Uma versão de cunho satírico do controverso filme Dark Horse, intitulada 'Azarão' (em tradução livre), foi recentemente lançada por um coletivo de artistas e estudantes da ECA USP. O filme original, de Cyrus Nowrasteh, foi vazado na imprensa em maio deste ano e aborda a 'disputa de narrativa' referente à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018, apresentando uma fantasia típica da produção hollywoodiana.
Esta versão pirata possui 45 minutos de duração. Nela, o incidente da facada, que quase vitimou o então candidato do PL, é recontextualizado dentro de uma trama de perseguição ligada ao narcotráfico, onde a esquerda é retratada como 'marxista drogada'. A ex-ministra Damares Alves assume o papel de uma figura mística que fornece pílulas milagrosas a Bolsonaro, auxiliando-o a entender sua missão e salvando-o da morte.
A versão produzida pelos estudantes da ECA é descrita como mais fluida, lisérgica e caótica, caracterizando-se como um bom espetáculo bobo. Devido à confusão constante feita por Jair Bolsonaro, os filhos Carlos e Eduardo, juntamente com o candidato a presidente Flávio (cuja vitória nas Eleições 2026 ainda é incerta), são representados em uma forma 'cabeçuda', com os três rostos fundidos em um cérebro gigante, remetendo à cabeça do personagem do filme Frank (2014), estrelado por Michael Fassbender.
Os personagens, desde Jair Bolsonaro até Michelle, são interpretados por diversos atores, todos considerados medíocres, com algumas participações especiais de membros do grupo de pesquisa Depois do Fim da Arte, sob coordenação de Dora Longo Bahia. Um destaque notável é a atuação do segurança da Faculdade de Psicologia, que interpreta uma das versões de Bozo. A senadora atual é representada por uma montagem de aspirador de pó com peruca. Desde os figurinos até a direção de arte, tudo é considerado grosseiro, configurando uma paródia precisa da produção audiovisual contemporânea das redes sociais, particularmente aquela associada ao grupo de extrema direita mencionado.
Alguns atores utilizam o português, enquanto outros usam inglês com dublagens que não correspondem às vozes originais. A inconsistência, seja narrativa ou visual entre as cenas, é outra característica marcante da linguagem cinematográfica. Bolsonaro é interpretado por diferentes atores, e a arma utilizada para orquestrar o golpe (de marketing?) contra o candidato varia entre uma faca de churrasco e uma espada de plástico de kit infantil. Além disso, a tornozeleira eletrônica usada pelo condenado no final, após a tentativa de golpe de Estado em 2023, é substituída por um joystick de videogame. Este nível de absurdo é apresentado como necessário para conferir credibilidade ao roteiro de Cyrus e Mark Nowrasteh, baseado no argumento de Mário Frias.
O filme Dark Horse não foi lançado no Brasil, nem em cinemas nem em plataformas de streaming, devido a suspeitas de desvio de seu financiamento, que totalizava US$ 24 milhões (destes, US$ 12,3 milhões foram efetivamente recebidos pela produtora do projeto) junto ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Enquanto isso, a versão de baixo custo, criada pelos estudantes, ainda não está em exibição em cinemas ou streaming, mas é considerada o 'azarão' que o Brasil merecia.
