O setor de financiamento de veículos alcançou seu melhor desempenho em agosto nos últimos quinze anos no Brasil, apesar dos juros elevados e da renda comprometida dos consumidores. Contudo, simultaneamente, a taxa de inadimplência em financiamentos de pessoas físicas atingiu o patamar mais alto registrado desde 2012.
Em agosto, foram financiadas 683.928 unidades, representando um aumento de 10,4% em comparação com o mesmo mês de 2025. Este volume é o maior para o período desde 2011, quando 729.672 veículos receberam aprovação de crédito, conforme dados fornecidos pela Trillia, unidade de dados da B3.
Considerando o acumulado do ano até agosto, o total de veículos novos e usados financiados somou 5,136 milhões, o que configura um crescimento de 10% em relação ao mesmo período de 2025.
Em termos monetários, os bancos disponibilizaram R$ 173 bilhões para a aquisição de veículos entre janeiro e julho, de acordo com informações do Banco Central. Esse valor ultrapassa os aproximadamente R$ 150 bilhões registrados no mesmo intervalo de 2024 e de 2025.
Em julho, foi constatado que 6,63% dos financiamentos concedidos a pessoas físicas apresentavam atraso superior a 90 dias, marcando o índice mais alto desde 2012. No segmento empresarial, esse percentual subiu para 5,62%, sendo o maior desde 2016.
Este panorama já influencia diretamente a liberação de crédito. Cassio Pagliarini, sócio da consultoria Bright, observou que as instituições financeiras estão adotando critérios mais rigorosos na concessão de empréstimos para prevenir um novo aumento acentuado da inadimplência.
O cenário atual difere significativamente do de 2012, época em que a diminuição do IPI e a redução da Selic para 7,25% ao ano estimularam as vendas e simplificaram o acesso ao crédito, fazendo com que a inadimplência caísse de 6% naquele ano.
Adicionalmente, houve um aumento considerável no preço dos automóveis. Em 2012, o Volkswagen Gol custava a partir de R$ 27.990, valor que, corrigido pelo IPCA, equivale a R$ 57,5 mil atualmente. Hoje, nenhum dos modelos mais vendidos começa abaixo de R$ 90 mil; especificamente, o Volkswagen Polo, que lidera entre os carros de passeio, tem preço inicial a partir de R$ 96.690.
No Santander, que lidera o financiamento de veículos, os índices de atraso mantêm-se estáveis após o banco apertar suas análises de crédito. A exigência de entrada varia conforme o perfil do cliente: ela pode ser isenta para pagadores com bom histórico ou chegar a 20% ou 30% do valor do veículo para perfis considerados de maior risco.
O Santander também aponta que a ascensão de veículos elétricos e híbridos chineses, devido aos custos menores de manutenção e abastecimento, auxilia na diminuição do impacto das parcelas no orçamento familiar.
Por sua vez, no C6 Bank, a entrada média solicitada é de 40% do valor do veículo. Ricardo Bonzo, diretor de veículos do banco, informou que a inadimplência não está restrita a uma única faixa social, afetando clientes das classes A até D.
O programa Move Brasil também contribuiu para elevar a demanda por veículos, embora com uma taxa de aprovação relativamente baixa. Lançado em junho, este programa oferece condições especiais de crédito para profissionais como entregadores, taxistas, motoristas de aplicativo e transportadores escolares, permitindo a compra de carros novos e seminovos.
Conforme dados do BNDES, o programa já gerou um movimento de R$ 5,3 bilhões em vendas, comercializando 51 mil automóveis. A aprovação final desses veículos depende da avaliação de crédito realizada pelos bancos parceiros, pois são eles que assumem o risco inerente à operação.
