Em Belém, uma cidade marcada pela presença constante da chuva, a exposição intitulada 'Lágrimas de São Pedro' convida o público a caminhar por meio a aproximadamente 7 mil gotas suspensas no ar, criando a sensação de que o tempo foi interrompido. Esta mostra representa uma das maiores montagens do projeto em vinte anos e terá sua estreia em 6 de outubro, às 19h, na CAIXA Cultural Belém, incluindo uma visita guiada pelo criador.
A instalação foi concebida pelo artista visual baiano Vinícius S.A. e possui entrada gratuita. A inauguração em Belém completa o roteiro da obra por todas as unidades da CAIXA Cultural no Brasil, sendo esta etapa a última na itinerância. O projeto, apoiado pela rede, já levou a instalação a diversas regiões desde sua apresentação inicial em Salvador, em 2008, além de ter passado por Las Vegas, nos Estados Unidos, e Frankfurt, na Alemanha.
Vinícius notou a particularidade da relação dos habitantes de Belém com a precipitação ao chegar à capital paraense. Ele declarou ser a primeira vez que expõe em uma metrópole com uma conexão tão íntima ou afetiva com a chuva.
As milhares de 'lágrimas' são construídas utilizando bulbos de lâmpadas preenchidos com água, mantidos suspensos por fios de nylon em diferentes níveis. A iluminação cênica serve para destacar a transparência desses elementos, transformando a galeria em uma paisagem que o visitante percorre, sentindo-se imerso na instalação.
O artista explica que a obra simula a capacidade de pausar a chuva, permitindo a contemplação da beleza, do poder e do simbolismo dessas gotas grandes, limpas e transparentes. Ele complementa que, embora seja uma obra sobre chuva, ela também aborda a seca, caracterizando-se como uma 'chuva poética'.
Memória, ciência e experimentação
'Lágrimas de São Pedro' resulta de uma fusão entre experiências pessoais e pesquisas aprofundadas. As recordações da infância no sertão da Bahia, onde a chuva era aguardada e celebrada, juntam-se à curiosidade de Vinícius por materiais, seu interesse pelas ciências exatas e sua prática experimental manual. A aparente leveza das gotas depende de cálculos precisos de peso, volume e suporte.
Uma vivência na Chapada Diamantina também influenciou a criação da obra. Vinícius relatou ter caminhado dentro de uma nuvem durante cerca de três horas em uma neblina intensa, estando no topo da montanha quando a nuvem desceu sobre ele. Essa memória de estar envolto em umidade passou a integrar a pesquisa que moldou a instalação.
Vinícius, artista baiano com obras no acervo do Museu de Arte Contemporânea da Bahia e residências artísticas na Holanda e na Alemanha, utiliza materiais comuns para criar instalações que incentivam a experiência espacial do público. Na obra 'Lágrimas de São Pedro', a intersecção entre água, fé e esperança é visível nas reações dos espectadores; em Salvador, ele observou pessoas orando diante das gotas.
A instalação, criada por Vinícius S.A., mantém a entrada gratuita e estará disponível até 24 de janeiro de 2027.
Chuva, poesia e preservação ambiental
Ao longo da trajetória da obra, Vinícius expandiu sua perspectiva para incluir a questão da escassez hídrica. Embora as lembranças do sertão permaneçam como referência, sua reflexão agora se direciona para uma poética da seca que afeta diversos territórios. Para o artista, a crise hídrica demanda um debate que transcenda as fronteiras regionais.
A passagem da obra pela Amazônia intensifica essa reflexão, conectando-a aos impactos das estiagens sobre a fauna, a flora e as comunidades ribeirinhas. Através da experiência com a água, a instalação promove um diálogo sobre a urgência de conservar os recursos naturais e as florestas.
Vinícius define a arte como um instrumento político, um meio de comunicação com as pessoas. Seu propósito é empregar a poesia para desenvolver uma linguagem visual que consiga sensibilizar o espectador sobre essas questões ambientais.

