Um professor associado do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) analisou filmes brasileiros de ficção científica, argumentando que eles funcionam como um reflexo das crises nacionais.
Há mais de sessenta anos, um filme pouco lembrado da produtora Pedregal Filmes, intitulado O Quinto Poder, abordava a ideia de agentes estrangeiros infiltrados no Brasil. Esses agentes supostamente irradiavam mensagens subliminares através das redes de rádio e televisão do país, visando induzir a população à violência e a uma revolução sem propósito.
Dirigido em 1962 pelo italiano Alberto Pieralisi e com roteiro de Carlos Pedregal, O Quinto Poder é hoje um título quase ignorado, mesmo entre os conhecedores de cinema. Contudo, ao ser revisitado no cenário contemporâneo — marcado pelos ataques ao Supremo Tribunal Federal, pela proximidade das eleições de 2026 em um ambiente de guerra híbrida e por evidências crescentes de financiamento estrangeiro a juristas e políticos que buscam manter o Brasil em posição subalterna —, o enredo distópico deste filme ganha um significado simbólico profundo.
A ideia de que a ficção científica brasileira serve como um diagnóstico tardio de nossas crises, funcionando como uma lente sobre a fragilidade democrática do país, não é inédita. Em trabalhos anteriores, o autor já havia apontado que este cinema opera em uma «atmosfera rarefeita», apresentando poucas obras, mas que persistem em momentos de grande tensão entre o avanço moderno e o caráter arcaico, entre o desenvolvimento e a dependência externa.
Neste artigo, propõe-se examinar alguns títulos produzidos entre o início dos anos 1960 e o final da década seguinte sob essa ótica. Estes filmes não apenas anteciparam a ditadura militar de 1964 a 1985, mas também previram, com notável precisão, o vocabulário atual usado para discutir desinformação, o financiamento externo de narrativas e a captura institucional.
O Quinto Poder é considerado um dos primeiros exemplos de ficção científica brasileira autêntica, ou, mais precisamente, um filme de «drama sério», seguindo a classificação dada por Ismail Xavier em seu livro Alegorias do Subdesenvolvimento (1993), em contraste com o registro «lúdico-carnavalesco» predominante em grande parte da produção do gênero.
A narrativa central do filme foca em uma potência estrangeira que planeja dominar o Brasil utilizando uma tecnologia de propaganda subliminar transmitida secretamente pelas comunicações nacionais. O Quinto Poder explorou a paranoia da propaganda subliminar, um tema popularizado após um experimento realizado por James Vicary nos EUA, durante a exibição do filme Férias de Amor (Picnic, Joshua Logan, 1955), no Fort Lee Theater, em Nova Jersey.
A lenda conta que anúncios com frases como «coma pipocas» e «beba Coca-Cola» foram projetados 12 vezes por minuto nos rostos de William Holden e Kim Novak, resultando em aumento significativo nas vendas desses produtos, embora experimentos posteriores tenham desacreditado a teoria da propaganda subliminar na ciência séria.
Apesar disso, o mito das mensagens subliminares permaneceu vivo na cultura popular. No caso de O Quinto Poder, esse tema gerou um suspense hipnótico e pouco conhecido, atualmente cult para alguns espectadores. O filme pode ser assistido no Canal Brasil ou no YouTube, apresentando cenas marcantes, como a do bondinho do Pão de Açúcar, que remete a um filme de James Bond (com Roger Moore), e um final impactante e eloquente no Corcovado, diante do Cristo Redentor.
Em termos de inspiração, O Quinto Poder evoca o cinema de grandes diretores como Alfred Hitchcock e Fritz Lang, assim como o imaginário do cinema de espionagem que se consolidaria na década seguinte (James Bond e similares). A conspiração movida por Pieralisi não é mais complexa ou surpreendente do que a biografia de seu idealizador e produtor, Carlos Pedregal.
Ao substituir as «antenas de rádio e TV» por algoritmos de redes sociais, a estrutura do enredo — uma potência estrangeira que utiliza a mídia dominante e financia agentes locais para gerar caos, minar instituições e manter o país sob tutela — corresponde exatamente à arquitetura descrita hoje pelo termo «guerra híbrida». O Quinto Poder já foi visto como um presságio sombrio do golpe militar de 1964; hoje, ele parece manter uma relevância estranha, mais de 60 anos após sua estreia.
Não se trata de impor uma leitura anacrônica a um filme de 1962 por conveniência. Trata-se de reconhecer que a ficção científica brasileira, especialmente nas décadas de 1960 e 70, atuou de maneira eloquente como uma «alegoria do subdesenvolvimento» (conceito de Ismail Xavier) — uma forma de «dizer o outro» usando códigos cifrados, em períodos de censura.
Se, a partir de 1968-69, o gênero ofereceu a cineastas como Walter Lima Jr. a sintaxe necessária para contornar a ditadura, hoje é pertinente reconhecer que esses mesmos filmes já continham, antes da hora, o diagnóstico do que vivemos: uma elite interna disposta a abrir mão da soberania em troca da manutenção de privilégios, e uma potência externa disposta a financiar essa entrega.
Além de O Quinto Poder, outros dois títulos merecem destaque. O Homem que Comprou o Mundo (1968), de Eduardo Coutinho, é outro exemplo dessa linha de ficção científica que apresenta visões brasileiras sobre o cenário geopolítico global. Este filme segue um indivíduo comum envolvido, contra sua vontade, em uma trama internacional durante a Guerra Fria, mesclando espionagem, ficção científica e comédia, o que, visto hoje, funciona como metáfora do cidadão brasileiro médio: um personagem passivo em um jogo geopolítico maior, cujas consequências recaem totalmente sobre ele.
Já Manhã Cinzenta (1969), um curta-metragem de Olney São Paulo, retrata o Brasil de um futuro próximo onde a ditadura militar emprega tecnologias como robôs e inteligência artificial para julgar e reprimir jovens dissidentes. Manhã Cinzenta é um filme perturbador, com uma trágica história de bastidores que levou à prisão de seu realizador. Assim como os longas Parada 88: O Limite de Alerta (José de Anchieta, 1978) ou Abrigo Nuclear (Roberto Pires, 1981), ele utiliza a linguagem e a sintaxe da ficção científica para expressar o que não podia ser dito abertamente.
Esses ecos cinematográficos ressoam até hoje, embora de maneira distinta, em um momento em que a erosão das bases do Estado e a soberania nacional retornaram ao foco do debate público no Brasil. Embora esses temas não sejam novos, é um fato que, desde a redemocratização, e especialmente após o período governado por Bolsonaro, os verdadeiros pontos de interesse — soberania nacional, recursos do país e crescimento econômico no contexto dos BRICS — são obscurecidos por fantasmas antigos como comunismo, inflação e corrupção.
Felizmente, tais espectros são tênues e desaparecem no ar, mas continuam causando danos ao turvar a visão de cerca de 50% do eleitorado. O autor não sugere que os cineastas dos anos 1960 pudessem prever a situação de 2026. Ele propõe algo mais modesto: que a ficção científica brasileira, justamente por operar em uma «atmosfera rarefeita», funciona como um termômetro das apreensões brasileiras frente à modernização, à emancipação, à dependência externa e à vulnerabilidade das instituições nacionais.



