Estudo identifica duas aves brasileiras como entre as mais ruidosas do planeta
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Estudo identifica duas aves brasileiras como entre as mais ruidosas do planeta

Uma pesquisa científica revelou que duas espécies de aves nativas do Brasil, a araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema (Cariama cristata), figuram entre os animais com os cantos mais altos já registrados pela ciência. Os sons emitidos por ambas excederam os 120 decibéis (dB) de pico, um nível comparável ou superior ao gerado por ferramentas extremamente barulhentas, como britadeiras e motosserras.

Esta descoberta foi realizada por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, incluindo o brasileiro João C.T. Menezes, durante seu trabalho de pós-graduação. Os achados foram divulgados na revista científica Evolution.

Objetivo da Pesquisa

Contudo, o propósito dos cientistas ia além de apenas classificar o ruído. A investigação visava compreender quais atributos físicos influenciam a intensidade dos cantos e verificar se o volume vocal está ligado ao meio ambiente onde as espécies habitam ou à sua estrutura social.

Para atingir este fim, os pesquisadores mediram a amplitude vocal de 123 tipos de aves em locais próximos a Amherst, Massachusetts (EUA), e em diversas regiões do Brasil. Dentre as espécies examinadas, 113 jamais tinham seu volume de canto catalogado anteriormente.

Menezes esclarece que ainda há pouca informação disponível sobre a amplitude vocal das aves. Os resultados sugerem que certas espécies brasileiras estão próximas ao limite máximo de produção sonora observado nesses animais. Ele afirmou ao g1 que "podemos dizer com segurança que as arapongas da Amazônia e da Mata Atlântica e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos".

Contextualização de Recordes Anteriores

As novas descobertas também fornecem contexto a um registro anterior. Em 2019, membros da mesma universidade identificaram a araponga-branca, encontrada na Amazônia, como a ave com o canto mais alto documentado, atingindo picos de até 125,4 dB, um feito posteriormente reconhecido pelo Guinness World Records.

Dessa forma, a pesquisa atual não define um único campeão absoluto. Diferentes espécies podem ocupar o topo dependendo da metodologia utilizada pelos pesquisadores para calcular o volume. No entanto, para os cientistas, o foco principal reside em entender o motivo pelo qual algumas aves evoluíram para gerar sons tão potentes.

Características Físicas Encontradas

Os pesquisadores identificaram duas características físicas que auxiliam na explicação das variações de volume: o porte corporal e a largura da abertura do bico. De modo geral, aves de maior dimensão tendem a produzir sons mais altos, possuindo também músculos mais desenvolvidos que facilitam uma maior compressão do ar e, consequentemente, uma emissão sonora mais vigorosa.

Adicionalmente, as aves com vocais mais fortes exibem aberturas bucais notavelmente largas. A comparação feita pelos cientistas remete a instrumentos musicais; estruturas mais amplas, como as campânulas de instrumentos de sopro, podem auxiliar na amplificação do som.

A seriema foi apontada como a maior espécie entre aquelas analisadas, enquanto as arapongas demonstram aberturas de bico excepcionalmente largas em relação ao seu tamanho corporal.

Hipóteses Ecológicas e Evolutivas

Apesar destes avanços, os pesquisadores ainda não conseguiram elucidar totalmente a razão pela qual certas espécies produzem sons tão extremos. Antes do estudo, os cientistas formularam várias hipóteses sobre as possíveis funções ecológicas e evolutivas desses cantos intensos.

Uma das teorias era que aves mais barulhentas poderiam ter capacidades de voo mais limitadas, utilizando o som como compensação para uma mobilidade reduzida. Outra possibilidade considerada era que espécies vivendo em matas densas necessitassem de cantos mais fortes para garantir a comunicação quando a visão não é eficaz.

Os pesquisadores também especularam que aves com cantos mais altos poderiam apresentar maior incidência de poligamia, visto que chamados capazes de percorrer longas distâncias poderiam auxiliar na localização de parceiros potenciais. Contudo, os dados coletados não confirmaram amplamente essas suposições.

Menezes ressalta que "entre os fatores ecológicos que estudamos, nenhum explicou com clareza por que algumas espécies evoluíram cantos mais altos do que outras. Isso não quer dizer que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento nunca sejam importantes, mas sim que não parecem ser regras gerais para as aves como um todo".

Para os cientistas, embora o tamanho corporal e a abertura do bico ajudem a explicar como certas aves geram sons tão fortes, eles ainda não esclarecem completamente o motivo pelo qual essa aptidão foi desenvolvida. "Deve haver algo particularmente eficiente na maneira como elas produzem ou irradiam o som que tamanho corporal e largura do bico sozinhos não explicam. Descobrir esse 'algo a mais' é justamente uma das perguntas que surgem do estudo", acrescenta ele.

Desafios Metodológicos na Medição Sonora

Determinar o volume exato de um canto em ambiente natural é um processo complexo, pois a intensidade do som depende diretamente da distância entre o pássaro e o equipamento de medição. Um canto que soa ensurdecedor próximo pode ser mal registrado a centenas de metros de distância. Por essa razão, uma alternativa seria capturar o animal e conduzir experimentos em laboratório sob condições controladas.

Entretanto, este método se mostra impraticável quando a pesquisa abrange inúmeras espécies e múltiplas regiões globais. Para realizar as medições em campo, os cientistas empregaram telêmetros a laser, capazes de aferir a distância até a ave, juntamente com medidores de som portáteis de alta resolução. A união desses instrumentos permitiu correlacionar a intensidade registrada com a distância do animal, obtendo assim medições comparáveis entre as espécies.

Com esta metodologia, os pesquisadores conseguiram aumentar significativamente o número de espécies para as quais existem dados fidedignos sobre a amplitude de seus cantos.

O estudo respondeu parcialmente às questões propostas, deixando outras pendentes. Os cientistas agora sabem que aves maiores e com bocas mais largas tendem a emitir sons mais intensos. Não obstante, estas características não explicam integralmente como algumas espécies relativamente pequenas alcançam volumes comparáveis aos de animais muito maiores.

Para Menezes, dois pontos devem guiar futuras investigações: qual é o mecanismo que possibilita a essas aves produzir e irradiar sons tão potentes e qual é a vantagem evolutiva dessa habilidade. "Agora queremos entender melhor o que há de especial nessas espécies que as permite produzir e irradiar sons tão intensos".

Permanece também a incerteza sobre os custos associados a este comportamento. Um canto extremamente alto pode favorecer a comunicação ou a competição por parceiros, mas também pode aumentar a vulnerabilidade da ave a predadores. "O interessante agora é testar diretamente quais vantagens esses cantos extremamente altos oferecem e quais custos vêm junto com eles. É bem possível que espécies diferentes tenham chegado a amplitudes extremas por caminhos evolutivos completamente diferentes", conclui o pesquisador brasileiro.

Portanto, para os pesquisadores, descobrir quais aves são mais barulhentas é apenas o ponto de partida. A questão central passa a ser compreender por que a evolução levou espécies distintas a desenvolverem uma capacidade vocal tão extrema.

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