O conflito ocorrido no Irã gerou uma alteração imprevista nas estimativas globais de emissões de dióxido de carbono (CO₂) previstas para 2026. Inicialmente, as projeções indicavam um crescimento, mas as revisões da Agência Internacional de Energia (IEA) passaram a sinalizar uma leve redução nas emissões ligadas ao uso de petróleo, gás e carvão.
De acordo com uma análise do Carbon Brief, um portal britânico focado em mudanças climáticas, a diminuição projetada é de aproximadamente 0,5% em comparação com 2025. Em termos absolutos, isso equivale a cerca de 190 milhões de toneladas de CO₂ a menos. Este número é considerado significativo, visto que quedas nas emissões globais de combustíveis fósseis são eventos incomuns.
Contudo, é necessário manter a cautela, pois essa retração representa apenas uma pequena parcela das quase 40 bilhões de toneladas de CO₂ liberadas anualmente pela queima desses combustíveis. Além disso, a estimativa é uma projeção geral para 2026 e pode sofrer modificações dependendo da duração do conflito, dos preços da energia e da capacidade de reposição dos combustíveis nos meses seguintes.
Análise dos Dados Atuais
Os dados revelam que as emissões fósseis podem encerrar 2026 cerca de 0,5% abaixo do patamar de 2025. O petróleo é o principal fator dessa mudança, com a previsão da IEA migrando de crescimento da demanda no início do ano para uma redução estimada de 2,5 milhões de barris por dia em setembro. O gás também viu suas projeções diminuírem devido a restrições de oferta e elevação dos preços.
Em contraste, o consumo global de carvão deve aumentar, atingindo um novo recorde neste ano. É crucial notar que uma redução anual nas emissões não implica necessariamente uma diminuição do CO₂ na atmosfera, pois o mundo continuará emitindo dezenas de bilhões de toneladas, elevando a concentração do gás.
Os dados da IEA, verificados pelo g1, ilustram a evolução da projeção ao longo do ano. Inicialmente, em janeiro, a projeção apontava para 281 milhões de toneladas acima das emissões de 2025. A revisão da demanda por petróleo reverteu esse cenário para 260 milhões de toneladas abaixo. Posteriormente, a nova previsão para o gás aprofundou a queda para 454 milhões de toneladas abaixo de 2025. O crescimento projetado do carvão mitigou parte dessa redução, resultando na estimativa mais recente de um saldo de cerca de 191 milhões de toneladas de CO₂ a menos que em 2025. A variação total entre a expectativa de janeiro e a projeção atual soma aproximadamente 472 milhões de toneladas de CO₂.
Essa diferença de 472 milhões de toneladas refere-se à mudança na previsão do ano desde janeiro, e não significa que essa quantidade deixou de ser emitida. Parte dessa alteração decorre de previsões feitas antes do conflito que não se concretizaram, e não apenas de uma redução absoluta de consumo já registrada.
Baixa Redução, Tendência de Alta
Desde a Revolução Industrial, as emissões de CO₂ provenientes da indústria e de combustíveis fósseis têm apresentado um crescimento constante, passando de aproximadamente 22,5 bilhões de toneladas em 1992 para 38,6 bilhões em 2024. Houve poucas quedas significativas nesse período; após a crise financeira internacional, houve uma queda em 2009, mas o crescimento retomou rapidamente no ano subsequente. A pandemia de Covid-19 em 2020 causou uma redução substancial, seguida por uma recuperação.
Por conta desse histórico, especialistas argumentam que qualquer queda prevista para 2026 não permite concluir, neste momento, que as emissões globais iniciaram uma trajetória permanente de declínio. Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, alerta contra a confusão entre uma flutuação conjuntural no mercado de energia e uma transformação estrutural do sistema energético.
Segundo Angelo, o ponto mais relevante da crise pode se manifestar menos no resultado de um único ano e mais nas decisões tomadas por governos, empresas e consumidores frente aos custos elevados e às dificuldades de suprimento. Ele enfatiza a necessidade de observar o que o conflito está fazendo com os mercados energéticos mundiais, em vez de apenas focar na tonelagem de carbono reduzida localmente.
O impacto do conflito afetou primariamente o petróleo e o gás. Com interrupções no fornecimento e aumento dos preços, a previsão da IEA sobre a demanda mundial de petróleo foi progressivamente reduzida ao longo de 2026. Assim, a guerra não resultou em uma diminuição homogênea de todos os combustíveis fósseis, mas sim em uma alteração na sua composição.
Angelo sugere que os preços persistentemente altos de petróleo e gás podem acelerar tendências já existentes, como o investimento em fontes renováveis e eletrificação. No entanto, ele ressalta que é prematuro determinar se tais mudanças serão duradouras. Existem sinais em ambas as direções: a busca por tecnologias limpas avança em grandes mercados, ao passo que países aumentam o uso de carvão e produtores de petróleo e gás mantêm planos de expansão.
A própria IEA prevê uma recuperação da demanda por petróleo em 2027, o que indica que parte da redução vista neste ano pode desaparecer quando as condições de oferta melhorarem.
O histórico reforça a necessidade de cautela. Durante a pandemia, as emissões fósseis caíram cerca de 5% em 2020, um recuo superior ao projetado atualmente. No ano seguinte, elas voltaram a crescer. Há também uma distinção fundamental entre emitir menos e reduzir o CO₂ na atmosfera. Mesmo que a queda de 0,5% se confirme, o planeta continuará adicionando bilhões de toneladas de CO₂ à atmosfera, pois o gás persiste por longos períodos, apenas diminuindo ligeiramente a velocidade desse acúmulo.
Medições recentes demonstram essa disparidade: a concentração média global de CO₂ atingiu 423,9 partes por milhão em 2024, conforme a Organização Meteorológica Mundial (OMM), superando em cerca de 52% o nível pré-industrial. Em 2026, as leituras em Mauna Loa, Havaí, uma estação chave de monitoramento, devem novamente ultrapassar 430 partes por milhão durante o pico anual.
