Expedição no Atlântico Sul descobre 31 novas espécies, desde águas-vivas a vermes-fio-de-seda
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Expedição no Atlântico Sul descobre 31 novas espécies, desde águas-vivas a vermes-fio-de-seda

Durante uma expedição científica realizada no Atlântico Sul, pesquisadores identificaram 31 espécies consideradas inéditas para a ciência em águas internacionais localizadas ao largo do Brasil. As descobertas abrangeram desde águas-vivas até organismos como o verme-fio-de-seda.

A missão, denominada Designing the Future 3, ocorreu entre os dias 15 e 30 de abril de 2026, a bordo do navio Falkor. A expedição foi liderada pela zoóloga Karen Osborn, vinculada ao Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, nos Estados Unidos.

Karen Osborn comentou em um comunicado emitido pelo Schmidt Ocean Institute que a zona de meia-água, considerada o maior habitat do planeta, está repleta de seres vivos notáveis que ainda estão sendo compreendidos pela ciência.

A região estudada, conhecida como meia-água, corresponde à vasta área da coluna oceânica situada entre as águas superficiais iluminadas pelo sol e o leito marinho. Apesar de sua imensa dimensão e relevância ecológica, apenas uma pequena parcela deste ecossistema foi investigada. O Smithsonian informa que a meia-água abrange aproximadamente um bilhão de quilômetros cúbicos e desempenha funções cruciais, como o ciclo global do carbono.

Catálogo de criaturas pouco conhecidas

Entre as 31 novas espécies catalogadas, constam nove tipos de águas-vivas, sete sifonóforos, sete ctenóforos, quatro larváceos, dois rizários gigantes, um anfípode e um verme pertencente ao gênero Tomopteris.

Os sifonóforos, parentes de corais e águas-vivas, apresentam uma peculiaridade: cada unidade visível constitui, na realidade, uma colônia composta por partes especializadas que atuam em conjunto. Um dos destaques foi uma nova espécie do gênero Tomopteris, popularmente referida como verme-de-seda (gossamer worms).

Os ctenóforos se deslocam utilizando fileiras de cílios que criam um efeito cintilante ao interagir com a luz, enquanto os larváceos possuem uma aparência semelhante à de girinos e habitam estruturas mucosas usadas, entre outras finalidades, para filtrar partículas aquáticas. Além disso, foram encontrados rizários gigantes, organismos unicelulares que podem ser observados sem auxílio de instrumentos.

Um dos elementos centrais da expedição foi um novo exemplar de Tomopteris, ou verme-fio-de-seda. O Schmidt Ocean Institute classificou este animal como uma nova espécie do gênero, ressaltando que seu movimento era mais rápido do que o esperado dada a morfologia do corpo.

A capacidade de natação desses animais já havia chamado a atenção da comunidade científica. Um especialista em águas-vivas, Dr. Dhugal Lindsay (JAMSTEC), mencionou o escaneamento de uma nova espécie de sifonóforo.

Um estudo anterior, publicado em 2021 na revista Integrative and Comparative Biology e que contou com a participação de Karen Osborn, demonstrou que os Tomopteris utilizam dois métodos de propulsão: ondulações corporais e movimentos coordenados de apêndices denominados parapódios. Os pesquisadores observaram que esses apêndices geram impulso ativamente, e o movimento ondulatório do corpo auxilia nesse processo de propulsão.

Esses Tomopteris vivem inteiramente na coluna d'água e possuem um corpo extremamente frágil, composto majoritariamente por fluido, envolto por uma fina camada corporal de gel e músculos. A maneira como nadam não só contribui para a compreensão de sua sobrevivência no oceano, mas também interessa a cientistas de outras áreas. Os pesquisadores registraram no estudo que os tomopterídeos representam um caso singular de combinação de diversos mecanismos de propulsão, sugerindo que sua biomecânica pode ter aplicações em campos como robótica e engenharia de materiais flexíveis.

Como determinar se uma espécie é nova?

Para classificar um organismo encontrado nas profundezas como uma espécie desconhecida, não basta apenas sua aparência incomum; é necessário realizar comparações morfológicas e, sempre que possível, analisar dados genéticos com organismos já documentados.

Este procedimento é particularmente desafiador para animais gelatinosos, visto que muitos possuem corpos transparentes e muito frágeis, podendo sofrer deformações ou danos durante a coleta e conservação.

Um estudo de 2024, veiculado na revista Science Advances, ilustrou como novas tecnologias auxiliam a superar parte dessa dificuldade. Este trabalho integrou imagem tridimensional, robótica, preservação de tecidos e sequenciamento genético para coletar informações sobre seres vivos em seu ambiente natural.

Entre as ferramentas empregadas estavam o DeepPIV, que usa laser para gerar dados tridimensionais, e o EyeRIS, um sistema de imagem capaz de capturar detalhes morfológicos dos animais. Esses equipamentos foram instalados no ROV SuBastian, veículo submersível operado remotamente pelo Schmidt Ocean Institute.

No estudo de 2024, os cientistas obtiveram dados de tamanho de 61 animais com o EyeRIS e escanearam 49 indivíduos com o DeepPIV, incluindo sifonóforos e um Tomopteris. Na expedição de 2026, esse aparato tecnológico foi expandido. Os cientistas usaram sistemas avançados de imagem para observar os animais e montaram um laboratório de genética a bordo do Falkor, permitindo a comparação de características e sequências genéticas durante a viagem. Segundo as instituições envolvidas, a união entre tecnologia e conhecimento taxonômico possibilitou a confirmação das 31 espécies como novas em poucos dias, um processo que normalmente demanda anos.

Um mundo quase invisível

As novas espécies não foram as únicas surpresas registradas. Os pesquisadores também documentaram uma lula-de-vidro jovem e um polvo pelágico (Haliphron atlanticus) consumindo uma água-viva de tonalidade vermelho-intensa. A equipe constatou uma diversidade e abundância de organismos de meia-água superiores às expectativas.

A expedição também contou com a participação brasileira. Silvina Botta, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), estava entre os pesquisadores a bordo, trabalhando com amostras destinadas à análise de isótopos estáveis para estudar o movimento do carbono no oceano.

As descobertas contribuem para revelar a biodiversidade de um ambiente vasto que permanece em grande parte desconhecido. O Smithsonian enfatiza que as comunidades da meia-água desempenham um papel significativo em processos biogeoquímicos globais, como a retenção e liberação de carbono. Apesar de encontrar dezenas de espécies em apenas duas semanas, Karen Osborn declarou que a expedição gerou, acima de tudo, novas questões.

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