Um novo documentário de quatro horas sobre Elon Musk pretende ir além da imagem pública do bilionário para estudar o homem por trás de uma das empresas tecnológicas mais importantes e da crescente influência política que ele conquistou nos últimos anos.
O filme, dirigido pelo premiado documentarista Alex Gibney, estreou no Festival de Cinema de Veneza e será posteriormente dividido em dois episódios de duas horas para exibição na HBO. A produção levou cerca de três anos e inicialmente visava estudar o homem mais rico do mundo. No entanto, durante as filmagens, a trajetória de Musk assumiu características políticas cada vez mais evidentes, especialmente após sua aproximação com Donald Trump.
Gibney admitiu que inicialmente não planejava fazer um filme sobre Musk; ele pensava que seria apenas mais um documentário sobre um homem poderoso e moralmente ambíguo. Sua perspectiva mudou quando surgiu a oportunidade de apresentar a história como um retrato do poder no século XXI.
Na opinião do diretor, a combinação de poder financeiro, inovação e dados permitiu que este novo tipo de personalidade acumulasse uma influência que antes era prerrogativa exclusiva dos estados nacionais. Após a estreia em Veneza, Musk começou a publicar ataques contra a produção. Gibney observou que o bilionário reagiu de forma mais organizada do que outros personagens em seus trabalhos documentais, utilizando advogados e uma rede de contas automatizadas.
Para Gibney, o confronto com Musk significa confrontar um homem que possui imenso poder financeiro, proximidade com a Casa Branca e influência excepcional no setor espacial. Parte do filme revisita eventos conhecidos da biografia do bilionário, mas oferece uma interpretação diferente de alguns deles.
Um dos episódios abordados é a história do quarto lançamento da SpaceX após três falhas consecutivas. A narrativa tradicional apresenta este voo como um momento decisivo em que Musk poderia falir se o foguete não decolasse. No entanto, o documentário afirma que essa versão é um mito, já que a NASA já havia garantido bilhões de dólares em financiamento independentemente do resultado desse lançamento.
O filme também aborda o relacionamento de Musk com a Tesla e questiona alguns elementos que contribuíram para formar sua imagem de engenheiro visionário. Outro episódio é dedicado ao sistema de assistência ao motorista da Tesla. O documentário mostra imagens de um acidente em que o veículo cruza um cruzamento e atinge um carro estacionado, matando uma mulher que estava ao lado. A produção também questiona como a empresa poderia ter processado os dados relacionados a esse acidente.
A produção também se aprofunda em aspectos menos conhecidos da vida pessoal do bilionário. Justine Musk, primeira esposa de Elon, fala sobre como pessoas do círculo do empresário tratavam as mães de seus filhos e descreviam uma espécie de «linha de montagem» para o nascimento de crianças.
O documentário também apresenta o relato de Ashley St Clair, que teve um filho com Musk. Segundo ela, um representante do bilionário a incentivou a assinar um acordo de confidencialidade em troca de pagamentos de 40 milhões de dólares americanos (aproximadamente 214 milhões de reais brasileiros) para sustentar a criança. Em uma mensagem de voz apresentada no filme, ela foi supostamente avisada de que as coisas não estavam indo bem para as mulheres que decidiam processar Musk.
Um dos argumentos centrais de Musk é que a mudança política do bilionário foi motivada também por interesses pessoais e de negócios. De acordo com o filme, Musk e suas empresas foram alvo de pelo menos 32 investigações conduzidas por 11 órgãos governamentais. Nesse contexto, a aproximação com Trump é apresentada como parte de uma estratégia para proteger seus negócios.
Musk destinou 300 milhões de dólares (aproximadamente 1,6 bilhão de reais) à campanha presidencial de Trump em 2024 e depois ingressou no governo, liderando o Departamento de Eficiência da Gestão Governamental (DOGE). Sua permanência no governo durou apenas alguns meses, mas nesse período, Musk participou de profundos cortes no USAID e na ajuda externa dos Estados Unidos.
Para Gibney, esses relacionamentos formaram uma espécie de simbiose: Musk tinha dinheiro para ajudar a manter o poder de Trump, e Trump tinha poder para proteger os interesses financeiros de Musk.
Investigação das justificativas dos projetos
O documentário também explora a justificativa que Musk frequentemente apresenta para seus projetos. O bilionário declara repetidamente que suas ações visam expandir a presença da humanidade para além da Terra e preservar o chamado «luz da consciência» mesmo diante da possível destruição do planeta. Gibney questiona o quão sincera ou conveniente é essa concepção.
O diretor compara Musk com o magnata do aço Andrew Carnegie, que morreu em 1919. Na opinião de Gibney, ambos compartilham a convicção de que estão em uma posição excepcional para salvar a civilização. Este plano, afirma o cineasta, também serve de justificativa para o acúmulo de riqueza e poder: se alguém acredita que está trabalhando por um objetivo superior, seus próprios interesses podem ser apresentados como parte de uma missão maior.
O documentário não ignora as realizações de Musk. Gibney reconhece que as empresas ligadas ao bilionário criaram tecnologias importantes, citando os satélites Starlink, os foguetes SpaceX e os próprios carros Tesla. O problema, em sua opinião, reside na lacuna entre essas conquistas e algumas promessas feitas por Musk. Exemplos são a promessa de carros totalmente autônomos, a ideia de criar uma população humana em Marte em uma década, robôs para todas as casas e até centros de dados localizados no espaço.
Para Gibney, é essa combinação de realizações concretas e promessas que ajuda a explicar o poder financeiro de Musk. «É uma mentira que lhe permite ganhar dinheiro», conclui o diretor, resumindo sua interpretação de que Musk desenvolveu um talento excepcional para convencer o mercado a financiar projetos baseados em promessas que nem sempre se concretizam.
A imagem apresentada pelo documentário também mostra Musk como um indivíduo cada vez mais agressivo. O bilionário passou de discursos sobre a preservação da humanidade para manifestações cada vez mais focadas na defesa da civilização europeia e americana contra uma suposta «invasão». O filme também destaca o apoio de Musk ao partido ultradireitista alemão AfD e sua participação em eventos relacionados ao ativista britânico Tommy Robinson. Enquanto isso, Musk gasta horas atacando adversários reais e imaginários — e, mais recentemente, Gibney mesmo, relata o The New World Substack.
Após três anos tentando entender o bilionário, o diretor chegou a uma conclusão bastante dura. Um investidor do Vale do Silício, entrevistado confidencialmente, descreveu Musk como «o homem mais infeliz que eu conheci». Para Gibney, a combinação de riqueza e poder aparentemente não trouxe felicidade. Pelo contrário, o documentário termina com a suposição de que por trás da imagem do bilionário capaz de transformar setores inteiros da economia, esconde-se um homem profundamente infeliz.
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