Um casal residente em Cuiabá, habituado a observar araras-canindés voando pela cidade, foi surpreendido ao encontrar aproximadamente nove dessas aves reunidas e alimentando-se de bocaiúva, conhecida localmente como “chiclete cuiabano”, dentro de um condomínio de luxo.
Márcia Yamamoto, de 43 anos, e Rodrigo Nichioka, de 45 anos, filmaram a ocorrência a partir do interior do veículo. No registro em vídeo, as araras foram vistas dispersas pela via e próximas umas das outras enquanto consumiam o fruto de uma palmeira. Algumas passaram em frente ao carro do casal, mas as aves mantiveram a alimentação sem demonstrar desconforto com a presença humana.
Rodrigo relatou que inicialmente pensou que as aves voariam ao se aproximarem, mas elas permaneceram no local, como se estivessem acostumadas. O evento chamou a atenção devido à proximidade; embora o casal esteja acostumado a ver araras em Cuiabá, especialmente em árvores ou voando, eles nunca haviam testemunhado um grupo tão numeroso se alimentando no solo após mais de quatro décadas na cidade.
Márcia comentou que foi a primeira e última vez que presenciaram tal cena. Rodrigo, que trabalha no condomínio há cerca de vinte anos e transita frequentemente pelas ruas, afirmou que, embora as araras já apareçam na área, a quantidade vista naquele dia foi incomum. Ele acrescentou que, apesar de haver palmeiras frequentadas pelas aves, nunca havia visto tal concentração, confirmando que elas estavam consumindo a bocaiúva, o “chicletinho cuiabano”.
Como a bocaiúva se tornou o 'chiclete cuiabano'
A bocaiúva, fruto de uma palmeira comum tanto no Cerrado quanto no Pantanal, recebeu o apelido de “chiclete cuiabano” devido à combinação de um costume de consumo local e à história de isolamento de Cuiabá. Antes de se tornar um item comum na cidade, o fruto era utilizado como substituto durante exibições cinematográficas. Segundo Paulo Boute, nas décadas de 1950 e 1960, era frequente que pessoas levassem sacos do fruto para consumir enquanto assistiam a filmes.
Após mastigar a parte fibrosa e amarelada da bocaiúva, as sementes eram jogadas no piso do cinema. Essa prática, conforme explicou Paulo, contribuiu para a popularização do apelido. Ele observou que o ato de roer o fruto dava a sensação de estar mastigando um chiclete.
O nome também estaria ligado ao isolamento histórico de Cuiabá, que permaneceu com acesso restrito a outras regiões do país por mais de 250 anos. Naquela época, itens como chicletes eram considerados artigos de luxo e chegavam à capital mato-grossense com grande dificuldade e custos elevados. O guia mencionou que, diante disso, surgiu a ideia de que “A gente precisa de chiclete lá do Rio. A gente tem o nosso próprio chiclete cuiabano”.
A rotina das araras
As araras-canindé são aves sociais e tendem a se mover e se alimentar em grupos. Paulo Boute, agrônomo e guia de turismo do Pantanal, informou que este comportamento é usual em diversas partes de Mato Grosso. Ele citou, como exemplos, as regiões de Campo Novo do Parecis e Primavera do Leste, onde é possível encontrar bandos de araras em plantações de milho e girassol.
Além disso, essas aves procuram áreas urbanas para pernoitar, preferencialmente em locais que ofereçam proteção contra predadores. Segundo o guia, elas buscam a cidade porque ali encontram segurança durante o sono. Ele especificou que pelo menos seis araras costumam dormir todas as noites em palmeiras próximas à sua residência. Embora seja comum ver as aves em grupos, a aproximação de veículos e pessoas durante o período de alimentação não é um comportamento habitual.
