A Tintas Verginia, empresa do Paraná, alcançou a Certificação B, integrando o grupo seleto de companhias reconhecidas pelo B Lab. A empresa, que iniciou suas atividades há 35 anos como revendedora multimarcas e posteriormente desenvolveu fabricação própria de tintas, complementos e acessórios, conquistou este selo em 2026.
Nicholas Rosa, gerente de Recursos Humanos da Tintas Verginia, explicou que a certificação serviu como um catalisador para ir além de práticas importantes, mas não estruturadas, transformando intenções em gestão mensurável e criando mecanismos de acompanhamento da evolução da empresa.
O rigor da avaliação
O processo de certificação é notavelmente rigoroso, sendo apenas o preenchimento do questionário a primeira fase. Cada alegação deve ser validada por documentação, políticas e indicadores reais, os quais são analisados por especialistas do B Lab antes da aprovação. Para empresas de médio porte, como a Tintas Verginia, estruturar rotinas e registros inexistentes representa um desafio adicional.
A alteração estatutária exigida pelo selo confere segurança jurídica ao compromisso social e ambiental, garantindo que as decisões administrativas considerem formalmente os impactos sobre colaboradores, fornecedores, comunidade e meio ambiente, independentemente de mudanças na gestão ou controle da companhia.
No Brasil, o Sistema B coordena as empresas certificadas, promovendo a adoção de práticas de impacto socioambiental. O objetivo do selo é avaliar os efeitos de uma empresa sobre pessoas e planeta com a mesma seriedade dada aos resultados financeiros. Além disso, a certificação não é permanente e requer renovação periódica, forçando a empresa a manter e aprimorar continuamente suas práticas.
Em 2026, os padrões globais do B Lab tornaram-se mais exigentes, substituindo o modelo anterior baseado apenas em pontuação por uma estrutura de requisitos obrigatórios distribuídos em sete áreas de impacto: propósito e governança voltada às partes interessadas, trabalho justo, diversidade e inclusão, direitos humanos, ação climática, gestão ambiental e circularidade, e atuação em temas de interesse coletivo. Isso implica que cada frente possui exigências mínimas próprias, dificultando a compensação de falhas em uma área com sucessos em outra.
Dentro deste cenário mais exigente, a Tintas Verginia demonstrou como critérios sociais, ambientais e de governança estão integrados à sua administração, apresentando políticas, processos e indicadores que comprovam o comprometimento na rotina empresarial.
A jornada da Tintas Verginia
Eduardo Bathke, diretor-geral da Tintas Verginia, relatou que o processo teve início focando nas pessoas. O primeiro passo foi conscientizar a equipe sobre o propósito da iniciativa. A empresa buscou inspiração em grandes corporações, como a Natura, realizando visitas presenciais à fábrica e ao centro de distribuição para observar as ações implementadas, levando membros de RH, produção e logística para vivenciarem a realidade.
Segundo Bathke, a sensibilização dos funcionários e a apresentação de exemplos de sucesso são cruciais para fortalecer a crença no processo. Permitir que profissionais de diversos setores participassem dessas visitas possibilitou que cada área compreendesse como as iniciativas funcionavam em outras operações.
Da intenção à gestão
Na esfera de capital humano, a transformação principal ocorreu na metodologia de trabalho. Nicholas acrescentou que existe a diferença entre saber o que a empresa faz e conseguir demonstrar, por meio de métodos e evidências, como isso ocorre, qual o resultado e onde ainda há espaço para melhoria; a certificação proporcionou essa mudança de perspectiva.
O que mudou no dia a dia
Bathke destacou o impacto extremamente positivo da Certificação B, que trouxe consigo outras boas práticas e selos, visto que o reconhecimento abrange todo o ecossistema da empresa, incluindo trabalhadores, governança e meio ambiente. Ao analisar essas vertentes, a Tintas Verginia investiu em pesquisas internas de satisfação e obteve outros selos de empresa com bom ambiente de trabalho. Essa trajetória resultou no aprimoramento de processos, na melhoria da qualidade de vida dos colaboradores e na construção de uma cultura mais saudável, focada em saúde mental, meio ambiente, transparência e governança.
