Em São Roque, na região de Sorocaba, no estado de São Paulo, toneladas de resíduos gerados pela Casa da Moeda são reutilizadas como matéria-prima para fabricar móveis e outros itens que equipam uma escola pública. Esta iniciativa faz parte de um projeto desenvolvido pelo Instituto Transforma em colaboração com a Casa da Moeda do Brasil, integrando os temas de sustentabilidade, tecnologia e educação na Escola do Futuro.
Muitos dos objetos, como carteiras, mesas e armários, parecem ser feitos de materiais comuns, mas contêm uma matéria-prima incomum: cédulas de dinheiro que nunca entraram em circulação. Esses papéis, que seriam destinados ao descarte, são transformados em mobiliário. Durante o processo de confecção das cédulas, erros de impressão, falhas no corte ou problemas de coloração podem impedir que o dinheiro seja liberado para a circulação.
Patrício Mariano Malvezzi, CEO do Instituto Transforma, explicou que o papel-moeda possui características distintas do papel tradicional. Ele afirmou que o papel-moeda não é papel comum, mas sim um papel de segurança composto por fibra de celulose de algodão, juntamente com outros componentes, o que lhe confere resistência. Segundo o projeto, anualmente há um descarte de aproximadamente 200 toneladas desse papel-moeda.
Na fábrica, os pedaços das cédulas são misturados a uma resina e submetidos a processos de calor e pressão. O resultado é um material rígido e durável, apto a ser usado na produção de diversas peças. Este método exemplifica a economia circular, pois um material que seria considerado lixo retorna ao ciclo produtivo, em vez de ser produzido, usado e descartado.
A Escola do Futuro atende mais de mil alunos
A Escola do Futuro, localizada em São Roque, iniciou o recebimento de estudantes neste semestre, contando com mais de mil alunos matriculados do 1º ao 9º ano, distribuídos em 37 turmas. Um total de 29 salas de aula foram equipadas com móveis produzidos, entre outros materiais, utilizando o papel-moeda reciclado. Dentre os itens, destaca-se uma mesa de tênis de mesa, considerada a primeira do mundo fabricada com este material reciclado.
Ezequiel Silva, diretor da escola, mencionou que o propósito é fazer com que os estudantes compreendam a possibilidade de reaproveitar diferentes tipos de materiais. Ele enfatizou a importância de cultivar no alumnado a percepção sobre o reuso de materiais, como madeira e cédulas, promovendo um cuidado com a educação e a sustentabilidade que se estende além do ambiente escolar.
Neste único ano, 50 toneladas de resíduos de papel-moeda foram empregadas no projeto. Há planos para desenvolver outras duas unidades com a mesma proposta em São Roque. Além disso, a iniciativa inclui ações de plantio de espécies nativas e parcerias focadas no estudo e na conservação de animais silvestres da região.
A ideia de converter materiais descartados em conhecimento também foi implementada em Adolfo, na região de São José do Rio Preto, em São Paulo. Em outra cidade, uma escola criou uma moeda própria para estimular a reciclagem e a leitura. Os alunos trocam materiais recicláveis por uma moeda chamada «dinheiro verde» na entrada da instituição, sendo que cada quilo de recicláveis equivale a uma nota verde.
Creuza Gandini do Amaral, coordenadora da escola, relatou que a iniciativa nasceu de uma ideia conjunta entre a comunidade escolar e as famílias e ganhou grande adesão. Ela comentou que é muito positivo para a conscientização das crianças perceberem que podem reaproveitar itens como garrafas e tampinhas.
Recicláveis são transformados em livros e materiais didáticos
O «dinheiro verde» pode ser utilizado pelos estudantes durante a feira do livro organizada pela escola. Após realizarem suas compras, os alunos têm o valor repassado aos expositores, sendo que o montante utilizado na feira provém da venda dos materiais recicláveis coletados pelos estudantes. No ano anterior, os alunos gastaram quase R$ 5 mil em livros e outros artigos durante o evento. Luís Otávio foi o aluno que mais acumulou dinheiro verde, somando mais de mil notas, e seu pai, Gustavo Clemente, relatou que ele aprendeu cedo, separando materiais recicláveis mesmo durante festividades juninas.
Mais de 100 quilos de recicláveis por mês
O projeto também envolve as famílias dos alunos, resultando na arrecadação mensal de mais de 100 quilos de materiais recicláveis, que deixam de ser descartados incorretamente e retornam à cadeia de aproveitamento. Fernanda Cruz dos Santos, diretora da escola, visa que o aprendizado transcenda os limites da unidade escolar. Ela expressou o desejo de demonstrar aos alunos a relevância de zelar pelo local onde vivem, reforçando que o apoio dos pais contribui para a consciência que os estudantes levarão para a vida.
