ArchDaily e World Monuments Fund firmam parceria para reavaliar o patrimônio moderno
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ArchDaily e World Monuments Fund firmam parceria para reavaliar o patrimônio moderno

A questão do que justifica a preservação de um edifício transcende a simples antiguidade. Enquanto a idade é frequentemente citada como critério, edificações datadas das décadas de 1950 ou 1970 podem possuir um significado histórico comparável ao de catedrais medievais, exigindo uma análise que considere o contexto político, o valor cultural e a inovação arquitetônica, especialmente no âmbito da arquitetura modernista no Sul Global.

É neste debate que o ArchDaily e o World Monuments Fund (WMF) unem forças. O WMF aporta sua vasta experiência prática em conservação mundial, enquanto o ArchDaily oferece sua capacidade editorial para contextualizar este trabalho e apresentá-lo a um público global. O propósito da colaboração é duplo: proteger locais e narrar suas histórias, alterando a percepção do patrimônio modernista para além do campo estrito da preservação.

Para inaugurar esta cooperação, foram realizadas conversas com Javier Ors Ausín, líder de Programas Temáticos do WMF, e Christele Harrouk, editora-chefe do ArchDaily.

Significado da parceria para ambas as organizações

Javier Ors Ausín destacou que a parceria é um complemento mútuo. O WMF atua diretamente nos locais, executando projetos de salvaguarda, conservação e documentação, trabalhando com governos, comunidades, ONGs locais e especialistas. Ter o ArchDaily como parceiro permite que o WMF não só preserve fisicamente os locais, mas também explique sua relevância global e a importância do trabalho realizado.

Christele Harrouk concordou com a visão de complementaridade, afirmando que o WMF foca na conservação física e nas comunidades, enquanto o ArchDaily se dedica à narrativa, dando acesso a essas histórias ao mundo. Ela ressaltou que documentar e falar sobre algo já constitui uma forma de conservação. Para o ArchDaily, a parceria reforça seu papel ativo na cultura arquitetônica, auxiliando a definir o que é patrimônio e como ele é compreendido.

Javier Ors Ausín complementou que, ao realizar o trabalho editorial e comunicacional, a própria comunicação se torna parte do processo de conservação, gerando visibilidade e apoio para os projetos de campo, superando a limitação de apenas fotos de «antes e depois».

Motivação para a colaboração

Christele Harrouk explicou que o ArchDaily, com seus 18 anos de existência, sempre contextualiza e conecta informações, indo além da mera documentação. O surgimento do WMF coincidiu com um momento oportuno, pois a trajetória do ArchDaily já estava direcionada a esse tema. O WMF trouxe o conhecimento prático e os projetos ativos, enquanto o ArchDaily contribuiu com sua equipe editorial, audiência global e acervo.

Javier Ors Ausín observou que, ao ingressar no WMF há quase dez anos, percebeu o isolamento do campo da preservação. A parceria com o ArchDaily serve para reconectar os debates especializados do patrimônio com o discurso arquitetônico mais amplo, visto que o ArchDaily participa ativamente da conversa global sobre arquitetura.

Christele Harrouk adicionou que a união das duas entidades visa não apenas a sobrevivência física da arquitetura relevante, mas também a preservação do conhecimento circundante, sendo este o cerne da parceria.

Foco na arquitetura modernista e no Sul Global

A parceria enfatiza a arquitetura modernista, com foco particular no Sul Global. Javier Ors Ausín justificou que seu interesse inicial era contar uma história mais ampla sobre a arquitetura do século XX, pois a narrativa tradicional tende a se restringir aos Estados Unidos e à Europa.

Ele detalhou que o modernismo se manifestou de maneiras diversas na América do Sul, África Subsaariana, Sul da Ásia e Oriente Médio, adaptando-se a diferentes condições. Como exemplo, mencionou o plano de gestão de conservação desenvolvido para o Estádio Sardar Vallabhbhai Patel, na Índia, uma obra brutalista de Charles Correa e Mahendra Raj, cuja urgência aumentou devido à demolição de marcos modernistas indianos. Também citou trabalhos em Ouagadougou, Burkina Faso, em um exemplar modernista que utiliza terra e ventilação natural.

Christele Harrouk reforçou que o conceito de «global» para o ArchDaily implica compreender a arquitetura em seu contexto total — clima, cultura, política, economia e história —, e não apenas publicar projetos de diversos países. Ela argumentou que, ao selecionar e contextualizar obras, o ArchDaily ajuda a reajustar a narrativa histórica da arquitetura.

Defesa da importância do patrimônio modernista

Javier Ors Ausín apontou que o desafio central é que, diferentemente de catedrais ou castelos, edifícios das décadas de 1950 a 1970 precisam constantemente comprovar seu valor patrimonial, histórico e inovador. A abordagem adotada é baseada na educação e interpretação, mostrando a comunidades e governos que o valor desses espaços reside em seu contexto político e histórico, e na inovação que representam.

Como ilustração, citou o Africa Hall das Nações Unidas, em Adis Abeba, que será reconhecido pelo WMF em 2026. Sua relevância advém de representar a descolonização e a consolidação de instituições africanas, além de sua notável inovação no uso de concreto armado, sendo construído na Etiópia, o único país africano sem colônia.

Em relação à coexistência entre conservação e crescimento urbano, Christele Harrouk defendeu que cidades são organismos vivos e o patrimônio sempre fez parte de sua evolução. O WMF auxilia ao redefinir o que é valioso, considerando o lugar na malha urbana e as histórias contadas, e enfatizou que as comunidades locais devem participar da definição do futuro desses espaços.

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