Cientistas criam camundongos com células cerebrais humanas para novos estudos neurológicos
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Cientistas criam camundongos com células cerebrais humanas para novos estudos neurológicos

Na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, uma equipe de cientistas está monitorando cerca de vinte camundongos que, embora pareçam normais à primeira vista, contêm um elemento extraordinário em seus cérebros: milhões de neurônios humanos.

Um novo estudo divulgado na revista Nature descreve como neurocientistas realizaram o transplante de células cerebrais humanas no cérebro de camundongos, preenchendo áreas incompletas do sistema nervoso. Este procedimento cria um novo modelo experimental que pode auxiliar na identificação de causas ou no desenvolvimento de tratamentos para distúrbios neuropsiquiátricos, tais como certos tipos de demência ou paralisia cerebral.

Este trabalho marca um progresso significativo nos esforços para recriar o cérebro humano fora do corpo. A análise de neurônios vivos tem sido um desafio persistente neste campo de pesquisa por várias décadas.

Uma alternativa surgiu no início dos anos 2010 com o desenvolvimento de estruturas chamadas organoides. Em vez de examinar um órgão humano diretamente, os pesquisadores passaram a conseguir cultivar em laboratório versões menores e simplificadas dos tecidos corporais. Por exemplo, a partir de células da pele, é possível gerar diversos organoides cerebrais que mimetizam certas funções e características de um cérebro real.

Contudo, essas réplicas apresentam limitações, pois carecem de vasos sanguíneos e são muito pequenas. Sergiu Pasca, um dos pesquisadores responsáveis pela descoberta dos organoides e atual coordenador do estudo com camundongos, afirmou em um comunicado que seria impossível estudar comportamentos humanos complexos dentro de uma placa de cultura celular.

A tentativa de superar essa limitação ocorreu em 2018, quando cientistas inseriram organoides cerebrais no cérebro de camundongos. Posteriormente, em um estudo de 2022, essas células foram transplantadas para o centro visual dos animais, demonstrando que tanto os neurônios de camundongos quanto os humanos respondiam à luz.

Mais recentemente, em 2024, outro estudo liderado por Pasca investigou a síndrome de Timothy, uma condição genética rara associada à epilepsia e a um autismo grave, utilizando organoides em camundongos jovens. Esse método permitiu à equipe avaliar a eficácia dos oligonucleotídeos antisense, um tipo específico de medicamento, contra o transtorno.

Embora semelhante ao estudo mais recente, o experimento de 2024 utilizou um transplante mais básico, inserindo as células cerebrais humanas ao lado dos tecidos cerebrais dos roedores jovens, que já estavam em rápido desenvolvimento, forçando os organoides humanos a competir por espaço.

No experimento atual, os pesquisadores empregaram camundongos geneticamente modificados para não desenvolverem o córtex — a camada externa do cérebro responsável pela cognição, memória e tomada de decisões, e que é desproporcionalmente maior em humanos para suportar linguagem e pensamentos complexos. Nesse local, dentro da cavidade craniana, havia um espaço vazio preenchido com fluidos cerebrais.

A cirurgia para injetar as células humanas foi realizada poucos dias após o nascimento dos camundongos, quando as conexões cerebrais primárias já estavam estabelecidas. Nesta área cortical ausente, foram introduzidas centenas de milhares de células humanas. Sem concorrência, elas se multiplicaram rapidamente; em dois ou três meses, a quantidade quase quintuplicou, atingindo cerca de 4 milhões e ocupando mais de 90% do espaço anteriormente ocupado por líquido.

Essas células humanas, ainda imaturas (comparáveis às de um feto no terceiro trimestre de gestação), ativaram-se e formaram conexões conforme o camundongo vivia. Além disso, o tecido humano conseguiu gerar um tipo especializado de neurônio ligado à cognição social, os neurônios em fuso, que nunca haviam sido criados em laboratório. Esses neurônios são as primeiras células a morrer em casos de demência frontotemporal.

