Ao questionar mais de vinte economistas de diversas correntes de pensamento sobre o principal desafio econômico do futuro governo, o g1 identificou o equilíbrio das contas públicas como o tema de maior relevância.
A preocupação com a saúde fiscal é um consenso entre os especialistas. Este problema se manifesta inicialmente no resultado primário — a diferença entre receitas e despesas governamentais — e culmina no aumento da dívida pública.
Atualmente, a dívida bruta do Brasil atingiu seu maior registro desde abril de 2021, período da pandemia de Covid-19. Em agosto deste ano, o endividamento do setor público, que engloba governo federal, Previdência, estados e municípios, alcançou R$ 11,05 trilhões.
Este indicador está em ascensão e corresponde a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o que significa que a dívida equivale a aproximadamente dez meses da produção total da economia brasileira.
Nesse contexto, um ajuste sólido nas contas públicas é visto como a base de qualquer plano para revitalizar a economia nacional. A expectativa é que uma trajetória de dívida mais estável possa diminuir a pressão sobre juros e inflação, criando um ambiente propício para maior consumo, investimento e crescimento.
A lógica do risco atual é clara: quando o governo gasta persistentemente mais do que arrecada, ele precisa contrair mais dívidas. Quanto maior a dívida e maior a incerteza sobre sua sustentabilidade, maior a desconfiança dos investidores. Consequentemente, o governo precisa pagar juros mais altos para se financiar, o que pode elevar a inflação e manter a taxa básica de juros, a Selic, em patamares elevados, encarecendo o crédito para empresas e famílias, resultando em um crescimento mais lento.
Visão de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda
Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, enfatiza que o presidente eleito deve apresentar rapidamente medidas concretas de ajuste, seja definindo os focos de ataque ou detalhando as ações planejadas. Ele adverte que a ausência dessas medidas até o início do mandato pode causar um colapso de expectativas e uma deterioração macroeconômica, manifestada pelo aumento do dólar, subida dos juros futuros e restrição de crédito bancário.
Entre os desafios apontados estão: aumentar a produtividade através de mão de obra mais qualificada e empresas mais eficientes; reduzir o peso do endividamento familiar e empresarial em um cenário de juros altos; implementar reformas e melhorar o ambiente de negócios, como a reforma tributária; adaptar a economia brasileira às tensões geopolíticas, mantendo laços estratégicos com Estados Unidos e China; e criar condições para atrair investimentos em infraestrutura sem prejudicar o ajuste fiscal.
Adriana Dupita, economista de mercados emergentes da Bloomberg Economics, aponta que, diferentemente de outros períodos, não existem soluções óbvias, pois um corte drástico de despesas não funcionaria. Ela explica que despesas obrigatórias representam mais de 90% dos gastos totais, metade dos quais está ligada ao salário mínimo. Construir apoio social, legislativo e judicial para reformas que reduzam esses custos será difícil, dada a desigualdade do país. Além disso, ela menciona que o endividamento, os riscos climáticos, o envelhecimento populacional e a necessidade de planejar o impacto da inteligência artificial exigirão novas ideias e mais recursos públicos.
Perspectivas de Alex Agostini, economista-chefe Austin Rating
Para Alex Agostini, o desafio primordial do próximo presidente será estabilizar as contas públicas até 2030, retomar os superávits governamentais e diminuir a proporção da dívida pública em relação ao PIB. Ele também destaca a importância de manter uma relação diplomática e externa bem equilibrada, especialmente após disputas recentes entre Brasil e Estados Unidos. Agostini ressalta que este desafio se aplica a qualquer candidato, independentemente da afinidade política.
Ele observa que os EUA possuem interesses em minerais críticos e terras raras, mas que tais questões dependem do Congresso. Ademais, ele levanta a questão de como serão as relações externas com a China, principal parceiro comercial do Brasil. Por fim, Agostini alerta que outro grande obstáculo será impedir que a economia perca força e entre em recessão, agravando o endividamento das famílias.
Análise de Alexandre Pires, professor do Ibmec SP
Alexandre Pires avalia que, embora a questão fiscal persista em diferentes administrações, as contas públicas chegarão a 2026 em uma condição que demandará um esforço fiscal inédito. Ele lembra que o alto endividamento público pressiona a taxa Selic, forçando o Banco Central a adotar uma postura mais restritiva para controlar a inflação.
Segundo Pires, o crescimento brasileiro deixará de depender do aumento da população economicamente ativa e passará a depender de investimentos. Contudo, juros elevados tornam o investimento em capital e produtividade pouco atrativo, o que tem levado o Brasil a registrar uma desaceleração gradual do crescimento, ficando abaixo da média mundial nos últimos anos.
Opinião de Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central
Alexandre Schwartsman considera que os desafios são numerosos, mas coloca as contas públicas como o tema mais urgente. Para ele, é necessário implementar um conjunto de medidas que consiga desacelerar o aumento dos gastos públicos nos próximos anos. Isso permitiria que o governo federal voltasse a registrar resultados primários positivos, revertendo assim a tendência de crescimento da dívida pública.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, complementa que, além de organizar as finanças, o país precisa progredir em reformas já iniciadas, como a tributária. Ele defende que a simplificação deve caminhar para tornar o sistema tributário mais progressivo, oferecendo suporte a famílias de baixa renda, empresários com menos recursos e, principalmente, pequenas e médias empresas.
Galhardo também defende um processo amplo de desburocratização para aprimorar o ambiente de negócios, aliado a um ajuste fiscal gradual. Ele argumenta que qualquer choque abrupto poderia provocar uma recessão, repetindo dificuldades vistas entre 2015 e 2019, sendo mais prudente melhorar o ambiente do que buscar o controle das contas a qualquer custo.
André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, nota que a situação atual é positiva, dado que o desemprego permanece baixo apesar dos juros altos. Ele explica que a queda do desemprego eleva os salários, aumentando a demanda, mas também elevando o custo de produção das empresas. Esse cenário gera um dilema: as empresas devem investir para suprir a demanda ou investir em produtividade para cortar custos. No entanto, com juros altos, ambas as opções são dificultadas, e a perspectiva de juros elevados reduz lucros. O grande desafio, segundo Perfeito, é reduzir as taxas de juros enquanto o mercado de trabalho permanece forte, um fenômeno ligado à mudança no mercado de trabalho, onde pessoas podem facilmente se tornar motoristas ou entregadores via aplicativos.
André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI e professor licenciado da UnB, aponta que o principal desafio é gerenciar o alto endividamento de famílias e empresas sem comprometer o crescimento econômico. Ele reconhece a resiliência econômica recente do Brasil, mas observa que essa resiliência veio acompanhada de expansão do crédito e aumento do endividamento em setores de alto custo. Na sua análise, o crescimento futuro tenderá a depender menos do crédito e mais dos ganhos de produtividade, investimentos e reformas estruturais.

