis, consolidando-a como referência na indústria e no mercado imobiliário. Especialistas e moradores analisaram os caminhos percorridos nesse processo.
Adriana Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), resumiu as nove décadas da capital, explicando que inicialmente, os principais motores econômicos eram a construção da cidade, a instalação da administração pública e o comércio. Posteriormente, a construção de Brasília e a expansão das rodovias no Centro-Oeste, juntamente com a diversificação da agropecuária, atraíram inúmeras empresas e investimentos para a região.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram as diversas vocações econômicas adquiridas pela cidade, refutando a ideia de que seu Produto Interno Bruto (PIB) se restringe ao agronegócio. Uma Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, referente ao segundo trimestre de 2026, detalha a distribuição da população ocupada: 24% trabalham em serviços e comércio, 18,3% são de ciências e intelectuais, 12% são técnicos e profissionais do ensino médio, 11,7% são trabalhadores qualificados, operários e artesãos da construção, e 9,8% pertencem a ocupações elementares.
O comércio, que compõe o maior grupo de trabalhadores, sofreu grandes alterações, conforme aponta João Oliveira Ramos Neto, professor de história do Instituto Federal de Goiás (IFG). Ele recorda que, nos anos 90, o centro de Goiânia era extremamente movimentado, sendo o Bosque dos Buritis o ponto de referência, pois parques como Vaca Brava e Flamboyant ainda não existiam, e as pessoas iam ao centro para acessar serviços, comércio e lazer.
Registros antigos, como anúncios de 21 de março de 1953 na Avenida Goiás, mostram o desenvolvimento do comércio no Setor Central, enquanto o Senac divulgava cursos de datilografia dois anos antes na mesma avenida. Helia Gonçalves, superintendente executiva da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, acrescenta que, além do centro, o Setor Campinas era um polo comercial relevante. Com o avanço urbano, novos polos surgiram, como a Região da 44, focada em moda e confecção, e centros comerciais se espalharam pelos bairros.
José Ronaldo Alves Leite, comerciante de 59 anos, testemunha essas mudanças. Ele iniciou sua loja de telas de arame no Setor Aeroviário em 1988. Ele relata ter enfrentado dificuldades iniciais com registro e compra de materiais, mas superou os desafios da época. Ele observa que a economia, tanto da capital quanto do país, mudou profundamente, citando a alta inflação no final dos anos 80, que só foi controlada com o Plano Real na década seguinte. No aspecto operacional, ele compara as vendas de 1988, feitas por listas impressas e telefone fixo, com os métodos atuais que utilizam internet, WhatsApp e redes sociais.
Apesar da expansão comercial, a loja de José Ronaldo permanece no mesmo local, mas outros comerciantes se realocaram. Segundo Helia Gonçalves, a descentralização do comércio foi impulsionada pelo aumento populacional, expansão imobiliária, mobilidade urbana e a busca dos consumidores por maior conveniência e proximidade.
Um marco dessa descentralização foi a inauguração do Shopping Flamboyant no Jardim Goiás, em 1980 e 1981. Mais tarde, outros grandes centros, como o Goiânia Shopping no Setor Bueno em 1995, reforçaram a tendência de aproximação do comércio aos locais de moradia e trabalho.
O comércio de alimentos
Os supermercados também ilustram transformações significativas no cotidiano dos moradores de Goiânia. Augusto Almeida, superintendente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), informa que, nas primeiras décadas, o abastecimento era feito por mercearias, armazéns, feiras e venda assistida, onde o atendente separava os itens solicitados pelo cliente. Somente na década de 1950 os supermercados adotaram o modelo atual de prateleiras abertas e escolha direta pelo consumidor.
Nos anos 1970, Goiânia recebeu grandes redes como Marcos, Moreira, Passe Bem, Alô Brasil e Pirineus. Sirlei Antônio do Couto, presidente da Agos, atribui a mudança constante dessas redes ao dinamismo inerente ao setor, mencionando a transformação de empresas familiares em grandes redes e a alteração de bandeiras e grupos empresariais.
Na mesma década de 1970, chegaram as redes atacadistas ao Brasil. Em Goiânia, contudo, esse modelo só se firmou mais recentemente, combinando-se com o varejo tradicional, dando origem ao conceito de «atacarejo». Augusto Almeida explica que o avanço do atacarejo em Goiás foi fortalecido nas últimas décadas, acompanhando a expansão urbana, a profissionalização da distribuição de alimentos e o crescimento de redes regionais e nacionais.
A força da indústria
A indústria goianiense diversificou-se em diversos segmentos, abrangendo desde alimentos até máquinas, equipamentos e vestuário. André Rocha, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), destaca a forte produção de alimentos, incluindo o setor lácteo e frigoríficos. Ele ressalta que o principal frigorífico do grupo JBS, atualmente o maior produtor mundial de proteína animal, está localizado em Goiânia, na região Noroeste.
Rocha também chama a atenção para a indústria da moda, ligada à conhecida Região da 44, que, segundo a Assessoria Empresarial da Região da Rua 44 (AER44), é o segundo maior polo de confecção e distribuição de moda do Brasil, contando com mais de 13 mil pontos de venda. O presidente da Fieg afirma que a indústria de moda — que engloba calçados, confecções e cosméticos — é um setor muito forte e em ascensão.
O setor da construção civil é outro indicativo da força industrial. As antigas ruas com apenas casas e estabelecimentos térreos deram lugar a edifícios imponentes, muitos com mais de 20 andares. Edson Roberto Vieira, superintendente do IBGE em Goiás, relaciona este crescimento à aceleração do mercado imobiliário, impulsionada pelo fluxo financeiro gerado pelo agronegócio. Vieira explica que muitos proprietários rurais, tanto dentro quanto fora do estado, investem no mercado imobiliário de Goiânia, resultando em muitos lançamentos de imóveis de luxo, cuja demanda provém da renda agropecuária.
O pujante mercado imobiliário
A análise do superintendente do IBGE encontra respaldo na declaração de Felipe Melazzo, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), que aponta que grande parte dos investimentos no setor está vinculada às atividades agrícolas. Melazzo afirma que a interação entre o mercado imobiliário de incorporação e o agronegócio é essencial para o ciclo virtuoso do crescimento econômico sustentável do PIB estadual.
Segundo a Ademi, o mercado imobiliário de Goiás é o terceiro maior do Brasil, com destaque significativo para a capital. Este segmento contribui com mais de 10% da arrecadação municipal de Goiânia, e a indústria da construção sozinha representa 20% da força de trabalho industrial. Para alcançar esse nível, a cidade superou problemas iniciais de sua fundação. Melazzo detalha que, embora Goiânia possua um traçado urbanístico moderno e inovador, a ocupação inicial ocorreu de forma marginal ao desenho original devido à carência de infraestrutura, algo que também ocorria na década de 1930, quando havia pouco crédito e forte presença estatal no combate a ocupações irregulares.
