Situada em Pouca Farinha, em Porto Covo, este projeto residencial ocupa um terreno de 4750 m². O desenvolvimento da casa foi concebido majoritariamente sobre a base de ruínas antigas, atendendo às especificidades ambientais e territoriais da região. Com uma área construída de 189 m², o projeto optou por uma intervenção contida, focando a edificação em uma área previamente modificada, visando assim manter a conexão com o local.
A residência busca uma presença discreta no território, posicionando-se entre a via de acesso e a paisagem, e entre a lembrança das ruínas e uma nova maneira de viver. Ela se estende inteiramente em um único pavimento, assentando-se sobre um terreno com inclinação suave, quase imperceptível. A cobertura plana contribui para reforçar a horizontalidade da estrutura e diminui a visibilidade do volume arquitetônico na paisagem.
Apesar de estar próxima a uma estrada nacional, a disposição rebaixada da construção e a vegetação existente ao redor do perímetro proporcionam um ambiente de abrigo e privacidade, características que o projeto se propõe a preservar e intensificar.
A concepção espacial deriva da ideia de refúgio. A entrada principal, juntamente com a nascente, direciona para uma sucessão de ambientes que incluem quatro dormitórios, três banheiros, cozinha, sala e lavanderia/despensa. Todos esses espaços são dispostos em torno de um pátio central voltado para o sul e poente, que funciona como o coração da casa. Este espaço externo, marcado por uma pérgula e uma piscina, é o ponto de convergência dos principais cômodos internos e estabelece uma ligação constante entre arquitetura, iluminação e o terreno.
A natureza também é incorporada ao interior do imóvel. Nas fachadas mais reservadas, a vegetação assume um papel arquitetônico, servindo para emoldurar certas vistas, filtrar a incidência solar e criar distintos níveis de privacidade. Jardins de ocultação protegem as áreas mais íntimas sem romper seu contato direto com o exterior.
A escolha dos materiais visa prolongar essa proximidade com o local. Internamente, a paleta de cores e texturas é composta por tijoleira, microcimento, travertino, madeira e mármore, apresentando tons naturais e minerais, complementados por ferragens e metais em tons acobreados. No exterior, o branco das paredes e os tons beges das esquadrias e portas reforçam a sensação de luminosidade e simplicidade geral do conjunto.
No nível superior, o terraço oferece uma perspectiva diferente da paisagem. Após a intimidade proporcionada pelo pátio, a casa se abre para o horizonte, criando um local ideal para apreciar o entardecer e observar, à distância, a Ilha do Pessegueiro.
Em suma, a casa equilibra abrigo e abertura, memória e paisagem, buscando ocupar o espaço sem dominá-lo. A intervenção utiliza as restrições inerentes ao território como princípio fundamental do projeto, almejando construir uma arquitetura silenciosa, integrada ao cenário e respeitosa da história do local.
