Em todo o território brasileiro, a arquitetura manifesta-se através de diversas práticas, escalas e interações com o ambiente local. A seleção deste mês ressalta ações que transcendem os limites tradicionais da disciplina, focando em abordagens colaborativas que unem projeto e construção, além de projetos sensíveis à paisagem, à memória e à comunidade.
Além dos edifícios e espaços públicos recentemente finalizados, novas intervenções culturais em São Paulo e no Rio de Janeiro demonstram a convergência da arquitetura com a arte, o patrimônio e o contexto urbano.
Práticas brasileiras expandem o escopo da atuação arquitetônica
Duas iniciativas brasileiras foram incluídas entre as 20 selecionadas no prêmio ArchDaily Next Practices Awards de 2026, que visa reconhecer métodos que ampliam o papel da arquitetura por meio de variadas formas de atuação.
A AGENCIA TPBA, sediada no Rio de Janeiro, trabalha com propostas urbanas, edifícios, concursos e instalações temporárias, explorando as relações entre cidade, construção e espaço em diferentes formatos e escalas. Já Talles Lopes, atuando em arquitetura, artes e pesquisa em Anápolis, Goiás, utiliza levantamentos visuais e arquivísticos para analisar as paisagens periféricas do Brasil e suas maneiras de representação.
Embora empreguem metodologias distintas, ambas as abordagens levam a arquitetura para além de um modelo profissional estrito, utilizando a pesquisa, a especulação, o material de arquivo e a obra construída como ferramentas de engajamento com o cenário construído nacional.
USINA revisita a arquitetura por meio da construção coletiva
Com mais de trinta anos de experiência em habitação de interesse social e autogestão, a USINA — Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado (USINA CTAH) estabeleceu-se como uma referência crucial em construção coletiva no Brasil.
Um editorial sobre o grupo aponta como a crescente especialização e a industrialização acabaram por separar os processos de construção, financiamento, gestão e projeto. Em contraste, os mutirões coletivos, as cooperativas e a construção autogerida promovem a aproximação dessas fases, tratando o canteiro de obras como um local de aprendizado compartilhado e tomada de decisões conjuntas.
O trabalho da USINA ilustra como a participação pode ir além de uma mera consulta, integrando o próprio ato de construir ao núcleo do processo arquitetônico e levantando questões sobre quem detém o poder decisório e o conhecimento na criação do ambiente construído.
Projetos em Destaque
Território-Parque / MACh Arquitetos + Connatural
No Córrego do Feijão, MACh Arquitetos e Connatural conceberam o Território-Parque como uma resposta para reconectar a comunidade à sua história e paisagem após o rompimento da barragem ocorrido em 2019.
O projeto organiza quatro setores interligados: a Área Central, o Campo de Futebol, o Parque Ecológico e a Área Simbólica, utilizando uma estratégia paisagística focada na água. Canais de irrigação, jardins filtrantes e wetlands construídos complementam os espaços públicos, recreativos, culturais e ecológicos.
Elementos existentes, como um muro de pedra seca do cemitério, a vegetação nativa e uma casa de adobe, foram integrados ao desenho. A proposta também inclui um jardim sensorial e um local de velório dedicado à memória das 272 vítimas, além de um mercado comunitário e um Centro de Cultura e Artesanato para apoiar a produção local e atividades culturais.
Em São Paulo, o escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados projetou o Infantil do Colégio Santa Cruz, centrado em um pátio que serve como principal área de convívio e lazer. Este pátio funciona também como uma zona de transição entre a escola e a Marginal Pinheiros, sendo a volumetria do prédio uma barreira acústica, mas aberta para o norte.
As salas de aula estão dispostas ao redor do pátio e acessam quintais individuais, promovendo boa ventilação cruzada, iluminação natural e oportunidades de atividades externas. Uma rampa conduz ao andar superior, onde se encontram os ateliês de artes, as salas administrativas e o refeitório, todos com acesso a terraços cobertos. O edifício, com 3.417 metros quadrados, emprega um sistema estrutural modular que mescla madeira engenheirada, concreto, aço e drywall, permitindo adaptações ao desenvolvimento pedagógico.
Na Chapada dos Veadeiros, perto do Parque Nacional, o Mirante de São Jorge foi projetado por Alan Chu no topo de um morro historicamente usado pela comunidade para observar o pôr do sol. O projeto minimiza seu impacto ambiental ao se instalar em uma clareira não utilizada e usar uma estrutura elevada sobre pilotis, protegendo a drenagem natural, a vegetação nativa e a topografia.
Um mirante circular de 57 metros de diâmetro e oito metros de largura é formado, criando um espaço contínuo para observação da paisagem. Uma cobertura curva de madeira oferece abrigo, enquanto árvores pré-existentes atravessam a estrutura, fortalecendo a ligação com o local. O projeto equilibra um ponto de encontro público com uma intervenção de baixo impacto na paisagem do Cerrado.
No Radar
Em São Paulo, o MASP finalizou a nova passagem subterrânea que liga o edifício icônico de 1968, desenhado por Lina Bo Bardi, ao edifício Pietro Maria Bardi, inaugurado recentemente.
Esta galeria, com cerca de 50 metros de extensão, foi aberta ao público em 11 de setembro e abriga Pietrolina, uma nova obra de 98 metros da artista brasileira Beatriz Milhazes. A instalação, criada especificamente para o local, une um segmento de pintura de 60 metros com elementos reflexivos, proporcionando uma vivência imersiva na conexão subterrânea do museu.
Na ArtRio 2026, que ocorrerá no Rio de Janeiro na Axia Marina da Glória de 16 a 20 de setembro, a feira se estenderá além dos pavilhões de exposição com instalações *site-specific* e intervenções ao ar livre.
O Jardim das Esculturas da feira apresenta trabalhos de 18 artistas selecionados pela curadora Christiane Laclau, posicionados em diálogo com o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara e os jardins de Burle Marx no Parque do Flamengo. Entre os destaques, Caminho de Casa, de Heberth Sobral, usa o cobogó como ponto de partida para uma instalação espacial que discute pertencimento, memória e transformação, enquanto o inflável Soft Power, de Gabriel Massan, tem sete metros de altura e ocupa as áreas verdes externas aos pavilhões.