Maria Silvino Alves dos Santos Borges, conhecida como Maria Sil, tornou-se alvo de uma série de ataques transfóbicos nas redes sociais depois de publicar um vídeo pedindo oportunidades de trabalho. Ela expressou sua tristeza com a violência vista na internet, afirmando: «Me ridicularizam, debocham da minha dor e do meu corpo, é muito violento».
Alguns usuários reagiram negativamente, com comentários como: «Ninguém mandou virar trans» ou «Quem vai querer contratar uma bomba relógio?». Outro comentário sugeriu que «Ninguém vai contratar um homem com problemas mentais que se veste de mulher». Maria Sil compartilhou com o g1 que gravou o vídeo como parte de seu esforço pela empregabilidade trans, e embora tenha recebido apoio positivo, ainda sente grande dor com cada mensagem de ódio, descrevendo a situação como a mistura de «dois mundos ali» onde a violência frequentemente supera o afago.
Empregabilidade trans
Possuindo formação técnica em Artes Dramáticas, Maria Sil já teve atuação como atriz, cantora e produtora cultural, sendo responsável por vários projetos na Baixada Santista. Em 2024, ela lançou um álbum com composições próprias. Contudo, as chances de conseguir trabalho têm diminuído progressivamente. No ano anterior, ela se mudou para a capital paulista e começou a se frustrar com a escassez de vagas.
Em dois anos, apesar de ter enviado mais de 500 currículos, Maria Sil foi convidada para apenas três entrevistas. Mesmo nas raras oportunidades obtidas, ela enfrentou experiências negativas, relatando que «Em uma das últimas empresas que trabalhei, o meu time errava constantemente meu gênero», e enfatizando a necessidade de as companhias implementarem políticas de permanência.
Devido à instabilidade financeira, ela precisou suspender seus estudos em Produção Cultural, o que limita ainda mais suas opções, visto que muitas vagas exigem ensino superior. Ela mencionou que seria ótimo conseguir uma bolsa para retomar os estudos, pois sua graduação está paralisada, mesmo com mensalidades baixas. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), somente 25% da população trans possui vínculo empregatício formal, um dado que, para Maria Sil, reforça a urgência do debate sobre o tema. A artista argumentou que «não é sobre a Maria. Existe uma estrutura maior que fortalece o desemprego».
Diversidade
Rafael Guilherme de Almeida, presidente da Comissão de Diversidade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santos, esclareceu que as ofensas direcionadas a Maria Sil constituem crimes, mesmo quando ocorrem no ambiente virtual. Ele salientou que o fato de a ofensa estar na internet não a isenta de punição, afirmando que, embora ainda haja distância do ideal, hoje é mais fácil identificar crimes online.
Almeida informou que os autores podem ser localizados, mesmo utilizando perfis falsos, mediante solicitação judicial às plataformas. Ele explicou que, desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) considera homofobia e transfobia enquadradas na Lei do Racismo (Lei 7.716/89), aguardando uma legislação específica do Congresso. O advogado acrescentou que tais crimes são inafiançáveis e imprescritíveis, e a vítima tem direito a pleitear indenização por danos morais na esfera cível.
Adicionalmente, ele alertou que recusar a contratação de alguém por ser trans também configura discriminação. Caso existam evidências de que a recusa ocorreu por esse motivo (como mensagens ou comentários durante entrevistas, ou a reabertura imediata da vaga), é possível buscar a responsabilização da empresa.

