A trajetória da arquitetura foi marcada por um afastamento gradual entre o ato de desenhar e o de construir, um fenômeno que ganhou destaque durante o Renascimento, exemplificado pela cúpula de Santa Maria del Fiore, concluída em 1436 em Florença, Itália. Nessa época, o desenho começou a funcionar como uma ferramenta para impor autoridade sobre a execução, transformando o canteiro de obras de um espaço de inovação para um mero local de implementação.
Ao longo dos séculos subsequentes, especialmente com a modernização, esse distanciamento se intensificou. A industrialização, a alta especialização técnica e a estrutura corporativa dividiram o processo construtivo em fases distintas. Isso resultou em uma situação onde quem projeta raramente constrói, quem constrói nem sempre decide, e quem financia, gerencia e habita mantém posições cada vez mais distantes entre si. Embora este modelo tenha permitido a construção em grande escala, ele também centralizou o poder de decisão e o conhecimento em poucas entidades.
Em resposta a essa fragmentação, as metodologias contemporâneas de construção coletiva, como os mutirões (autogestão), cooperativas e processos autogeridos, ressurgem com grande importância. Tais práticas não significam abandonar a técnica ou o planejamento, mas sim redefinir o processo construtivo como um ambiente de aprendizado e produção compartilhada.
Neste contexto, a USINA — Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado (USINA CTAH) serve como um estudo de caso notável. Há mais de trinta anos, este grupo tem atuado no setor de moradia de interesse social e autogestão no Brasil.
A USINA foi estabelecida em São Paulo no começo da década de 1990, coincidindo com o processo de redemocratização do Brasil e a reorganização dos movimentos por moradia. Arquitetos, engenheiros e cientistas sociais se uniram, impulsionados por preocupações relativas à assistência técnica, aos movimentos sociais e à produção de habitações.
O método implementado pela USINA permite que os futuros moradores participem, em diversos níveis, das decisões e dos processos ligados à edificação de suas próprias residências, engajando-se ativamente na luta por moradia. Essa abordagem força uma reavaliação dos papéis, inclusive o do arquiteto. A equipe técnica deixa de focar apenas em um projeto finalizado e passa a operar dentro de um ciclo contínuo de negociação. As informações sobre custos, materiais e soluções construtivas são debatidas coletivamente, garantindo que o saber técnico, apesar de essencial, não fique restrito aos especialistas.
No canteiro de obras, essa organização se manifesta através dos mutirões. Famílias que possuem outras ocupações durante a semana dedicam parte do seu tempo à construção nos fins de semana ou em jornadas de trabalho coletivo. Enquanto alguns indivíduos trabalham diretamente na obra, outros assumem tarefas de organização, preparo de alimentos, cuidado infantil ou administração de materiais.
O mutirão vai além de simplesmente delegar o trabalho tipicamente realizado por uma construtora aos futuros moradores; ele potencializa a capacidade de aprender, tomar decisões e direcionar o projeto por meio de processos autogeridos. Essa diferença é crucial para assegurar que a participação não se limite apenas ao fornecimento de força de trabalho.
Com este sistema, a USINA possibilitou a concretização e construção de mais de 5.000 unidades habitacionais, além de escolas, creches e centros comunitários em diversas cidades e assentamentos rurais. Uma parcela significativa dessa produção ocorreu em grande escala, contestando a noção comum de que o trabalho artesanal está ligado apenas a construções de pequeno porte. O COPROMO, localizado em Osasco, por exemplo, conta com 1.000 apartamentos espalhados em cinquenta edifícios. Estes foram erguidos ao longo de oito anos utilizando blocos cerâmicos autoportantes, eliminando a necessidade de estruturas verticais de concreto e viabilizando a construção por mutirão, visto que a maioria dos participantes não possuía experiência prévia em construção civil.
Portanto, não se trata de iniciativas isoladas e pequenas de autoconstrução. São empreendimentos complexos, que exigem infraestrutura, financiamento, coordenação técnica e desafios de escala comparáveis aos encontrados em outros métodos de produção habitacional. Em outro projeto da USINA, o Mutirão Paulo Freire, a combinação de tecnologia avançada — incluindo estruturas metálicas de vários pavimentos — com procedimentos por vezes simples, desfaz o pressuposto comum e preconceituoso de que tais canteiros carecem de sofisticação técnica.