Indicadores de pessoas
As ações direcionadas aos colaboradores passaram a ser monitoradas por indicadores específicos. A companhia mantém programas de capacitação para novos consultores, preparo de gestores e desenvolvimento de futuros líderes, além de treinamentos focados em diversidade. Entre 2025 e os oito primeiros meses de 2026, foram acumuladas mais de 13 mil horas de treinamento.
Os dados de mobilidade interna também são acompanhados. Em 2025, 36,11% das movimentações registradas corresponderam a promoções internas, indicando que mais de um em cada três movimentos representou avanço de carreira dentro da própria organização. A diversidade também é monitorada por métricas: ao final de 2025, mulheres ocupavam 19,79% dos cargos de liderança, percentual que subiu para 20,79% até julho de 2026.
Impacto além da fábrica
A responsabilidade da empresa se estende para além de sua operação industrial. Em 2026, até agosto, a Tintas Verginia doou 4.528 litros de tinta para 35 instituições, auxiliando diretamente aproximadamente 8.758 pessoas, com um investimento estimado de R$ 100 mil nessas doações.
Gestão ambiental
No âmbito ambiental, a empresa implementa iniciativas como logística reversa para o descarte de excedentes de tinta, compensação de carbono e uso de energia renovável. O programa Coleta Colorida recebe sobras de tinta, latas vazias e materiais de pintura nas lojas da Tintas Verginia.
A logística reversa está prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), estabelecendo que fabricantes e comerciantes são responsáveis pelo destino dos produtos após o consumo. Este tema é crítico para tintas, pois resíduos descartados incorretamente podem contaminar solo e água.
Bathke avalia que, ao optar por uma empresa certificada, o consumidor tem a garantia de adquirir produtos de uma companhia íntegra, que respeita o meio ambiente e os colaboradores, possuindo governança e transparência genuínas, o que significa investir em negócios voltados para a melhoria do mundo.
Pioneirismo no setor
A Tintas Verginia é a segunda empresa do setor de construção civil a obter a certificação e a primeira no mercado de tintas. Bathke aponta que, no contexto mais amplo da construção civil, a primeira a receber o selo foi a Vedacit, fabricante de impermeabilizantes e produtos técnicos.
Este feito é significativo em um segmento industrial onde questões como consumo de energia, geração de resíduos e segurança no trabalho são centrais na gestão. A companhia publica relatórios de sustentabilidade anualmente há cinco anos, o que, segundo o diretor-geral, serve para inspirar concorrentes e outros mercados a seguir o mesmo caminho, reforçando a crença de que boas práticas constroem um mundo mais produtivo.
Uma visão de longo prazo
Bathke expressa o desejo pessoal e empresarial de tornar a Tintas Verginia uma empresa centenária, citando marcas como Cini e Alpargatas como inspiração. Ele mencionou ter visitado estabelecimentos muito antigos no Japão, com mais de 1.300 anos de existência, definindo essa longevidade como uma meta da empresa.
O executivo entende que, com planejamento estratégico, pessoas qualificadas e bons parceiros, o caminho para essa meta é viável. Ele enfatiza a necessidade de encarar o planeta com uma perspectiva de longo prazo, mas agindo de forma adaptável no curto prazo, conforme o ecossistema exige.
O próximo passo da marca, relacionado ao Empresa B e ESG, será aprofundar o entendimento sobre o ciclo de vida de seus produtos e identificar pontos na cadeia produtiva onde ainda pode gerar impacto. Adicionalmente, a empresa está construindo uma nova planta e sede que buscará o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), uma certificação internacional do U.S. Green Building Council que avalia edifícios por eficiência energética, uso racional de água, escolha de materiais e qualidade ambiental interna, exigindo comprovação técnica em todas as fases.
Um compromisso contínuo
Devido à necessidade de recertificação periódica, a manutenção do reconhecimento depende da continuidade e evolução das práticas e indicadores avaliados. Por isso, a Tintas Verginia encara a conquista como um novo nível de exigência interna, que se renova a cada ciclo de avaliação.
Eduardo Bathke conclui que, ao considerar uma lata de tinta, não se deve focar apenas no momento da venda, mas sim em todo o processo: as pessoas envolvidas, os recursos consumidos, os resíduos gerados, o relacionamento com a comunidade e o impacto final do produto.
