A SpaceX realizou o lançamento de um protótipo de satélite contendo chips de inteligência artificial (IA) do Google nesta quinta-feira (1). Este dispositivo foi inserido em órbita utilizando um foguete Falcon 9, durante a missão Transporter-18. O lançamento ocorreu a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, EUA, às 15h32, horário de Brasília.
Esta missão faz parte do programa de transporte compartilhado da SpaceX e tem como objetivo levar ao espaço aproximadamente 130 cargas, entre elas satélites da Planet Labs. Um dos itens transportados é um protótipo alimentado por energia solar, equipado com Tensor Processing Units (TPUs), que são os chips criados pelo Google para processamento de IA.
Teste do Project Suncatcher
Este lançamento constitui o primeiro ensaio em órbita do Project Suncatcher, uma iniciativa da Alphabet focada no desenvolvimento de infraestrutura de computação para IA no ambiente espacial. A intenção é verificar a possibilidade de satélites servirem, futuramente, como hospedeiros de data centers capazes de executar tarefas complexas de IA.
Em um comunicado sobre o projeto, o Google indicou que o Suncatcher visa 'explorar se o espaço poderia um dia abrigar uma infraestrutura escalável de aprendizado de máquina'. Antes deste teste espacial, o Google já havia utilizado suas TPUs para rodar cargas de trabalho de IA em uma instalação da Universidade da Califórnia em Davis, EUA. Contudo, a empresa ainda precisa entender como esses chips se comportarão sob as condições severas da baixa órbita terrestre.
Os desafios técnicos incluem a exposição à radiação espacial, as variações extremas de temperatura e a necessidade de gerenciar o calor gerado pelos componentes. O teste também possibilitará a avaliação da confiabilidade dos equipamentos fora da Terra, um requisito essencial para a futura criação de centros de processamento orbitais.
Planos de Data Centers Orbitais
A própria SpaceX já divulgou planos para construir e lançar seus próprios data centers em órbita. Essa proposta envolve o uso de enxames de satélites projetados pela empresa em Redmond, Washington, EUA, que seriam equipados com unidades de processamento gráfico (GPUs) e painéis solares fabricados em parceria com a Tesla. A companhia apresenta os supercomputadores espaciais como uma potencial nova fronteira para a infraestrutura de IA, buscando aproveitar o espaço orbital para mitigar certas restrições encontradas nos data centers terrestres.
Elon Musk, CEO da SpaceX, declarou anteriormente que os data centers espaciais representariam a forma mais econômica de treinar sistemas de IA, prevendo que isso poderia se concretizar em dois ou três anos. Adicionalmente, Gwynne Shotwell, diretora de operações da SpaceX, informou em setembro que a empresa planeja operar 'supercomputação no espaço' até 2027.
Apesar dessas projeções otimistas, especialistas do setor classificam os data centers espaciais como um empreendimento de longo prazo e ainda incerto. Os entraves apontados incluem o elevado custo, a limitação na capacidade de lançamento de foguetes, a demanda por sistemas de resfriamento, componentes resistentes à radiação e proteção contra temperaturas extremas. Além disso, a presença de lixo espacial e o congestionamento orbital podem complicar a implementação de grandes estruturas desse tipo.
Alphabet e SpaceX mantêm uma relação comercial. A empresa controladora do Google é uma investidora relevante na empresa espacial, com uma participação atualmente estimada em mais de US$ 82 bilhões (aproximadamente R$ 434,6 bilhões). Embora sejam parceiras em diversas áreas, suas respectivas divisões de IA também competem entre si.
O lançamento do Transporter-18 ocorreu em um dia bastante ativo para a SpaceX. No mesmo dia, a empresa executou uma missão tripulada para levar astronautas à Estação Espacial Internacional (ISS), partindo da Costa Espacial da Flórida, EUA, iniciando uma estadia de seis meses em órbita. Além do satélite do Google, a Transporter-18 transportou outros itens, como CubeSats, microssatélites, cargas hospedadas, duas espaçonaves com veículos de reentrada e quatro veículos de transferência orbital destinados a liberar 41 cargas posteriormente.
A missão também incluiu o Reason-1, satélite da Cowboy Space, cujo propósito é demonstrar a transmissão de energia via laser, visando transferir energia da órbita baixa da Terra para um receptor terrestre. Outro destaque foi o primeiro satélite de serviço Otter, da Starfish Space, desenvolvido para realizar a manutenção de satélites em órbita.
Embora a Transporter-18 tenha carregado um grande volume de equipamentos, ela não estabeleceu o recorde de maior número de itens enviados simultaneamente pela SpaceX; este recorde pertence à missão Transporter-1, realizada em janeiro de 2021, que enviou 143 cargas. O primeiro estágio do Falcon 9 retornou à área de Vandenberg, pousando cerca de 7 minutos e 30 segundos após a decolagem, marcando seu 25º voo. Enquanto isso, o segundo estágio prossegue levando a missão à baixa órbita terrestre, com a implantação das cargas prevista para ocorrer ao longo de cerca de 11 minutos, iniciando 54 minutos e 30 segundos após o lançamento.