Existe também uma camada simbólica na adoção de tecnologias geralmente ligadas a construções de alto custo. Ao integrá-las a um canteiro autogerido, busca-se mudar seu significado e colocá-las a serviço da moradia de interesse social. O propósito prático era elevar a qualidade, expandir os espaços coletivos, diminuir o esforço físico de trabalhadores e acelerar o acesso à casa própria.
Nos mutirões, a especialização persiste, mas o conhecimento técnico pode ser disseminado para mais pessoas e permanecer no grupo mesmo após a conclusão da obra. No COPROMO, por exemplo, os próprios mutirantes decidiram montar uma oficina de serralheria para fabricar as escadas metálicas dos edifícios, diminuindo a dependência de empresas terceirizadas. Essa decisão nasceu de uma necessidade econômica e organizacional. Contudo, seus impactos foram maiores que a redução de custos; um saber que seria contratado externamente passou a ser acessível e compartilhável pelos participantes.
Este aspecto é vital para entender a dimensão artesanal da construção coletiva. Neste cenário, o fazer artesanal não deve ser interpretado como um retorno à manufatura pré-industrial, nem como uma celebração da imperfeição apenas por ser feito à mão. Sua essência reside na interação entre o conhecimento e o material. Quem participa do processo vivencia a resistência dos materiais, identifica falhas, ajusta procedimentos e aprende com soluções não totalmente previstas.
Sob este modelo, o progresso da construção ocorre mais lentamente do que em um empreendimento residencial tradicional. A dependência do trabalho dos participantes, as dificuldades financeiras e a necessidade de consenso coletivo podem causar atrasos e divergências. No entanto, julgar o processo somente pela velocidade limita a visão do próprio modelo convencional. Quando um projeto é avaliado apenas pelo cronograma, custo e quantidade de unidades entregues, aspectos vitais do processo, como o conhecimento adquirido, as redes de suporte criadas e a capacidade coletiva de gerenciar complexidades, acabam sendo ignorados.
Os resultados deste processo não terminam com a finalização das obras. No Mutirão União da Juta, por exemplo, a construção de áreas e equipamentos comunitários expandiu o alcance da ação coletiva, conectando a produção de moradias ao desenvolvimento do bairro. Durante esse período, os participantes adquiriram competências técnicas em hidráulica, elétrica, serralheria e outras áreas da construção civil, o que, para alguns, se tornou posteriormente uma fonte de renda. Outros desenvolveram experiência em gestão de recursos, organização de grupos e condução de assembleias. Assim, o canteiro de obras funcionou também como um centro de formação prática.
A experiência brasileira se encaixa em um panorama mais vasto de cooperativismo habitacional na América Latina. No Uruguai, por exemplo, a Federación Uruguaya de Cooperativas de Vivienda por Ayuda Mutua (FUCVAM), fundada em 1970, hoje conta com aproximadamente 750 cooperativas filiadas e já construiu mais de 35.000 moradias por meio de ajuda mútua, um modelo reconhecido globalmente e premiado com o World Habitat Award em 2012.
No Brasil, grupos como a USINA abordam essa questão ao recusar a ideia de que o saber profissional deva ser o único conhecimento válido sobre a construção. Essa recusa configura também uma prática política, pois articula diferentes agentes e saberes, criando as condições necessárias para viabilizar projetos coletivos. Dessa forma, os mutirões questionam os padrões de trabalho convencionais. Eles nem sempre são mais rápidos, simples ou ecologicamente corretos, mas levantam questões que a produção industrial costuma negligenciar: quem controla o conhecimento necessário para construir? E o que um processo construtivo pode gerar além do próprio edifício?
Nas vivências da USINA, estas questões permanecem em aberto porque o processo é parte intrínseca da obra. A casa transcende o papel de mero produto final de uma cadeia produtiva, passando a incorporar as relações, os saberes e as decisões que a geraram. Em última análise, está em jogo também uma maneira diferente de conceber quem pode produzir arquitetura e quais conhecimentos sustentam essa produção.