Os camundongos modificados não apresentaram diferenças visíveis em comparação com os camundongos comuns, tanto em seus movimentos quanto no desempenho em tarefas cognitivas e de memória. No entanto, uma exceção foi observada ao submeter ambos os tipos de camundongos a condições de baixa oxigenação. Enquanto em bebês humanos essa privação pode causar danos graves no córtex, levando à paralisia cerebral, nos camundongos o mesmo não ocorre; todavia, os camundongos com células cerebrais humanas exibiram sintomas análogos aos de indivíduos com paralisia cerebral.

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Pesquisadores da Stanford Medicine desenvolveram uma nova metodologia que permite cultivar tecido cerebral humano dentro de camundongos geneticamente modificados. Esses animais são projetados para não desenvolverem a maior parte do córtex e do hipocampo. O enxerto implantado demonstrou capacidade de crescer, formar vasos sanguíneos e estabelecer ligações funcionais com o sistema nervoso dos roedores.

Esses chamados 'camundongos xenocorticais' oferecem uma ferramenta valiosa para a investigação do desenvolvimento cerebral e de diversas patologias neurológicas. Além disso, o experimento possibilitou a observação de tipos de neurônios humanos que são difíceis de replicar em ambientes laboratoriais tradicionais, permitindo testar a reação desse tecido a mudanças associadas a diferentes condições de saúde.

Para realizar o estudo, os cientistas alteraram geneticamente os camundongos, impedindo o desenvolvimento extenso do córtex e do hipocampo. Alguns animais serviram como controle, permanecendo sem o enxerto, enquanto outros receberam organoides de córtex humano logo após o nascimento.

À medida que os animais cresciam, o tecido humano ocupava o espaço disponível. Em um período de três meses, este tecido aumentou quase cinco vezes seu volume inicial, representando mais de 90% do volume cortical. O enxerto também se tornou eletricamente ativo e desenvolveu vasos sanguíneos, enviando projeções até a medula espinhal.

Sergiu Pașca, professor da Stanford e autor do estudo, esclareceu que, embora os animais possuam um sistema nervoso, órgãos sensoriais e estruturas subcorticais de camundongo, o aspecto notável é que a maior parte do tecido cortical é de origem humana, e os neurônios humanos conseguem crescer, integrar-se e criar conexões funcionais com o restante do sistema nervoso do camundongo.

É importante notar que o tecido transplantado ainda não atingiu a maturidade de um córtex humano. Mesmo após aproximadamente seis meses, ele permaneceu imaturo e carecia das camadas organizadas típicas de um córtex adulto. Contudo, os pesquisadores identificaram neurônios que apresentaram dificuldade em serem produzidos em outros modelos, incluindo células semelhantes aos neurônios de von Economo, que são estruturas alongadas encontradas em áreas específicas do cérebro humano.

Entre as aplicações potenciais deste modelo está o estudo de memória. Em um teste realizado com um labirinto em Y, os camundongos xenocorticais demonstraram um desempenho superior ao esperado pelo acaso. Os animais que não possuíam córtex e hipocampo mostraram dificuldades em recordar qual perna do labirinto haviam visitado. No entanto, Pașca advertiu que este resultado não permite afirmar que os neurônios humanos são diretamente responsáveis pelo comportamento observado.

A incorporação de tecido cerebral humano também suscita importantes dilemas éticos. A equipe incluiu bioeticistas da Stanford e um comitê externo composto por neurocientistas, especialistas em ética, juristas e representantes de pacientes. Os animais foram rigorosamente monitorados durante todo o estudo para detectar quaisquer efeitos biológicos ou comportamentais imprevistos.

Uma outra preocupação central reside em determinar se a inserção de tecido neural humano progressivamente mais complexo no sistema nervoso de um animal pode gerar propriedades emergentes ou novas que demandem uma consideração ética adicional. O estudo, publicado na revista Nature, posiciona os camundongos xenocorticais como uma ferramenta para examinar o cérebro humano em um organismo vivo, mantendo o desafio de distinguir os efeitos das células humanas daqueles gerados pelo sistema nervoso do animal.

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