Recentemente, ao discutir a paixão de Keith Flint por motocicletas no FlatOut, mencionou-se o legado duplo que ele deixou aos fãs: suas composições musicais e seu apreço por motos, incluindo duas vitórias no renomado Tourist Trophy de Isle of Man como proprietário de equipe.
Naturalmente, foi necessário citar Ian Hutchinson, pois ele foi o piloto que conquistou corridas pela equipe Traction Control, que foi estabelecida e administrada pelo vocalista do Prodigy. Por essa razão, o autor decidiu dedicar uma matéria a Hutchinson, conhecido nos bastidores do motociclismo como Hutchy, e também pelo apelido Miracle Man (que pode ser traduzido como 'Homem Milagre').
Este apelido não foi dado por acaso; Hutchinson é o centro de uma das maiores narrativas de superação, resiliência — um termo desgastado, mas justificado neste caso — e teimosia na história do motociclismo, o que não é um exagero.
O projétil de Bingley
Pode parecer curioso usar tais termos ao falar de Ian Hutchinson, dando a impressão de que se trata de uma lenda de tempos passados. No entanto, isso não é verdade: Ian Hutchinson nasceu em 12 de agosto de 1979, ou seja, na data da publicação deste texto, ele ainda não havia completado 50 anos. Sua cidade natal é a pacata Bingley, localizada no interior da Inglaterra, o que lhe rendeu um terceiro apelido: The Bingley Bullet ('O Projétil de Bingley'). Parece que essas cidades pequenas são frequentemente berços de talentos no automobilismo.
Obter informações detalhadas e precisas sobre o início da carreira de Hutchinson exige mais do que uma busca rápida na internet. Uma fonte é uma entrevista antiga do piloto ao site do Top Gear, onde ele relatou que começou a pilotar em 1999, aos 20 anos, o que seria relativamente tardio comparado a outros talentos, participando inicialmente de competições regionais em pistas fechadas, nas categorias de base.
Curiosamente, dois anos antes, ele possuía seu primeiro carro, um Peugeot 205 GTI. O piloto comentou à publicação: 'Eu bati ele duas vezes! Eles são traiçoeiros, não? Assim que você alivia o acelerador no meio da curva a traseira escapa'. Posteriormente, ele teve um Peugeot 205 GTI Dimma, uma versão icônica com kit widebody aftermarket. Em 1999, ele adquiriu um Mitsubishi Lancer Evolution VIII.
Independentemente disso, o foco de Hutchinson sempre foram as duas rodas. Em 2003, ele mudou das pistas fechadas para os circuitos de rua, decidindo imediatamente enfrentar o Tourist Trophy na categoria Newcomers, pilotando uma Honda de 600cc. Ele venceu a dupla composta por Jonathan Ralph e Alex Donaldson, ambos em Suzuki de 750cc, marcando o início de uma trajetória de recordista.
Uma ascensão meteórica
O Tourist Trophy da Ilha de Man não é uma corrida para iniciantes; diz-se que a curva de aprendizado no Snaefell Mountain Course leva anos. Contudo, Hutchy parecia ter o traçado de mais de 60 quilômetros gravado em sua memória. Após um susto inicial no North West 200 em 2004, onde lesionou a perna nos primeiros metros de treino, ele fez sua estreia oficial nas categorias principais do TT no mesmo ano, ficando entre os dez primeiros pilotando uma Suzuki (nunca sendo fiel a uma única marca).
Sua evolução foi impressionante. Em 2006, pilotando pela McAdoo Kawasaki, Hutchinson quebrou o recorde de volta da categoria Supersport no North West 200, atingindo incríveis 188 km/h de média, e no TT daquele ano, alcançou o pódio duas vezes. No entanto, o degrau mais alto veio em 2007, quando, com a HM Plant Honda, ele venceu o Supersport Junior TT, superando a lenda John McGuinness por uma margem mínima de 2,84 segundos. Superar McGuinness na Ilha de Man atrai a atenção mundial do motociclismo.
