Muito antes de figuras como Cleópatra, Nefertiti ou Hatshepsut assumirem o poder, há indícios de que uma mulher poderia ter liderado a civilização egípcia antiga. Descobertas relativas a Meretneith, que viveu há mais de cinco mil anos, apontam para a possibilidade de ela ter sido uma das primeiras líderes após a unificação do Egito, durante o período da Primeira Dinastia.
Quando arqueólogos localizaram o sepultamento de Meretneith no final do século XIX, já havia sinais de sua importância. O túmulo era ricamente decorado com artefatos feitos de pedra, marfim e cobre, caracterizando-se como um local digno de faraós. Seu nome, que significa 'amada de Neith', faz uma alusão direta a uma das divindades mais veneradas do Egito Antigo.
O túmulo de Meretneith também continha uma estela, uma placa de pedra gravada com textos em hieróglifos. Contudo, diferentemente dos túmulos de outros reis encontrados no mesmo local, a estela dela carecia de um elemento crucial: o símbolo conhecido como serekh. Este desenho era utilizado para identificar o faraó no momento de seu falecimento, ou seja, quem detinha o comando sobre o povo.
Devido a essa ausência, muitos estudiosos consideravam que Meretneith não possuía o mesmo nível de poder que os governantes masculinos. Entretanto, existem evidências que sugerem que ela poderia ter exercido alguma forma de influência, como estar responsável por funções de tesouraria.
Esses achados, juntamente com os itens encontrados em seu jazigo e a localização de seu enterro em uma necrópole real, na cidade sagrada de Abidos, às margens do Nilo, levaram pesquisadores anteriores a especular que ela governou em parceria com um homem chamado Djer, ou que atuou como regente temporária por um período.
Djer foi o terceiro monarca da Primeira Dinastia do Egito, período que se estendeu de 3.100 a.C. a 2.890 a.C., séculos antes da edificação das célebres pirâmides. A relação exata entre Meretneith e ele permanece incerta: é possível que ele fosse seu pai, que ela fosse esposa de seu filho Djet, ou que ela tenha servido como regente de Den, filho de Djet, enquanto este ainda era muito jovem para governar sozinho.
Durante décadas, o papel de Meretneith gerou intenso debate entre especialistas e permaneceu pouco claro. Recentemente, surgiu uma nova perspectiva: é plausível que o túmulo dela, de fato, possuísse um serekh, símbolo usado para identificar faraós, mas que este teria se perdido após as primeiras investigações arqueológicas.
Para compreender melhor esse histórico, é necessário retroceder à década de 1940. Em Sacará, um dos locais arqueológicos mais notórios do Egito, o arqueólogo William B. Emery descobriu 13 peças de argila próximas à abertura de um poço funerário. Segundo ele, esses objetos eram semelhantes a selos postais e apresentavam quatro serekhs.
Emery identificou dois serekhs como pertencentes a Djer e propôs que os outros dois seriam de Meretneith. Para ele, isso constituía a prova de que ela fora uma governante do Egito. Em um artigo divulgado em 1954, ele anexou uma fotografia em preto e branco de um desses selos de argila. No entanto, a baixa qualidade da imagem impediu que a maioria dos pesquisadores aceitasse a teoria de que Meretneith era rainha.
Para agravar a investigação, todos os 13 selos de argila, assim como a placa original da foto, foram perdidos. Atualmente, seu paradeiro é desconhecido. A única evidência remanescente foi a fotografia em preto e branco, que serviu de base para o estudo atual, onde pesquisadores aplicaram diversas técnicas para aprimoramento digital da imagem e revelação de detalhes adicionais. A equipe obteve êxito ao tornar mais nítidos os hieróglifos presentes nos selos.
As imagens revelaram que o segundo serekh contém a representação da deusa Neith, que, na mitologia egípcia, é vista como uma força criadora do universo e deusa da guerra. Este detalhe é significativo porque Neith é um símbolo que nenhum governante do sexo masculino na história utilizou, indicando que aquele serekh provavelmente pertencia a uma mulher — Meretneith. Para os pesquisadores, esta descoberta aponta que Meretneith deteve, em algum momento, uma autoridade real completa no Egito Antigo. A pesquisa foi formalmente publicada na Prague Egyptological Studies.
