Um novo estudo revelou que certas aves brasileiras possuem os cantos mais intensos do planeta, sendo capazes de emitir sons comparáveis aos de uma motosserra ou britadeira.
Essa descoberta surge após uma análise detalhada do volume vocal de mais de cem espécies de pássaros globalmente. Entre as espécies mais ruidosas identificadas, destacam-se a araponga-comum (Procnias nudicollis) e a seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata), ambas com capacidade de cantar em volumes extremamente altos.
O trabalho, publicado no periódico Evolution, concentrou-se na física do som, especificamente na amplitude, que define a força com que uma onda sonora move as partículas do ar. Esta característica determina tanto a distância que o som percorre quanto o volume que é percebido pelo ouvinte.
A pesquisa coletou informações sobre a amplitude dos cantos de 123 espécies, abrangendo locais no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, e diversas regiões do Brasil, incluindo 113 espécies cujos volumes nunca haviam sido analisados anteriormente.
Jeff Podos, ornitólogo da Universidade de Massachusetts Amherst e coautor do estudo, afirmou que o projeto permitiu um aumento significativo no número de espécies com dados de amplitude disponíveis. Ele ressaltou que esta é uma investigação científica fundamental e básica, inédita nesta escala, e que abre caminho para inúmeras outras áreas de interesse.
Este estudo representa um avanço crucial nos estudos de comunicação de aves ao explorar um aspecto antes quase inacessível: a amplitude percebida de uma onda sonora em relação à distância. Embora um som forte distante possa parecer menos intenso do que um sussurro próximo, os equipamentos necessários para medir amplitude e distância simultaneamente não existiam, limitando tais análises a ambientes laboratoriais, o que era impraticável ao lidar com animais selvagens de diferentes partes do globo.
Para superar essa limitação, os pesquisadores desenvolveram dois instrumentos: um telêmetro a laser, similar aos usados em golfe para medir distâncias, e um decibelímetro, utilizado para identificar qual ave estava produzindo cada ruído. As medições foram realizadas inicialmente durante o período de confinamento da pandemia de Covid-19, nas ruas de Amherst, Massachusetts. Posteriormente, os cientistas expandiram suas buscas para a Mata Atlântica e o Cerrado brasileiros, visando uma maior diversidade de espécies.
Ao avaliar as 123 espécies, observou-se grande variação na amplitude. Enquanto o canto do beija-flor atingia cerca de 64 decibéis (equivalente a uma conversa normal), as arapongas e as seriemas emitiam pios em uma faixa de 121 a 122 decibéis, um nível superior ao de uma serra elétrica.
Os dados obtidos forneceram indícios sobre as características anatômicas que tornam certas aves mais sonoras. Especificamente, a largura do bico e as proporções corporais parecem influenciar a intensidade do som. No caso da seriema, por exemplo, seu pescoço alongado auxilia na projeção do canto com maior potência.
Podos concluiu que este tipo de trabalho não pode ser realizado apenas em laboratório ou através de dados online, enfatizando a necessidade de ir a campo, observar atentamente o ambiente e que qualquer atividade de campo que exija maior observação é inerentemente prazerosa, pois remete às origens da prática científica.