Entre 2008 e 2009, Hutchinson alternou de equipes (AIM Yamaha, depois Padgett’s Honda), acumulando pódios e quebrando recordes no Ulster Grand Prix com médias superiores a 214 km/h, solidificando sua fama como um dos pilotos mais rápidos e precisos em corridas de rua. Porém, nada preparou o mundo do motociclismo para o que ocorreria em 2010.
No automobilismo, fala-se muito sobre o 'flow state' — um estado quase transe onde piloto e máquina se unem em uma entidade única, imune ao medo, processando informações em velocidade difícil de ser explicada pela ciência. Em junho de 2010, Ian Hutchinson exemplificou um dos melhores casos de flow state na história do motociclismo.
O TT da Ilha de Man consiste em uma semana de treinos e uma semana de corridas extenuantes. Vencer uma corrida lá é o ápice da carreira de muitos pilotos; vencer duas no mesmo ano é reservado aos grandes nomes. Com a Padgett’s Honda, Hutchinson venceu a corrida de Superbike, seguida pela Supersport, e ainda conquistou a Superstock. Três vitórias na mesma semana já o colocavam em um grupo seleto, o que não o impediu de competir novamente na segunda corrida de Supersport e vencer mais uma vez, igualando o recorde histórico de Phillip McCallen em 1996, com quatro triunfos na mesma edição.
Restava a Senior TT, a prova principal, a mais longa, perigosa e prestigiada da Ilha. A largada inicial foi suspensa devido a um acidente alarmante envolvendo Guy Martin. Na relargada, com uma frieza notável, Hutchinson correu em ritmo extraordinário, vencendo com 37 segundos de vantagem sobre Ryan Farquhar. Cinco corridas, cinco vitórias. Uma varredura completa, um feito inédito em mais de cem anos de história do Tourist Trophy. O 'Projétil de Bingley' havia redefinido o motociclismo de rua em menos de dez anos de carreira.
Começa o pesadelo
A glória na Montanha de Manx frequentemente atrai a ira dos deuses da velocidade.
Em setembro de 2010, pouco tempo após fazer história na Ilha de Man e subjugar rivais no Ulster Grand Prix, Hutchinson estava no grid do Campeonato Britânico de Supersport (BSB) em Silverstone. Devido à chuva intensa, as condições traiçoeiras provocaram um engavetamento com vários pilotos na primeira volta. Hutchinson caiu — o que, até então, era esperado na profissão. No entanto, enquanto deslizava inerte pela pista, a moto de um competidor que vinha logo atrás não conseguiu desviar e o atingiu em um impacto devastador. Sua perna esquerda sofreu múltiplas fraturas expostas na tíbia e na fíbula. O osso foi destruído, os tecidos rasgados e as artérias gravemente danificadas, levando os paramédicos a considerar imediatamente a possibilidade de amputação.
Naquele dia chuvoso em Silverstone, encerrou-se a fase de prodígio e começava a saga do Miracle Man. Dizer que Ian Hutchinson 'se recuperou' é um eufemismo quase desrespeitoso; o que este homem realizou foi declarar guerra ao próprio corpo. Foram necessárias 16 cirurgias iniciais e inúmeros enxertos de pele apenas para salvar o membro. Ele perdeu o início da temporada de 2011, passando dias em leitos hospitalares e encarando gaiolas de fixadores externos cravados em seus ossos.
A dor era uma companheira constante, assim como o risco de infecção. Mas no final de 2011, de maneira surpreendente, Hutchinson retornou ao grid para o Grande Prêmio de Macau e liderou a corrida nas primeiras voltas, terminando em terceiro lugar.
Contudo, a felicidade foi breve. Em 2012, após assinar com a Swan Yamaha, ele estava realizando um treino off-road como preparação para um evento em Londres. Subitamente, com um movimento simples, sua perna esquerda, ainda frágil, quebrou novamente. De volta aos fixadores externos e à mesa de cirurgia. Hutchinson ainda participou do TT de 2012 com grande sacrifício, conseguindo terminar entre os dez primeiros em algumas provas, mas seu corpo atingiu seu limite. Foi nesse ponto que Hutchinson tomou uma decisão que demonstrou sua determinação em prosseguir: se o corpo humano não conseguia mais se adaptar à moto convencional, a mecânica da moto deveria se adequar à sua vontade.
