Dente de capivara sugere que o Deserto do Atacama teve períodos úmidos no passado
Leia mais
Super Abril
super.abril.com.br

Dente de capivara sugere que o Deserto do Atacama teve períodos úmidos no passado

O Deserto do Atacama, situado no norte do Chile, é reconhecido como uma das regiões mais áridas do planeta, apresentando escassez de rios, lagoas ou qualquer fonte hídrica constante. A presença de animais como a capivara, que são semi-aquáticos e dependem de água para alimentação, reprodução e descanso, seria inesperada neste ambiente seco. No entanto, foram encontrados indícios de que capivaras já habitaram o Atacama.

Em um sítio denominado El Morro, localizado no centro do Atacama, pesquisadores descobriram um dente pertencente a um ancestral próximo das capivaras atuais. Análises subsequentes indicaram que este indivíduo do gênero Cardiatherium viveu há aproximadamente nove milhões de anos e possuía preferência por ambientes aquáticos.

Este achado contradiz diretamente a noção de que o deserto chileno é a área mais antiga e seca do mundo. O fóssil da capivara aponta para um cenário em que, durante o final do Mioceno, especificamente entre cinco e dez milhões de anos atrás, o Atacama constituía um ecossistema úmido.

Estudos anteriores haviam estimado que o clima hiperárido do Atacama teria começado a se desenvolver entre 33,9 e 47,8 milhões de anos atrás, durante o Eoceno médio a tardio, ou seja, vinte milhões de anos antes da formação das Cordilheiras dos Andes. Essa cronologia sugere que as cadeias montanhosas podem não ter sido a causa primária da desertificação, servindo, no máximo, para intensificar esse processo.

É importante notar que, atualmente, a região é limitada pela Cordilheira da Costa a oeste, que impede a umidade vinda do Oceano Pacífico, e pela Cordilheira dos Andes a leste, que bloqueia as chuvas vindas do Atlântico. Essas barreiras geográficas, combinadas com correntes marítimas frias e sistemas atmosféricos de alta pressão, são responsáveis por impedir a ocorrência de precipitações.

Adicionalmente ao dente de capivara, outras duas provas sustentam a ideia de um Atacama mais úmido. Os pesquisadores localizaram o dente em uma camada do solo que continha vestígios de um antigo ambiente marinho raso, que supostamente existiu entre sete e dez milhões de anos atrás.

Junto a isso, foram descobertos fragmentos microscópicos de vegetais, chamados fitólitos. Estes são indicadores da presença de palmeiras, gramíneas, plantas da família do gengibre e outras espécies floríferas. Este tipo de flora sugere, mais uma vez, que o local poderia ter sido uma floresta subtropical.

Apesar da existência de capivaras na América do Sul naquela época, os pesquisadores desconhecem o método exato pelo qual elas alcançaram o Deserto do Atacama. A Cordilheira dos Andes representava uma barreira de 5.500 metros de altitude entre os habitats delas e o local onde o dente foi encontrado. Por essa razão, formulou-se a hipótese de que, em vez de cruzar as montanhas, as capivaras daquele período teriam migrado ao longo da costa oeste da América do Sul, seguindo rios e outras fontes de água em áreas úmidas. O estudo foi divulgado no periódico Scientific Reports. Atualmente, embora as capivaras sejam nativas da América do Sul, elas não são encontradas no Chile.

Popular