O Ministério da Saúde formalizou, nesta quinta-feira (1º), um acordo no valor de R$ 3,18 milhões destinado à modernização de uma ala do HC Criança, em Ribeirão Preto (SP). Este convênio visa aumentar a capacidade de leitos de transplante de medula óssea pediátrico, elevando-a de dois para sete, com foco em crianças diagnosticadas com doença falciforme.
Fabíola Traina, diretora técnico-científica da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto (Fundherp), informou que há 30 pacientes com a condição que já possuem doador compatível e estão prontos para o procedimento, mas aguardam a disponibilidade de leitos. Atualmente, os transplantes infantis com doença falciforme são adiados porque as vagas existentes são utilizadas por casos de leucemia e outras emergências oncológicas.
Os planos de reforma já foram aprovados, e a expectativa é que a implementação comece em menos de doze meses após a liberação dos recursos financeiros. Durante a visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao Hemocentro de Ribeirão Preto, o convênio foi assinado, sendo a Caixa responsável por acompanhar sua execução.
O ministro destacou que este novo centro se tornará uma referência nacional e estadual no tratamento da doença, além de contribuir para a formação de profissionais e o desenvolvimento tecnológico. Ele ressaltou que o Brasil possui uma das maiores populações afetadas pela doença fora do continente africano, afirmando que o procedimento pode oferecer uma terapia capaz de curar a anemia falciforme para muitas famílias.
Espera por leito
Atualmente, o HC dispõe de dois leitos para transplante de medula com doador em crianças e três para adultos. As crianças com doença falciforme acabam realizando o procedimento no hospital de adultos, competindo por vagas com pacientes oncológicos sanguíneos. Fabíola mencionou que a demanda tende a aumentar, visto que as normas que permitem o transplante para esta doença no SUS são recentes, e os médicos ainda estão em processo de identificação correta dos pacientes elegíveis.
Como vai ser o centro
A nova estrutura receberá o nome de Centro de Terapias Avançadas em Doença Falciforme e será implementada em uma ala existente no HC Criança, que está vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, caracterizando-se como uma reforma e não uma construção nova. Conforme o projeto apresentado por Fabíola, a área contará com cinco quartos equipados com pressão positiva para os pacientes transplantados e três quartos de isolamento, garantindo filtragem de ar devido à baixa imunidade desses pacientes. Os quartos também terão monitoramento constante e espaço para acompanhantes.
A previsão inicial é alocar dois leitos exclusivamente para a doença falciforme. Considerando que cada paciente permanece internado em média por dois meses, isso possibilitaria cerca de 12 transplantes anuais, sendo o atendimento público e gratuito. Embora o projeto completo, incluindo equipamentos, tenha sido orçado em R$ 6 milhões, o valor do convênio com o ministério destina-se especificamente à reforma. A diretora enfatizou que esse aumento de leitos trará flexibilidade, impedindo que pacientes com doença falciforme fiquem na mesma fila de emergências oncológicas, embora reconhecendo a importância de todos os atendimentos.
O que é a doença falciforme
A doença falciforme, que engloba a anemia falciforme, é de natureza hereditária e causa que as hemácias, ou células vermelhas do sangue, assumam um formato de foice, o que compromete a circulação e pode resultar em danos aos órgãos. O ministro apontou que a condição afeta predominantemente a população negra, causando infecções recorrentes, problemas ortopédicos e dificuldades de crescimento em crianças e adolescentes.
Fabíola detalhou que as complicações podem afetar todos os sistemas corporais, sendo o Acidente Vascular Cerebral (AVC) a complicação mais grave. Os dados apresentados indicam uma expectativa de vida média de 36 anos para indivíduos com a doença. Para a diretora, o transplante de medula óssea representa atualmente a única terapia curativa disponível no Brasil. Quando realizado na infância, o procedimento impede o agravamento das lesões antes que estas causem sequelas, protegendo contra AVC, diminuindo internações e eliminando a necessidade de transfusões frequentes, especialmente quando realizado com doadores aparentados.
