Enquanto a inteligência artificial (IA) captura grande parte da atenção pública, uma ameaça considerada mais grave, as mudanças climáticas, tem sido relegada a segundo plano. Essa observação foi feita por Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e coordenador do Amazônia Sustentável, em entrevista concedida ao Olhar Digital.
Durante a 81ª Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abordou ambos os temas. Em relação à IA, o republicano defendeu que o termo oficial deveria ser alterado para "superinteligência". Contudo, sua abordagem sobre as mudanças climáticas foi marcada pelo ceticismo e pela crítica a organismos internacionais.
Trump zombou de alertas climáticos e celebrou a ação de seu governo para impedir a implementação do primeiro imposto global sobre emissões de gases poluentes, defendendo, ainda, acordos de exploração de petróleo. Os Estados Unidos são apresentados como um exemplo notável nesse contexto, pois lideram o setor de IA e figuram entre os maiores emissores de gases de efeito estufa, ficando atrás apenas da China.
Posteriormente, o presidente chinês, Xi Jinping, realizou uma visita de Estado a Trump após o discurso deste na ONU. Embora a IA tenha sido um tópico de conversa entre os líderes, as mudanças climáticas foram omitidas dessa discussão.
Essa dinâmica entre EUA e China corrobora a análise de Leah Stokes, professora de políticas ambientais na Universidade da Califórnia, detalhada em um ensaio publicado dias antes. Stokes argumentou que a IA estava "consumindo a nossa atenção", mas enfatizou que as mudanças climáticas constituem um perigo mais tangível.
A especialista afirmou que, diferentemente da IA, a ameaça existencial das alterações climáticas "não é hipotética. Elas estão matando pessoas agora". Ela também sugeriu que há uma conveniência em esquecer a urgência de solucionar este problema.
Enquanto o risco existencial ligado ao avanço da IA permanece especulativo e controverso, as mudanças climáticas são um tema bem estabelecido cientificamente. A ligação entre a queima de combustíveis fósseis e o aumento da temperatura média terrestre é inquestionável, e existem diversas soluções viáveis para mitigar as emissões de poluentes, como os veículos elétricos.
No entanto, esses avanços são apenas um ponto de partida, não a resolução completa, visto que as consequências do aquecimento global se manifestam com crescente frequência mundialmente. No Brasil, por exemplo, são observadas ondas extremas de clima, incluindo calor intenso, frio extremo e chuvas volumosas.
O agravamento lento, gradual e abrangente das mudanças climáticas é um desafio sério. Seth Baum, diretor executivo do Instituto de Risco Catastrófico Global, comentou ao New York Times que "nós normalizamos e nos acostumamos com coisas que acontecem gradualmente" e que "pessoas comuns não querem que esse seja o assunto no qual estão sempre pensando".
Por outro lado, Toby Ord, pesquisador da Universidade Oxford e autor de The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity, declarou ao jornal que, em termos de riscos que podem levar ao fim da humanidade, ele considera a IA como um perigo maior.
Paulo Artaxo reiterou a necessidade de regulamentação urgente para ambos os temas. Além de discutir a questão dos data centers, ele salientou a importância de estabelecer "um sistema de governança adequado que possa lidar com o risco que a humanidade está correndo por conta dessas duas coisas".
O texto conclui apontando que, embora um apocalipse causado por IA possa ser mais atraente midiaticamente, um problema mais real está sufocando o planeta progressivamente.
