Muitas mulheres que tentam engravidar por um período prolongado sem sucesso acabam buscando atendimento médico e descobrem a endometriose, uma condição que nem sempre é percebida inicialmente, pois a maioria das pessoas só suspeita dela ao sentir dor intensa.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), aproximadamente 10% das pessoas em idade fértil possuem endometriose. Este percentual aumenta significativamente entre aquelas com dificuldades reprodutivas, atingindo até 50%. Contudo, é fundamental notar que nem toda mulher diagnosticada com a doença terá problemas para engravidar.
Como a endometriose atrapalha a gravidez
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero prolifera em outras partes do organismo. Este tecido responde aos hormônios mensalmente, tal como o endométrio, mas ao estar em local inadequado, provoca inflamação ao redor.
Essa condição pode interferir na gestação de quatro maneiras distintas:
- As trompas e ovários podem sofrer deslocamento; a inflamação pode causar aderências que obstruem o trajeto necessário para o óvulo encontrar o espermatozoide.
- Os óvulos podem perder qualidade; cistos nos ovários, conhecidos como endometriomas, juntamente com a inflamação contínua, podem prejudicar os óvulos e reduzir a reserva feminina.
- A região pélvica torna-se um ambiente adverso; o corpo libera substâncias que dificultam a união entre óvulo e espermatozoide e impedem a implantação do embrião no útero.
- O equilíbrio hormonal é desregulado; a doença pode afetar a produção hormonal, impactando tanto a ovulação quanto a capacidade de fixação do embrião no útero.
Ressalta-se que o impacto da endometriose na fertilidade varia conforme a severidade da doença, a localização das lesões e outros fatores individuais, e não é garantido que toda mulher com a condição enfrente dificuldades para conceber.
A cirurgia pode ajudar a engravidar?
Tiago Castilho, cirurgião oncológico especializado em cirurgia ginecológica e endometriose profunda, afirma que mulheres com endometriose podem engravidar, embora a condição complique até 50% dos casos. Ele esclarece que a endometriose gera um quadro de inflamação crônica. Embora não sejam conhecidas todas as formas pelas quais a endometriose afeta a gestação, ele aponta que, em mulheres sem problemas documentados, a taxa de fecundidade média é de cerca de 20% por ciclo. Quando a endometriose é um fator agravante, essa taxa pode cair para entre 2% e 10%.
Em situações onde a doença afeta a anatomia pélvica, como aderências que bloqueiam as trompas ou cistos que diminuem a reserva ovariana, a intervenção cirúrgica pode fazer parte do plano de reversão. Uma análise realizada pela Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, que compilou dados de oito pesquisas, demonstrou uma taxa de gravidez de 43,8% após a cirurgia para remover endometriomas. No entanto, a decisão de operar deve ser tomada considerando outros elementos, como a idade, o tempo de tentativas e a reserva ovariana, sendo sempre necessária uma avaliação individualizada.
Quando não dói, mas a doença está lá
Um grande desafio no diagnóstico é que a endometriose nem sempre se manifesta com dor. Algumas pacientes apresentam casos graves sem sentir qualquer sintoma perceptível.
Por essa razão, o diagnóstico preciso requer exames mais detalhados, como ultrassom transvaginal especializado e ressonância magnética. Estes procedimentos conseguem identificar focos da doença que não são visíveis em exames simples, seguindo o mesmo protocolo investigativo usado para determinar o caminho correto no diagnóstico geral da endometriose.
O planejamento do tratamento deve ser feito de maneira personalizada. O cirurgião explica que, ao discutir a cirurgia de endometriose, ele questiona o objetivo da paciente; se o foco for engravidar, o planejamento cirúrgico será ajustado para priorizar a segurança e a preservação do potencial reprodutivo.
Investigação e cuidado especializado
Possuir endometriose não implica automaticamente infertilidade, assim como receber o diagnóstico não significa que toda mulher necessite de cirurgia. É imprescindível considerar individualmente os sintomas, a extensão da doença e os objetivos reprodutivos.
Se houver o desejo de engravidar no presente ou no futuro, o acompanhamento de um especialista em reprodução humana é crucial durante todo o manejo da endometriose, mesmo na ausência de sintomas. O cirurgião e o especialista em fertilidade podem trabalhar de forma complementar, analisando fatores como idade, reserva ovariana, extensão da patologia e momento reprodutivo para estabelecer a estratégia mais adequada para cada indivíduo.
Com mais de dez anos de experiência no tratamento e cirurgia de mulheres com endometriose, Tiago Castilho também avalia casos complexos, utilizando técnicas minimamente invasivas, como videocirurgia e cirurgia robótica, quando há indicação cirúrgica. O programa Cuidado 360º auxilia nessa abordagem, organizando tanto a fase de preparação quanto a de recuperação.
