Guinness, uma das cervejarias mais antigas do planeta, foi fundada em 1759 em Dublin, Irlanda. Sua bebida mais famosa, a Extra Stout, deriva da cerveja Superior Porter, para a qual Arthur Guinness II estabeleceu especificações detalhadas em 1821. A longevidade e qualidade da Guinness atuais são resultado da preservação e melhoria contínua deste receituário de mais de duzentos anos.
Este achado é particularmente significativo, visto que grande parte da história inicial da Guinness permanece obscura; por exemplo, o registro do uso de leveduras, um componente vital da cerveja moderna, só aparece em 1809. Muitas das receitas da marca só foram preservadas graças ao primeiro Arthur Guinness, ou possivelmente a um de seus descendentes, que anotou os receituários em um caderno datado de 1801.
Eibhlin Colgan, arquivista da marca, comenta que o caderno contém receitas para vários tipos de cerveja, ressaltando que, naquela época, a Guinness ainda não havia sido inventada, apesar de hoje ser conhecida pela sua espuma cremosa e textura suave. Essas características modernas só surgiram após a introdução da nitrogenação em 1959.
Contudo, possuir apenas as receitas não é suficiente para recriar uma Guinness de séculos passados, pois seriam necessários ingredientes equivalentes. Isso é complexo, especialmente com leveduras, que são organismos vivos sujeitos a mutações e alterações genéticas ao longo de gerações. Historicamente, os cervejeiros frequentemente reutilizavam leveduras de uma fermentação para outra, fazendo com que linhagens mantidas por longos períodos mudassem gradualmente, mesmo que a espécie, Saccharomyces cerevisiae, permanecesse a mesma.
Eventos recentes motivaram cientistas a tentar replicar uma Guinness exatamente como era em 1864. Em 2025, mergulhadores investigaram os destroços de um navio do século XIX na costa de Dover, Inglaterra, e localizaram uma garrafa lacrada de Guinness Extra Stout. O navio, chamado Mindoro, um navio britânico, afundou em 27 de novembro de 1864, conferindo à garrafa cerca de 162 anos de idade.
Embora a primeira garrafa estivesse no fundo do oceano, os mergulhadores descobriram outras dentro de caixotes de madeira virados. A pressão marinha criou, segundo os exploradores, um «bloqueio hidráulico natural perfeito», prevenindo a infiltração de água salgada. Testes estão em andamento para confirmar a ausência de contaminação.
Se for confirmado que a cerveja está intacta (os testes estão ocorrendo), os mergulhadores planejam duas ações. A primeira é degustar essa Guinness quase bicentenária. A segunda é extrair o DNA das leveduras presentes para identificar uma cultura contemporânea similar, possibilitando a produção de uma cerveja idêntica ou muito próxima à original do naufrágio.
O projeto recebeu o apelido de «Jurassic Beer» e foi descrito por Pawel Truszynski, um dos mergulhadores, no Instagram: «Estamos entrando em contato com laboratórios de microbiologia e com o Arquivo oficial da Guinness, em Dublin, para extrair amostras de forma estéril e tentar ressuscitar cepas vivas de levedura do século 19. O objetivo? Decifrar o DNA e produzir novamente essa cerveja, recriando exatamente o sabor que ela tinha há 162 anos!».
Para concretizar este feito, os mergulhadores contam com o auxílio do microbiólogo Kevin Verstrepen, da KU Leuven, uma universidade na Bélgica. O cientista expressa ceticismo inicial, mas afirma que é possível recuperar o DNA da levedura histórica de 1864. Mais formalmente, ele declarou ao The Washington Post que, com o sequenciamento do DNA, será possível mapear a posição da levedura na árvore genealógica e, assim, buscar parentes modernos.
Por sua vez, a cervejaria Guinness informou que está avaliando o experimento e ainda não fez uma declaração oficial sobre a proposta. No contexto específico da Guinness, existe um motivo adicional para buscar a levedura de 1864: a linhagem moderna da levedura da Guinness pode ser rastreada até uma amostra preservada de 1903, cujas origens são desconhecidas. A garrafa do Mindoro permitiria retroceder mais 39 anos.
O projeto ainda está em fases iniciais, mas Pawel documenta tudo em seu Instagram, incluindo pesquisas adicionais sobre o Mindoro e seu naufrágio. Há a possibilidade de que, se tudo correr bem, a Guinness decida relançar sua versão de 1864.
