Roberto Higa compartilha sua trajetória no fotojornalismo de Mato Grosso do Sul e fala sobre o câncer
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Roberto Higa compartilha sua trajetória no fotojornalismo de Mato Grosso do Sul e fala sobre o câncer

Roberto Higa, uma figura proeminente do fotojornalismo de Mato Grosso do Sul, compartilhou em entrevista à TV Morena um panorama de sua vida, incluindo décadas de registros históricos de Campo Grande e o desafio recente imposto pelo câncer.

Na residência do fotógrafo, a garagem abriga o veículo da família junto a retratos de personalidades notáveis, enquanto o interior da casa funciona como uma galeria particular, repleta de fotos e quadros que narram a história de Higa, filho de imigrantes japoneses e referência no fotojornalismo estadual.

Já na década de 1960, ele começava a documentar eventos significativos utilizando os equipamentos fotográficos da época. Higa relatou ter sido o profissional que mais fotografou presidentes durante suas visitas ao estado, citando nomes como Médici e Geisel. Apesar das limitações físicas atuais, o fotógrafo afirmou continuar trabalhando com a câmera diariamente.

A trajetória de Higa também está ligada à de Sandra, sua esposa. O relacionamento deles teve início nos pedalinhos da Universidade Estadual de Mato Grosso, que hoje é a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, antes da separação do estado. Foi nesse local que ele tirou o primeiro registro de Sandra, perto da piscina olímpica.

As memórias do casal são preservadas, incluindo o convite do casamento, fotos do civil, da cerimônia religiosa e da festa realizada na antiga residência. Nos anos 80, a câmera capturou o nascimento do primeiro filho, resultando em um álbum de maternidade, um formato que só se popularizaria muito tempo depois. Além disso, durante o parto de um dos filhos, ele cobriu o hospital com bandeiras do Operário, time que ele apoia.

Das interações na avenida aos registros políticos

Higa também dedicou sua lente a registrar festas e encontros juvenis em Campo Grande. Ele acompanhou o movimento da Avenida da Paquera, localizada na Avenida Afonso Pena, área que hoje faz parte do centro da cidade. Naquela época, o local era ponto de encontro de jovens e possuía sistemas de alto-falantes para auxiliar nos encontros românticos.

Ele recordou como as moças desfilavam pelo asfalto, e havia alto-falantes em cada esquina anunciando, por exemplo: «Atenção atenção, você moça que está de saia plissada, blusinha branca, maria-chiquinha no cabelo, o fulano de tal tá te esperando na rua Maracaju». Higa mencionou que houve necessidade de restringir a circulação para garantir a realização de inaugurações.

Seus registros se estenderam a eventos políticos. Ele documentou as alterações de um monumento, desde sua configuração inicial e remoção até as modificações de localização e a instalação do modelo vigente. A chegada da primeira escada rolante em uma loja de departamentos no centro de Campo Grande também foi capturada, mostrando a reação do público à novidade.

Ao longo de sua carreira, o fotógrafo cobriu comícios e acontecimentos cruciais para a formação do estado, como a Assembleia Estadual Constituinte de 1979, responsável pela criação da Constituição de Mato Grosso do Sul após a divisão do antigo Mato Grosso. Registros desse período também fazem parte de seu acervo.

Em uma ocasião, durante uma visita do então presidente Emílio Garrastazu Médici a Campo Grande, um dia chuvoso ficou marcado. Higa contou que chegou a fotografar Médici fumando, algo incomum, visto que o presidente não deveria entrar fumando, mas ele tinha o hábito.

Naquele tempo, Higa possuía um crachá que lhe dava acesso às coberturas de presidentes e candidatos à Presidência da República. Muitos de seus cartões profissionais estão expostos em um quadro na sua casa. A história da Rede Matogrossense de Comunicação (RMC) e do grupo de comunicação da família Zahran também está documentada na residência, sendo Sandra responsável por organizar e conservar parte desse material. Ela informou que as imagens estão organizadas em cadernos e envelopes, cada um com seus negativos, totalizando mais de 8.700 envelopes registrados em um único caderno.

O acervo da vida e o desafio do tratamento

Este ano, a trajetória de Higa ganhou forma de documentário e filme. Enquanto sua carreira recebe novos registros, o fotógrafo enfrenta um dos momentos mais difíceis de sua vida. Diagnosticado com câncer na laringe, ele recebeu tratamento em Campo Grande, em um hospital que acompanhava desde sua fundação. Durante essa jornada, ele e sua família registraram as diversas fases do processo.

Após finalizar um ciclo de tratamento, Higa tocou o sino no Hospital Alfredo Abrão, um ato que simbolizou o término de uma fase. Meses depois, um vídeo gravado em sua sala de estar trouxe a notícia de uma recidiva da doença. Atualmente, ele está recebendo cuidados paliativos e contando com o suporte familiar. Quando questionado sobre sua percepção de tudo o que realizou em sua vida, Higa respondeu: «Eu tenho, e me dou por satisfeito».

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