A urna eletrônica, hoje um símbolo fundamental da democracia brasileira, teve sua concepção originada de uma conversa casual durante uma partida de tênis. Essa discussão deu origem a um equipamento que acabou por revolucionar o processo eleitoral no Brasil.
Carlos Velloso, ministro, chegou a denominar o aparelho de 'tupiniquim', termo que significa algo essencialmente brasileiro. Ele explicou que a busca por soluções internacionais não havia apresentado alternativas adequadas às especificidades do cenário brasileiro.
A jornada para desenvolver este equipamento começou quando Paulo Camarão foi designado secretário de Informática do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e assumiu a liderança das equipes responsáveis. Este grupo era composto por engenheiros e pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Técnico Aeroespacial (CTA).
Os técnicos envolvidos no desenvolvimento foram apelidados de 'os ninjas', e eram Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Antônio Ésio Salgado, Oswaldo Catsumi e Giuseppe Janino, todos sob a coordenação de Paulo Camarão.
Requisitos definidores do equipamento
Durante as reuniões, foram estabelecidos critérios rigorosos que a urna deveria cumprir. Um dos pontos iniciais de resistência política foi a exigência de um teclado numérico, pois a marca do candidato frequentemente era seu nome, o que dificultava a fixação do voto apenas pelo número. No entanto, após negociações contínuas com o Congresso, esse requisito foi aprovado.
Outra característica crucial era que o eleitor precisaria visualizar sua escolha na tela da urna antes de confirmar o voto. No total, foram definidos 22 requisitos técnicos que nortearam todo o desenvolvimento do sistema.
Entre esses requisitos estavam a capacidade de operar sem dependência de internet ou outras redes, possuir bateria própria para não depender da rede elétrica, ser robusta e fácil de transportar para locais remotos, como aldeias indígenas, e, acima de tudo, ser intuitiva de usar.
Sucesso nacional e impacto democrático
De acordo com o TSE, o resultado foi extremamente positivo. A urna eletrônica conseguiu integrar tela, teclado e CPU em uma única unidade. Seu teclado, similar ao de um telefone, permitiu que pessoas com deficiência visual ou analfabetas interagissem com o novo dispositivo sem dificuldades.
Em 1996, o sistema já estava apto a registrar e somar os votos de mais de 32 milhões de cidadãos, o que representava um terço do eleitorado da época, com a produção de mais de 70 mil unidades.
O TSE ressalta que a implementação da urna eletrônica foi a solução brasileira bem-sucedida para substituir as cédulas de papel, que haviam sido historicamente suscetíveis a fraudes. O equipamento fortaleceu a percepção social de que uma democracia representativa se sustenta pela vontade soberana do povo, garantida por eleições transparentes e livres de suspeitas.
Trinta anos de evolução
A urna eletrônica celebrou 30 anos em maio deste ano. Em 13 de maio de 1996, o TSE enviou as primeiras urnas para o voto informatizado aos estados, marcando um momento significativo para a democracia.
Paulo Camarão afirma que o projeto permanece relevante após três décadas, sendo constantemente aprimorado a cada eleição e resistindo a críticas e tentativas de desestabilização.
O TSE detalha os principais avanços tecnológicos ocorridos nesses trinta anos:
- Segurança: Implementação de uma arquitetura de segurança inédita globalmente, que restringe o funcionamento apenas a sistemas autênticos dentro da urna, complementada pelo uso de criptografias avançadas e lacres físicos mais resistentes.
- Transparência: Inclusão de múltiplos mecanismos para avaliar a integridade e a validade tanto do voto quanto da apuração final.
- Biometria: Desde 2008, a identificação por impressões digitais tem sido progressivamente incorporada para auxiliar mesários na validação da identidade dos eleitores.
- Acessibilidade: Foram introduzidos e melhorados recursos para pessoas com deficiência auditiva e visual, incluindo fones de ouvido, sintetizador de voz, teclado em Braille (presente desde a UE96 original) e o suporte a intérpretes de Libras na tela.
- Eficiência: A renovação dos modelos tornou o processo eleitoral mais rápido, diminuindo o tempo necessário para a habilitação do voto nas seções.
- Sustentabilidade: Os aparelhos passaram a consumir menos energia e foram desenhados para maior durabilidade e facilidade de reciclagem, contribuindo para a proteção ambiental.


