O funcionamento dos relógios mundiais está prestes a sofrer alterações significativas após a aprovação da eliminação dos segundos intercalares. Desde a década de 1970, periodicamente, cientistas adicionavam um segundo intercalar aos relógios globais. Este procedimento visava manter os relógios atômicos de alta precisão sincronizados com o ciclo de rotação da Terra.
No entanto, modificar os relógios em escala global pode gerar sérios problemas na infraestrutura digital mundial, resultando em falhas em websites, atrasos em voos e instabilidades de rede, lembrando o temor do bug do milênio ocorrido na transição de 1999 para 2000.
O Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), instituição responsável por estabelecer os padrões internacionais de tempo, peso e distância, tomou a decisão de encerrar o uso dos segundos intercalares após anos de deliberações entre especialistas e cientistas.
A extinção dos segundos intercalares não elimina a divergência entre os relógios e a rotação terrestre, pois ambos continuarão a desalinhar-se. Contudo, a nova proposta dos cientistas é corrigir os relógios somente quando a diferença atingir um intervalo de uma hora, uma correção que, segundo projeções, só será necessária daqui a mais de mil anos.
Esta determinação foi sancionada por representantes de 69 nações durante uma conferência realizada na França, nesta quinta-feira (15), obtendo a maioria dos votos. A medida entrará em vigor a partir de 20 de maio de 2027, data designada como Dia Mundial da Metrologia, embora seja provável que a maior parte da população civil não perceba a mudança.
A maneira como medimos o tempo é fundamentalmente uma criação humana, conhecida como UTC, ou Tempo Universal Coordenado, que funciona como o padrão global de contagem temporal. Este padrão permite a sincronização de relógios em qualquer ponto do globo e a definição dos fusos horários planetários.
Até meados do século XX, o conceito de tempo ou horário era determinado por observações terrestres, como a alternância entre dia e noite. Um dia correspondia naturalmente ao tempo que o planeta levava para completar uma volta sobre seu eixo, processo denominado rotação. Um segundo era uma fração desse período.
Essa metodologia foi superada com a introdução dos relógios atômicos. Em 1955, físicos britânicos Louis Essen e Jack Parry desenvolveram o primeiro relógio atômico de césio de alta precisão. Este avanço revolucionou a medição do tempo, levando ao abandono da definição de segundo baseada na rotação terrestre em 1967. Desde então, um segundo é formalmente definido como equivalente a 9.192.631.770 oscilações do átomo de césio.
O desafio reside no fato de que a Terra não acompanha essa precisão absoluta. O tempo de sua rotação flutua de maneira imprevisível, sendo influenciado por elementos como marés, ventos, correntes oceânicas e o movimento do núcleo líquido do planeta.
Embora essas variações sejam insignificantes para atividades cotidianas, elas se acumulam em aplicações que demandam alta exatidão, podendo alcançar frações de segundo. O UTC foi estabelecido justamente para harmonizar o tempo astronômico com o tempo fornecido pelos relógios. Quando a discrepância aumenta, um segundo adicional, o chamado segundo intercalar, é adicionado.
Apesar de ser uma inovação relativamente recente, os segundos intercalares são vitais, servindo de referência para o registro de horas em computadores, telefones, aeronaves, embarcações, satélites e outros equipamentos, além de sustentar sistemas de navegação como o GPS. Desde 1972, foram incorporados 27 segundos intercalares.
Na metade da década de 2010, notou-se que a rotação da Terra estava começando a acelerar. Cientistas anteciparam a necessidade de um «segundo intercalar negativo», ou seja, a remoção de um segundo do dia. No entanto, os engenheiros expressavam receio de que forçar todos os relógios a retrocederem abruptamente pudesse desencadear um caos na infraestrutura digital.
Um exemplo disso ocorreu em 2012, quando um segundo intercalar foi adicionado, causando problemas em certos sistemas computacionais, visto que seus sistemas operacionais não estavam preparados para lidar com a existência de 61 segundos em um minuto. Servidores, incluindo Reddit e LinkedIn, ficaram travados e pararam de responder, e houve registros de atrasos em voos.
Desde 2022, cientistas, autoridades governamentais, profissionais de telecomunicações e outros especialistas têm trabalhado na busca por uma solução para o dilema do segundo intercalar. Com a decisão de implementar horas intercalares, o UTC deixará de necessitar de ajustes frequentes, passando a operar de forma contínua por pelo menos alguns séculos.
