O escritor, ambientalista e único membro indígena da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, está prestes a fazer sua estreia na direção de cinema. O filme foi gravado na Chapada Imperial, localizada em Brazlândia, no Distrito Federal.
As filmagens ocorreram durante um mês em uma área privada de preservação ambiental que abrange 4 mil hectares, envolvendo cerca de 50 pessoas. A produção narra uma história fictícia centrada em um líder espiritual xavante, utilizando o Cerrado como cenário principal. Krenak selecionou esta região para ambientar a trama, que se desenrola na década de 1960.
Krenak explicou que, embora seja ficção, ela se baseia na vivência de um indivíduo que permaneceu no Cerrado original, sem infraestrutura moderna como estradas ou documentos, por mais de cem anos. O título do filme ainda não foi revelado, e sua estreia está programada para 2027.
Para Krenak, dirigir cinema representa uma nova forma de contar narrativas. Ele fez uma analogia entre este trabalho e a criação do livro «Ideias para adiar o fim do mundo», onde também discute a relação entre a humanidade e a natureza. Afirmou que o audiovisual, especificamente o cinema, é um recurso fascinante para contar essa história de maneira diferente do formato literário.
O filme narra a história de um líder espiritual
A narrativa é uma obra de ficção inspirada na longa experiência de vida de um indígena que viveu mais de cem anos no Cerrado. A história é contada sob a perspectiva de um líder espiritual que guia seu povo frente às mudanças que ameaçam seu território. Krenak declarou que está celebrando o bioma do Cerrado ao contar a história de uma pessoa originária deste ecossistema.
O diretor descreve o personagem central como um «dono do sonho», alguém encarregado de inspirar outros e compartilhar relatos. A trama também dialoga com as vivências de Krenak com pessoas importantes em sua trajetória. O papel principal é interpretado pelo cineasta xavante Divino Tserewahú, reconhecido como um dos pioneiros do cinema indígena brasileiro. No filme, Tserewahú atua em seu primeiro papel como ator.
O elenco também inclui o ator Johnny Massaro, que interpreta um jovem salesiano enviado com o propósito de catequizar os indígenas.
Aldeia cenográfica foi construída por indígenas xavantes
A produção é fruto de uma colaboração entre uma produtora mineira e uma brasiliense. Para recriar a aldeia retratada, sete indígenas xavantes da Reserva Sangradouro, em Mato Grosso, viajaram até Brazlândia para erguer as ocas utilizadas nas gravações. Eles foram ao Distrito Federal unicamente para montar essa aldeia cenográfica.
A estrutura foi meticulosamente planejada para espelhar as características de uma aldeia da década de 1960, período histórico abordado no filme. A variedade de paisagens da Chapada Imperial também motivou a escolha do local, pois, segundo Gabriel Brito, a área possibilita reunir diversos cenários em um único espaço.
Marta Imperial, uma das proprietárias da Chapada Imperial, informou que as ocas construídas não serão removidas; elas permanecerão e poderão ser usadas em futuras produções audiovisuais. Além disso, ela planeja utilizar o local para atividades educacionais, apresentando aos alunos aspectos da cultura indígena.