Sua perna esquerda perdeu força, amplitude de movimento e sensibilidade, tornando as trocas de marcha no lado esquerdo quase impossíveis. A solução encontrada foi inverter os comandos: o pedaleiro do câmbio foi redesenhado e movido para o lado direito da moto, juntamente com o freio traseiro original. Para operar o freio traseiro, os mecânicos instalaram um sistema acionado pelo polegar esquerdo no guidão, uma técnica já utilizada por Mick Doohan nas 500cc, visto que ele também sofreu um acidente e quase perdeu a perna esquerda.
No total, Hutchinson enfrentaria 30 cirurgias em sua perna esquerda. A trigésima, e teoricamente a última, ocorreu em setembro de 2013, exatamente três anos após o acidente em Silverstone. Ele passou por mais um ciclo de fisioterapia dolorosa e foi ao circuito de Almería testar uma Yamaha R1 da equipe Milwaukee, completando mais de 200 voltas para forçar seu cérebro a se adaptar ao novo arranjo da moto.
O retorno do Projétil
O teste definitivo dessa nova era aconteceu em Macau, no final de 2013. O GP de Macau é inegavelmente uma das corridas de moto mais intensas do planeta, superada apenas pelo TT em Manx, realizado em um circuito de rua apertado entre barreiras de proteção e muros amarelos e pretos, sem área de fuga.
Ian e a Milwaukee Yamaha se inscreveram com atraso, perdendo o prazo em 24 horas — a organização inicialmente recusou a entrada, mas reconsiderou dias depois. Com uma moto totalmente modificada e uma perna que parecia um mapa de cicatrizes de guerra, Hutchinson não só entrou na pista, como conquistou mais uma pole position. Na corrida, ele protagonizou um duelo épico contra Michael Rutter — o mestre absoluto de Macau — e o veterano John McGuinness. Usando o freio no polegar e marchas invertidas, Hutchinson venceu a corrida, provando aos céticos que o Homem Milagre havia retornado ao topo do pódio.
Pouco tempo depois, seu caminho cruzou com o de Keith Flint. Em 2015, Hutchinson retomou sua forma anterior no Isle of Man TT, vencendo três corridas naquele ano — uma delas pilotando a potente Kawasaki ZX-10R da equipe PBM, na classe Superstock. As outras duas foram na classe Supersport, utilizando a Yamaha YZF-R6 meticulosamente preparada pela Team Traction Control, a equipe do vocalista do The Prodigy.
Não havia cenário melhor para essa colaboração: Flint representava a personificação do punk eletrônico e da energia anárquica nos palcos, e forneceu a máquina ideal para Hutchinson, o piloto que se recusava a ser intimidado pelos dados médicos. Esse desempenho rendeu a Hutchinson o troféu Joey Dunlop de 2015.
A consagração definitiva veio em 2016. Competiendo pela Tyco BMW na categoria 1000cc e mantendo a parceria com a Team Traction Control nas 600cc, Hutchy novamente superou a concorrência, vencendo a Superstock e ambas as etapas da Supersport. Como um bônus, durante os treinos da Superstock, ele quebrou o recorde do circuito para motos com pneus de rua.
Sua vitória na segunda corrida de Supersport em 2016 marcou seu 14º triunfo no TT da Ilha de Man. Nesse momento histórico, o jovem de Bingley igualou o número de vitórias a Mike 'The Bike' Hailwood, considerado por muitos o maior talento natural em motociclismo. Este feito lhe garantiu o raro Troféu Torrens, concedido pelo Royal Automobile Club do Reino Unido, uma homenagem dada apenas àqueles que demonstram 'determinação notável, coragem e superação de adversidades'.
